OPINIÃO

SMS: Casa branca no cimo do outeiro

OPINIÃO | CARLOS ALBINO

O tempo passa e ensina-nos. Aprendemos até ao fim. Goya pintou-se a si mesmo, velho e alquebrado, e escreveu por baixo, como legenda, que apesar da provecta idade ainda aprendia – Aún aprendo. Mal de nós quando perdemos essa noção, a de que nascemos para aprender. Mais do que o animal que ri, o homem é um ser que aprende. Pensei em tudo isso, ontem à tarde, ao entrar numa casa branca, no cimo de um outeiro.
Ali, sobre esse outeiro, existiu uma casa antiga. Uma salita de fora, um quarto, uma cozinha, um sótão, uma cabana para o burro, uma pocilga para o porco, um amalho para as galinhas, uma casota para os cães, um forno para o pão. De Verão, um almanxar com esteiras para os figos, um monte de alfarrobas encostadas ao muro, umas sacas empilhadas com amêndoas. E, de resto, era o que sabe. A serra, lá longe, atrás da vista, e a sul, a fita azul do mar. Vieram os anos sessenta e o “governo” foi escasseando, com os setenta, terminou. Nos oitenta mudou de mãos, e depois mudou de vida, as portas fecharam-se, os animais desapareceram, os telhados ruíram. Alguém escreveu na sua frontaria – For sale. E ali ficou triste, durante uns anos, mirrando ao sol. Quem imaginaria a sua ressurreição?

Alguém que, do outro lado do mar, cobiçou a ruína, imaginou a sua transformação numa outra criatura, comprou-a, redesenhou-a, reconstruiu-a, preservou a traça, a alma, a raiz do espaço, a sobriedade do lugar, as cores brancas da cal, o aveludado das pedras caliças, o tom das madeiras, e tendo desparecido o antigo “governo”, a nova casa, erguida a partir da antiga casa, transformou-se num abrigo humano que lembra que, às vezes, sonhamos acordados com o divino.

Mas não aconteceu por acaso. Os novos proprietários, antes de meterem mão à obra, quiseram conviver com a população local, entraram em casas antigas da região, chamaram um escultor, consultaram especialistas em materiais, meteram a mão no saibro, na taipa, no reboco antigo, na alquimia da cal. O resultado é de uma verdade arquitectónica pura. E a pessoa pensa que já houve um tempo em que se pensava que só os locais poderiam preservar o espírito do lugar. Mas de facto não é assim. Quem chega do outro lado do mar, talvez possa ver melhor o que de próprio existe nos lugares do Barrocal, que o acaso resguardou da voragem construtora, feérica, da orla marítima mediterrânica, de que a algarvia é apenas uma parte. E eu despeço-me dos anfitriões com poucas palavras, reconciliado porque, ao entrar naquela nova casa antiga, aprendi como se fosse menino.

Flagrante riqueza: Normalmente, as grandes patranhas dão petróleo.

Carlos Albino

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