Sirvo-me de uma expressão vulgar que se usa quando estamos na presença de uma pessoa que não sendo muito superior, em algum momento julga que se superiorizou acima dos comuns mortais, olhando para estes, não digo se soslaio, mas com um ar de comiseração. Diz-se então que o “fulano encheu-se”. A não ser que o observador não seja já de si um enchido, fulanos tais encontram-se amiúde nos mais diversos terrenos. Assim acontece na complicada rede da economia – empresários falidos ou à extensas mas que se “enchem”; assim acontece na vida cultural e nos ofícios correlativos, tão correlativos que por vezes fazem do cultural, o anti-cultural; assim acontece no ensino, que nunca foi considerado “linha da frente”, enfim cheio de gente intocável, como hoje a saúde é mas onde também abunda gente que se enche; e assim acontece na política, já que sempre na política é de bom tom haver enchidos. Em todos os campos da atividade humana há gente desta.
No entanto é bom que se diga desde já com clareza que, pela minha parte, os melhores políticos que conheci nunca se encheram, foram simples e devotados sem pensamentos roubados; que os mais insignes cientistas, e por estes os da área da medicina, foram e são discretos, simples, humildes até; que os mais eminentes professores começavam e continuam a começar as conversas afirmando que sabem muito pouco e que se passa a vida a aprender; e que, relativamente a empresários, mesmo com direito ao adjetivo “egrégios” que no hino nacional são raros os que entendem o significado, se não se enchem, é a prova de que são notáveis.
Vem isto a propósito da conversa que mantive com amigos no almoço de hoje. O tema era o da radicalização de direita e de esquerda, e por arrasto a crise da democracia, o aumento da desconfiança no funcionamento das instituições, por aí fora. Antes da fruta foi como que fazer o inventário do mundo e arredores, calcular o deve haver de todos e cada um com que a gente se cruza, e, por pouco, antes do café, com mais algum descuido, já estávamos a engrossar a fila dos que se encheram de si, cheios de democracia, de ciência, de pedagogia, de política, enfim, uns seres perfeitos e prontinho a serem despachados para Marte a fim de aí fundaram uma Terra nova sem os vícios e malformações dos que encheram este pobre planeta até ele ficar a abarrotar…
Qualquer semelhança com a realidade é mera casualidade, como se diz nos filmes, mas estamos em crer que o Algarve tem demasia gente que se encheu. Fora das vistas, não se nota o que está no fumeiro. Mas quando dão nas vistas, sobretudo na política, os enchidos são a tragédia da democracia, da cultura, da ciência e da economia.
Não culpem a Democracia, comecem por responsabilizar os “enchidos”, antes que a tragédia dê em comédia.
Flagrante pergunta: O que é para si a Cultura?
Carlos Albino
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