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Silves quer voltar ao auge com rio navegável

Já chegou a ser navegável até às muralhas do castelo, mas hoje em dia é apenas uma sombra daquilo que era. O rio Arade, que há séculos fez de Silves uma das mais importantes cidades do mundo, está ligado aos melhores e piores períodos da história do concelho. Em entrevista ao JA, a presidente da autarquia diz que desta vez está disposta a “lutar até ao fim” pelo desassoreamento do rio. Para Isabel Soares, esta é a única forma de escapar à decadência e dar um novo fôlego ao município.

Jornal do Algarve – O plano de desassoreamento do rio Arade remonta a 1985. Vinte e cinco anos depois, sabe quando é que as dragagens vão avançar?

Isabel Soares – Essa tem sido a minha “grande guerra” desde a minha eleição, há 13 anos. Como é do conhecimento de todos, o plano tem tido vários problemas ao longo dos anos. Inicialmente, era apoiado pelos quatro municípios da bacia do Arade (Portimão, Lagoa, Monchique e Silves) e era muito ambicioso, pois previa o desassoreamento desde a ponte romana até Portimão. Este primeiro plano incluía o alargamento das margens e uma maior profundidade, mas andou perdido em gabinetes durante anos a fio. Nos anos 90, o Instituto Português dos Transportes Marítimos (IPTM) iniciou um novo projeto, que previa dois metros de calado, sem qualquer intervenção nas margens, devido ao impacto ambiental. Depois deste projeto estar praticamente concluído, houve problemas ao nível do Ministério do Ambiente, que levantou questões relacionadas com a nidificação de aves. Mais uma vez, o processo andou perdido nos gabinetes até que decidiram fazer o desassoreamento até aos dois metros de profundidade. Depois disto, foram descobertas cinco embarcações do período dos Vikings junto da Ilha do Rosário, que constituiu um novo obstáculo ao desassoreamento. No final dos anos 90, alterou-se novamente o projeto e, dos dois metros de profundidade, passou para os 1,2 metros. Em 2002, a autarquia ajudou o IPTM a encontrar terrenos para colocar os dragados e, assim, o desassoreamento estava em condições de avançar. A verba para iniciar as obras foram colocadas no PIDDAC, nos anos 2003 e 2004, e tudo levava a crer que as obras estavam prestes a arrancar. Entretanto, o PSD sai do Governo e a verba afeta às dragagens do rio desaparece do PIDDAC. O novo governo socialista recua, alegando que os dragados deveriam ser depositados no mar, o que encarecia bastante o projeto, e tudo ficou novamente parado durante mais quatro ou cinco anos. Há cerca de dois anos, concluíram que os dragados deveriam ser postos em terra, tal como estava previsto inicialmente. Neste momento, depois disto tudo, o projeto de execução está em desenvolvimento.

J.A. – Mas quando é que as dragagens avançam finalmente. Será mesmo desta?

I.S. – Sinceramente, não sei. Este ano, o desassoreamento teve verbas muito pequenas inscritas no PIDDAC, que em nada servem para este projeto. Mas as informações que tenho é que, no próximo ano, poderá vir a ser uma realidade (VER CAIXA).

J.A. – Então, ainda alimenta a esperança de ver este sonho concretizado durante o seu mandato, que termina em 2013?

I.S. – Tenho sempre esperança, mas depois de tantos anos de constantes adiamentos, prefiro ver para crer. Para mim, era a melhor prenda que levava destes 13 anos de dedicação ao município. É preciso frisar que o desassoreamento do Arade não é só a grande luta da câmara, mas também de toda a população nas últimas décadas.

J.A. – Porque é que considera que o desassoreamento do rio é crucial para o futuro do município?

I.S. – A própria história diz que o auge desta cidade e a sua decadência estão muito ligadas à navegabilidade e ao assoreamento do rio, respetivamente.

J.A. – E o que representaria para Silves ter um rio navegável?

I.S. – Era extremamente importante para potenciar e diversificar ainda mais a oferta turística do município. Várias empresas já demonstraram interesse e disponibilidade para se instalarem no município, que não só têm intenção de levar os barcos até Silves, como apostam também na criação de unidades hoteleiras no concelho. Seria um tipo de oferta que não se encontra em muitos destinos turísticos e seria muito benéfico para toda a economia do município. Atualmente, já chegam todos os dias barcos à cidade de Silves, mas estão condicionados à maré cheia. Quando as dragagens avançarem, o potencial do rio é enorme, pois todos são unânimes a apontar a entrada da cidade como uma das paisagens mais bonitas que alguma vez viram. Aliás, o namoro entre o rio e a cidade de Silves é descrito deste o tempo dos poetas árabes. Hoje em dia, o encanto do rio não é muito diferente: todos anseiam por ter um rio navegável.

J.A. – A ideia passa também pela construção de um porto na cidade de Silves, como existia noutros tempos áureos?

I.S. – Eu espero que se possa vir a construir uma pequena marina ou, pelo menos, um local de amarração com condições. Mas o mais importante é a potencialidade do rio em termos ambientais e turísticos. Com um pequeno porto, poderemos ao mesmo tempo criar rotas temáticas e promover os restaurantes e o comércio do município. O futuro do concelho passa pelo desassoreamento do rio, pois vai criar uma oferta única, pelo menos, no sul do país.

J.A. – A navegabilidade do rio traria, portanto, mais emprego a Silves numa altura complicada em termos sociais?

I.S. – É como uma bola de neve. Mais pessoas nos restaurantes, na hotelaria e no comércio ajudam a criar postos de trabalho num concelho que, atualmente, está carente de emprego. Infelizmente, a agricultura e a cortiça já não têm o peso que tinham até há algumas décadas. Hoje em dia, por exemplo, resta apenas uma das 58 fábricas de cortiça que existiam no início do século XX, nomeadamente a corticeira Amorim. Por isso, é preciso encontrar alternativas rapidamente, que passam pelo desassoreamento do Arade e projetos privados como a plataforma logística e a Vila ID, que estão virados para uma economia moderna, ligada à inovação e às novas tecnologias.

J.A – Mas já fez muitas diligências junto do poder central para reclamar o desassoreamento do Arade. Até chegou a “escavar” o rio com colheres de pau… Até onde está disposta a ir?

I.S. – Estou disposta a fazer mais. Mas o grande problema é que nós não temos muito peso isolados. A verdade é que não tem havido o apoio necessário dos outros três concelhos (Portimão, Monchique e Lagoa). Se todos defendessem esta ambição como Silves, então as dragagens já estariam feitas. No entanto, esses concelhos acham que têm outras alternativas e, portanto, resta-nos a nós lutar por esse objetivo. Por outro lado, o próprio povo algarvio tem dificuldades em unir-se em torno de uma causa e também tem pouco poder de reivindicação.

J.A. – Que formas de luta tem em mente para reclamar o desassoreamento do Arade junto do Governo?

I.S. – Se isto acontecesse no norte seria certamente diferente. Tenho a certeza que o corte da estrada nacional 125 ou da A22, ou até mesmo uma marcha lenta pelas principais cidades da região, poderia ter mais efeito junto do poder central. Talvez no próximo verão, se nada avançar, os partidos políticos e a população dos quatro concelhos se unam em torno desta causa justa.

J.A. – Silves é um dos concelhos que não tem escapado ao encerramento de empresas e ao desemprego. O caso da Alicoop é o mais problemático, uma vez que emprega muitos silvenses. Tem esperança na recuperação da empresa?

I.S. – Sim. O plano de viabilização da Alicoop já conduziu à abertura de algumas lojas e muitas outras vão voltar a abrir nos próximos meses. Ou seja, está tudo a correr bem e, assim, esperamos ter algum alívio em relação ao desemprego que se está a agravar na região.

J.A. – Como é que perspetiva o futuro do concelho neste clima de crise?

I.S. – É público que as receitas da câmara (IMI e IMT) baixaram abruptamente e as verbas do Estado são irrisórias, mal dão para pagar aos funcionários. Neste contexto, a Câmara de Silves atravessa um momento complicado. É preciso referir que temos dez vezes menos receitas que municípios como Loulé, o que nos obriga a ter uma grande contenção orçamental. Além disso, não temos empresas municipais, ou seja, funcionamos apenas com os nossos recursos e trabalhadores. Portanto, há coisas que vamos ter de cortar e suspender alguns projetos, pois não temos verbas, nem sequer fundos comunitários.

J.A. – A situação financeira da câmara é, portanto, muito complicada?

I.S. – A boa notícia é que, em termos de dívida, não disparámos. Temos feito menos despesas e, por isso, a dívida tem estabilizado. Mas é extremamente difícil gerir um concelho desta forma. Estávamos habituados a fazer obras a um ritmo e, agora, somos obrigados a rever tudo. Para piorar, os privados também estão em dificuldades e também aguardam melhores dias para investir em Silves.

J.A. – E o que faz mais falta ao município neste momento?

I.S. – Precisamos de remodelar três escolas (Silves, Alcantarilha e Algoz) e construir mais uma de raiz (Messines). Pretendemos ainda iniciar a recuperação do centro histórico de Messines, mas o financiamento desta intervenção vai ser muito complicado. Por outro lado, ao nível da saúde, vamos apostar no serviço de teleassistência que já beneficia alguns idosos do concelho.

J.A. – Consegue eleger três obras de que se orgulha ao longo dos três mandatos?

I.S. – O concelho mudou consideravelmente ao longo destes 13 anos. As obras mais visíveis são a recuperação da cidade de Silves e de Armação de Pêra, bem como de várias aldeias. Espero ainda vir a dar uma lufada de ar fresco a São Bartolomeu de Messines.

J.A. – Um ano depois da inauguração, o centro de reprodução de linces correspondeu às expectativas da autarquia?

I.S. – É um projeto interessante, mas acho que ainda não está a dar tudo aquilo que nós desejaríamos inicialmente. Há ainda a questão da construção de um observatório à distância, que permita às pessoas observarem o comportamento dos animais em cativeiro. Espero que dentro de pouco tempo avancem com este projeto para tornar a presença do lince em Silves uma maior atração.

Nuno Couto/Jornal do Algarve

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Título: Dragagens avançam “a sério” em 2011

Em 1985, foi então anunciado o plano de desassoreamento do rio Arade. Mas, durante estes 25 anos, pouco ou nada mudou.

No entanto, em fevereiro deste ano, surgiu uma nova esperança. Depois de ter merecido uma verba irrisória em 2010 (150 mil euros), o desassoreamento do rio Arade prepara-se para ser contemplado no próximo Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC).

De acordo com a programação anunciada pelo Governo, vão ser investidos seis milhões de euros na navegabilidade do Arade, ao longo dos próximos três anos.

Depois de ter reservado apenas 150 mil euros para 2010, o Governo vai aplicar quase três milhões no próximo ano e 2,9 milhões em 2012.

O projeto visa a dragagem, a regularização do leito e das margens e a balizagem do troço entre Portimão e Silves. Deste modo, o rio ficará navegável em qualquer altura de maré a barcos até 12 metros.

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Título: Assoreamento acelerou decadência do concelho

A história de Silves está intimamente ligada ao Arade. Um dos fatores que teve forte impacto no desenvolvimento da cidade algarvia no período de domínio árabe foi, sem dúvida, a sua proximidade ao rio Arade.

No tempo dos Descobrimentos, o rio mantinha-se navegável até Silves, onde existia um importante porto. A navegabilidade do rio motivou, assim, o desenvolvimento da cidade em diferentes períodos da história.

No entanto, hoje em dia, devido ao enorme assoreamento – agravado nos anos 50 com a construção das barragens – apenas pequenos barcos aí podem chegar.

N.C.

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