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OPINIÃO

Ser treinador de futebol e ver o novo antes dos outros

OPINIÃO | HUMBERTO GOMES

Numa altura em que os mares da competição futebolística andam manifestamente agitados, cá pelo nosso burgo, em momento em que José Mourinho deixou o comando técnico do Tottenham, deixando bem definido que não vai treinar em qualquer liga, deixando bem expresso que: “Recuso-me a ir para um país onde não há pressão. Recuso-me”, disse o treinador sadino em entrevista ao “Times”.


“Estou a fazer uma vida normal, sinto-me fresco e calmo. Vou esperar para voltar, talvez na próxima temporada seja prematuro”, adianta Mourinho, clarificando melhor: “Tenho de esperar por um clube idóneo, com a cultura ideal”, talvez que um pouco ao jeito do que, humildemente, temos vindo a defender do alto desta tribuna: ‘um clube com um ideal e uma força moral’.


E, por ora, em que vai ser comentador na rádio TalkSport e nos jornais “Times” e “The Sun”, com que estado de espírito: “Gosto de ser analista porque sinto que posso marcar a diferença. Não quero audiências, esse não é o meu trabalho. Não estou a trabalhar, estou de férias e conheço as pessoas. Quero fazer um serviço ao futebol. Digo o que vejo, sem ter agenda”, em primeira e nada surpreendente análise.


E não a considerarmos surpreendente, porque investigámos um pouco e evitando, como sempre o procuramos fazer, vos entendiarmos com o vulgo ‘chouriço’ – termo jornalístico -, contaremos uma passagem do brilhante percurso.


Decorria o ano de l982, frequentava José Mourinho o primeiro ano da universidade (Faculdade de Motricidade Humana), e era seu professor mestre – porque sábio! – Manuel Sérgio, que para além de docente universitário, é também ilustre escritor e provedor nacional para a Ética no Desporto. A dado momento, numa das aulas, perguntou-lhe o mestre o que ele pretendia ser, depois de licenciado. Ao que o entusiástico aluno respondeu, no seu estilo breve e lapidar: “Quero ser treinador de futebol”. Depois da sua firme convicção (que enterneceu o mestre, porquanto se tratava do sonho de um jovem), respondeu-lhe o mestre: “Mas nunca esqueça que, para saber de futebol, é preciso saber mais do que futebol”. Recordava o mestre, na ocasião, que: “Há mais de 40 anos que venho insistindo: Para saber de desporto, é preciso saber mais do que desporto”. E porquê, interroga e, ao mesmo tempo, responde o mestre: “Porque o desporto (e portanto o futebol também) não é só uma Atividade Física, é verdadeiramente uma Atividade Humana! O que está em jogo no futebol é a complexidade humana”, adverte o mestre.


Quantos não terão presente que no tempo em que José Mourinho era universitário, ainda o saber científico dominante era disjuntivo e analítico: separava, isolava para conhecer. A dispersão era a sua marca dominante.


Hoje, por hoje, elucida-nos o mestre: no futebol, junta-se, na mesma totalidade, o físico, o biológico, o emocional, o intelectual, o espiritual, o moral – o simples é aparência, o fundo do ser é complexo e, portanto, onde tudo está em rede, onde tudo tem a ver com tudo! Enganam-se, alerta-nos o mestre, os que pensam que o futebol é uma coisa simples, fundamentando assim: “Porque é uma Atividade Humana, é indubitavelmente complexa. No futebol (como no desporto) não há saltos, mas pessoas que saltam; não há chutos, mas pessoas que chutam. Se não conhecer as pessoas que saltam e chutam, jamais conhecerei os saltos e os chutos”.

Afirma o mestre, na defesa e promoção da competência de José Mourinho: “Ele viu, antes de qualquer outro treinador, que o futebol deveria estudar-se, analisar-se, investigar-se, à luz das ciências humanas e o método a utilizar-se seria o da complexidade. E foi também porque descobriu a complexidade no futebol, antes dos seus colegas de ofício, que ele começou por mostrar a sua genialidade.


E, indo um pouco mais longe, que importará trazer ao futebol, na visão do mestre: “A grande revolução que é preciso, imperioso e urgente realizar no futebol foi a que José Mourinho fez: ‘Numa equipa de futebol, o jogador é mais importante do que a tática porque sem o jogador não há tática. Já não basta uma periodização tática, é necessária, e com urgência, uma periodização antropológica e tática’.


Pela nossa parte também temos vindo a aprender com o mestre, que se engana o homem que, por ser violento, julga que é forte, na medida em que a violência – doença da força – só conduz, se e quando, aos triunfos efémeros.

As grandes vitórias pertencem às naturezas calmas, aos heróis tranquilos que, antes de pretenderem dominar os outros, aprenderam a dominar-se a si mesmos.


De há muito que o mestre defende que: “O futebol é o fenómeno cultural de maior magia no mundo atual e, por isso, problemático, excessivo de sentidos e uma inesgotável rede de significações. Pensar é dialogar com o mundo convulso que nos rodeia e transformar a anarquia dos sinais no princípio de um mundo diferente”, considerando que, adianta o mestre: “Um futebol absolutamente ordenado não existe”.


Sintetizando, o elogio de mestre Manuel Sérgio para com José Mourinho, atinge este esplendor: “Não me interessa falar de um José Mourinho efémero, sujeito às contingências da opinião pública, mas do José Mourinho eterno, criador de ciência e de conhecimento. Para um homem da sua estatura intelectual e com o seu currículo desportivo, importa esquecer o que não há interesse em ser lembrado e lembrar o que seria injusto que ficasse esquecido”.


Cremos terem ficado suficientemente esclarecidas as razões de como:


Ser treinador e ver o novo antes dos outros.

E, uma vez mais, juntando as peças do puzzle: Não é pensando que somos, é sendo que pensamos!

Humberto Gomes

*”Embaixador para a Ética no Desporto”

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