SMS: Joaquim Romero Magalhães

CARLOS ALBINO

Era um Algarvio autêntico, porque se não fosse autêntico, antes de perguntar – «Será o Algarve definível?» – não reafirmaria ser Algarvio «sem ser regionalista, nem exclusivista». E logo depois, como que a deixar um legado para todos os que quisessem ouvir, Joaquim Romero Magalhães não se definiu a si próprio mas definiu o Algarve: «O Algarve é uma história, uma literatura, uma paisagem, uma tonalidade luminosa. É um viver e saber viver e é um conjunto daquilo que afinal nos rodeia e conforta. É tudo isso, o que se vê e o que não se vê. O que é material e o que paira acima dessa realidade. É um todo, não pode ser fragmentado, é algo que ainda hoje me desperta os sentidos».  Essa palavra «hoje», agora que os sentidos de Joaquim Romero Magalhães são uma saudade, tal palavra passa a ter uma expressão sinónima – tempo sem fim, ou tempo cujo fim desconhecemos.
 
A definição de Algarve foi a última dádiva do mestre e, como em vida sempre nos permitiu dizer, do amigo. Essa dádiva, se tal fosse possível, bem poderia figurar de lés a lés, em letras com as alturas do Caldeirão, da Fóia e do Espinhaço de Cão, portanto bem visíveis para quem ao Algarve chegue por bem: «O Algarve é uma história, uma literatura, uma paisagem, uma tonalidade luminosa».
 
Sim. É História multimilenar e peculiar que miscigenou gentes e saberes a tal ponto que saberes e gentes perdem a noção das suas origens. É Literatura que não pode ser esquecida nem adulterada, como já junto de Romero Magalhães, pedem em coro João de Deus, Teixeira Gomes, António Aleixo e Ramos Rosa. É Paisagem que deve ser respeitada apesar de ser cobiçada pela pirataria como sempre foi e não é preciso dizer s nomes e procedência dos piratas. E é Tonalidade Luminosa que facilita abrir os olhos para se ver do perto ao longe, sem nevoeiros, em sociedade inclusiva onde todos cabem sempre mais um, como se o Algarve fosse um único barco disponível para fazer uma travessia para margem desconhecida, e onde por um daqueles acasos que nos rodeiam mas que conflituam com o destino que nos conforta, Romero Magalhães se foi juntar a Ramos Rosa, António Aleixo, Teixeira Gomes e João de Deus.

Flagrantes omissões e colagens: A Universidade do Algarve fez bem em decretar três dias de luto pela morte de Romero Magalhães a contrastar com a omissão da AMAL e com as lembranças que não passaram de cópias e recópias de sínteses biográficas, como se os seus autores mais nada soubessem ou fossem capazes de sentir sobre o Homem, a Obra e a Terra que estimou.

Carlos Albino

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