OPINIÃO

Salvem-se os ricos!

OPINIÃO | JOÃO PRUDÊNCIO

Circula nas redes sociais e merece os aplausos da maioria dos que comentam. O texto, da autoria de um desconhecido “Vítor Gingeira”, fala de uma sociedade, a nossa, dividida entre formigas e cigarras. Mas não como os do tempo do PREC, exploradores e explorados, capitalistas e trabalhadores. Não! O texto que nos divide entre cantores e trabucadores poupa os clássicos opressores, não são eles que passam o dia a cantar enquanto a maioria trabalha.


Para conseguir divisar as balizas sociais da alegoria insectóide, tive que a reler, tão habituado estou à clássica divisão social de raiz marxista, que mesmo 45 anos depois da Revolução enforma ainda os nossos cânones ideológicos e políticos. A começar pela divisão política entre esquerda e direita.


Mas não naquele texto. Nele a divisão social é – lá fui percebendo – entre uma classe indefinida, mas trabalhadora, labutadora, que não se poupa a esforços para ganhar a vida, e uma outra preguiçosa, que passa os dias no café, compra sapatos e roupa de marca, vive de subsídios. À primeira o Estado tudo tira, fica-lhe com a casa – que depois entrega à cigarra -, obriga-a a emigrar. À segunda o Estado tudo dá, subsídios, doações, habitação, visibilidade na TV.


Percebemos que estamos perante uma divisão social artificial, fora dos cânones que dividem o mundo entre os detentores de toda a riqueza e os que detêm unicamente a sua força braçal, ou intelectual, que vendem aos primeiros, num ciclo contínuo de exploração.


Neste novo mundo, aparentemente já tão reconhecível por tanta gente, os explorados são os ricos e os pobres e a classe média, todos pagantes de impostos, a quem meia dúzia de crápulas roubam o suor para passar os dias nos cafés, vivendo de subsídios da Segurança Social, ou em formações do IEFP.


Desconheço esta última classe social. Para mim, continuam a fazer sentido as categorias sociais clássicas. Os muito ricos e detentores de quase toda a riqueza, a classe alta, média, baixa. E a muito baixa, alguns dos quais são obrigados pelas circunstâncias das suas vidas a recorrer a subsídios quando as coisas dão para o torto.


Sei que um subsídio de desemprego não pode exceder 1097€, mesmo quando o desempregado teve um salário cinco ou dez vezes superior; sei que, após alguns meses a receber esse subsídio, se não se arranjar emprego, se passa aos 438,81€ do subsídio social de desemprego, que na maior parte dos casos não vai além de um ano de duração; sei que no fundo do buraco, no RSI, um adulto recebe 189,66€, o segundo adulto e os seguintes 132,76€ e um menor 94,83€, o que dá 512,08€ para uma família de pai, mãe e dois filhos.


Sei também que, para perder parte do RSI, basta ser convocado para uma formação do IEFP e que essa formação é paga a 1,57€ à hora (220€ por mês para uma formação de segunda a sexta, 7 horas por dia), a que acrescem 4,77€ por dia de subsídio de refeição.


Não sei se os exageros remuneratórios explicitados acima são suficientes para demarcar a essência do que é uma classe exploradora, se sobrará muito pilim para passar dias no café, ou haverá folga para comprar ténis adidas. Sei que não é preciso muito para se decair na escala social e quanto é difícil recuperar, depois da queda.


Dizem os contentinhos deste tipo de textos que só não trabalha quem não quer e que abunda a oferta de emprego. Que aqueles a quem chamam cigarras só não passam a formigas porque trabalhar cansa. Na esmagadora maioria dos casos, não é verdade: a circunstância específica, a conjuntura económica, mas também a formação, as habilitações académicas, a idade, até a etnia do candidato a emprego podem frustrar toda a boa vontade, por muito que ela exista. E existe quase sempre.


Dizem-me as notícias que, antes de cair em desgraça, António Mexia ganhava 6 mil euros por dia, 180 mil por mês. O País está cheio de “mexias”. Para os que escrevem e aplaudem certos textos imbecis, eles são tão “formigas” como quem ganha um salário mínimo, ou médio que seja.


Esta mudança de paradigma, de que a metafórica fábula é exemplo, satisfaz os grandes deste mundo – é desses que falo, pois juntar todos os empresários no mesmo saco seria outra imbecilidade, semelhante à do nosso textinho. Pelo meio das guerras entre brancos e pretos, ciganos e gentios, trabalhadores do salário mínimo e gente que recebe o RSI, indígenas e imigrantes, monhés e branquelas, guerras essas fomentadas pelos poderosos deste mundo, escapam esses poderosos, os CEOs que ganham milhões sem nunca terem feito porra nenhuma para chegarem onde chegaram. Na maior parte das vezes herdaram a riqueza, já eram ricos antes de o ser.


A minha mira não são os ciganos, nem os pretos, nem os desgraçados do RSI, nem os desempregados de longa duração. A minha mira é contra os que atiram os gentios contra os ciganos, dizendo que eles não querem trabalhar, mas jamais deram ou dariam trabalho a um deles; juram que os pretos não evoluem mas continuam a pagar-lhes o salário mínimo e a riscar do mapa o elevador social; asseveram que os pobres adoram bairros sociais mas enriquecem a pedir centenas de milhares por uma casa medíocre, a que só a classe média pode chegar; atiram os de dentro contra os imigrantes mas depois exploram imigrantes.


Esses esfregam as mãos de contentes enquanto o pessoal explorado do Ventura e o pessoal explorado do Bloco, do PS, do PCP se degladia. Quanto mais venturinhas houver, menos sindicalizados há. Menos chatices para quem ganha 6 mil euros por dia.


O Ventura e seus apoiantes dos textinhos imbecis são um consolo para os “mexias” deste mundo. Enquanto pobre luta com pobre, salvam-se os ricos!

João Prudêncio

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