SMS: Lições a tirar

Com a boa notícia desta semana – o cancelamento da prospecção de petróleo no mar de Aljezur – mais do que saber a quem pertence os méritos deste desfecho para um tema que se arrastou largos anos, há que saber tirar lições. A miragem de petróleo a jorros que inicialmente foi apresentada como o milagre de que o País carecia, partiu de uma daquelas decisões políticas que derrota a política – sem a transparência adequada à grandiosidade dos projectos, sem correta avaliação de vantagens e prejuízos, sem ter na devida conta a região e suas características, por aí fora. Foram mais de quatro anos em que se discutiu mais o petróleo no Algarve que o próprio Algarve. Portanto, encerrada agora a questão do petróleo, oxalá que se comece a discutir o Algarve no seu todo como região e nos seus problemas de região.

Desde a primeira hora, o argumentário contra o petróleo foi em defesa da indústria turística, mesmo a pretexto das questões ambientais. É verdade que se foram colando fundadas invocações ecológicas, bons e exaustivos raciocínios a favor da natureza, desmontagens rigorosas de procedimentos administrativos, debates sobre qual a melhor fonte de energia coerente com a política geral, isto e muito mais. Mas foi a defesa do turismo e dos interesses do turismo que imperou como pano de fundo. Por isso mesmo, não é o petróleo que, com o episódio que termina agora, deve aprender a primeira e possivelmente grande lição – é o próprio turismo. Este, livre da fumaça do petróleo, fica sem justificação para continuar no Algarve como se na região não estivesse, ou estando apenas no que lhe é necessário para operar em terra firme. Por outras palavras, fazendo pouca diferença de plataformas de prospecção à deriva, com o nome de hotéis. O turismo tem que, como deve, comprometer-se mais e adequadamente com a sociedade que o acolhe. Comprometer-se com adequado retorno, e não apenas comportando-se como beneficiário. Se o turismo não aprender a lição que o sindicato de perolíferas e seus agentes levou tempo a interiorizar, é mau para a região e mau para o próprio turismo.

Segunda lição, para a política e suas áreas adventícias. Passados estes quatro anos de “guerra contra o petróleo”, há que tirar a lição de que o oportunismo polui, e que, em política, quem dá a cara é porque tem a cara lavada. Assistimos o suficiente para vermos como houve gente a assobiar para o lado, ou então a tentar passar entre duas gotas de chuva, a mesma gente que acabada a “guerra” começou a cantar como um canário na gaiola da cidadania mais pura e desinteressada. Mas também houve políticos que, mesmo sofrendo as incomodidades da coerência, nunca desarmaram em nome dos superiores interesses da região. Também por isto mesmo, não são os políticos que, com o episódio que termina agora, devem aprender outra grande lição – é a própria região. Como? Reconhecendo nos cargos de região, quem lá deve estar com a cara lavada.

Flagrantes fake news: Que o duvidoso petróleo do Algarve iria baratear até ao preço da chuva, a gasolina na Guarda, em Viseu, em Bragança, na Covilhã…

Carlos Albino

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