OPINIÃO

SMS: Enfim, o prazer de tocar nas letras sobre papel

OPINIÃO | CARLOS ALBINO
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Confidencio. Desejo que os confinamentos, os desconfiamentos e que todas as palavras terminadas em -mentos, tais como descarrilamento, cerceamento e desorçamento, terminem depressa, acabem de vez, mas duvido que assim seja. Pode vir nova vaga, a este que é terrível e já ceifou, pode suceder outro de outra espécie e feitio, cala-te bruxo. E desejo que esta saturação de isto, aquilo e até a família estar on-line, dos vídeos até dizer basta, da internet transformada em inesperada e formidável manifestação do barroco, das televisões a fazerem-se de mares da palha, enfim que esta fase de tensão entre o gosto pela materialidade exuberante e as demandas de uma vida centrada no espírito, dê lugar a uma fase em que o saber coincida mais com o conhecimento. Possivelmente foi e ainda é uma fase necessária para que a saturação a vença, tal como aconteceu com a revelação dos filmes porno. Talvez seja isso. Mas desejo que venha o momento em que possa sentir na proximidade do mar nas manhãs frescas, solidariedade e não confronto, inteligência e não brutalidade, modéstia e não opulência balofa.

Tudo leva a crer que grande parte do que estávamos habituados a ver e a ouvir, vai ser diferente. Os aviões já não vão despejar magotes de gente ao ataque dos instintos, mas trarão gente para conhecer, saber, falar e ouvir. Os que mais e melhor percebem de Turismo, vão dando conta de que vai ser assim e vão lançando alertas mais ou menos claros. Ou seja, nada está completamente perdido, mas tudo será diferente, exigindo novas perguntas e novas respostas. Não há lugar para devaneios, para loucuras, para voluntarismos sem escrutínio seja de quem for. Ou melhor: não há lugar para gente que nasce já ensinada, que percebe de tudo e de quem o poder, qualquer poder parece que depende. Isso acabou se não quisermos ver o fim dos hotéis por mais majestosos que sejam, tal como as fábricas conservas ao fim chegaram por mais inexpugnáveis que tenham parecido, acabando em ruínas, destelhadas e sem uma única sirene a dar conta dessa derrota.

Sei que, em algum momento, depois de tudo isto, voltaremos a ter o prazer de tocar nas letras sobre o papel. O prazer de ler e que mais prazer será se com o cheiro a maresia numa manhã em que a fresquidão seja irmã do calor.

Flagrante chuva de sábios: E de repente, tanto perito! Nunca tanta gente soube de tanto sem perceber de nada.Outrora havia a ordem alfabética, agora aí temos a ordem analfabética. Nda tenho contra os sábios, mas que há ignorantes, lá isso, há…

Carlos Albino

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