SMS: O lixo submerso

O grande escritor checo que é Milan Kundera, num dos seus livros mais conhecidos, lembra que as cidades estão construídas sobre estruturas sujas invisíveis, só assim se tornando viáveis. E então refere a quantidade de aterros, esgotos e lixos que vivem enterrados no solo para que uma cidade mantenha a rotina normal e o aspecto decente. Lembra também que esconder o nosso lixo e o nosso estrume é uma característica humana. Não gostamos que a parte escatológica da nossa vida seja exposta ao olhar público. Os nossos detritos, os nossos papéis, o rasto da nossa vida alimentar devem manter-se afastados das nossas acções nobres, como são o trabalho, o convívio ou o amor. Por isso, não admira que muitas vezes se avalie o grau de civilidade de um povo pela forma como esconde, ou deixa voar pelas ruas, aquilo que é o seu desperdício. Claro que, como tudo, há várias teorias explicativas, algumas delas perigosas, para se compreender por que razão, à medida que geograficamente se desce nos paralelos terrestres, a falta de cuidado em esconder e tratar do lixo vai sendo menor. Partir de Helsínquia e ir aterrar, passadas umas horas, nas ruas de Nápoles pode transformar-se uma lição em matéria da História do Lixo.

Não é preciso, pois, falar muito de nós para sabermos onde nos encontramos.

Estamos mais perto de Roma e de Fez do que de Hamburgo ou Zurique. O nosso lixo anda bastante fora dos caixotes e voa pelo chão, apesar do esforço gigantesco a que temos assistido ao longo das últimas décadas. Claro que não vamos aplicar a nós mesmos as teorias deterministas perigosas que já deram catástrofes sobejas.

Vem tudo isto a propósito da forma como muitos estrangeiros que vêm de países limpos, educados a manter a via em ordem, mas que ao chegarem a um país que está numa latitude média, como é o nosso caso, resolvem esquecer os bons hábitos, e saem à rua, munidos dos seus sacos de plástico, para os colocarem no meio do chão, sem se darem ao trabalho de abrir a tampa e deitarem o seu lixo no lixo. Por vezes, acontece mesmo que não se dão ao trabalho de descerem dos carros. Atiram os sacos pela janela fora na direcção dos caixotes. Os sacos explodem, o lixo entorna-se em volta. Então, talvez os filhos da gente do Sul, tão estigmatizados por maus hábitos ancestrais, devam aproximar-se dos filhos do Norte e explicar-lhes que, tal como na sua terra, por aqui, o português médio gosta de esconder o seu lixo e de tratar de forma discreta, o seu estrume.

Flagrante catecismo: Pelo que se nota, a centralização é uma grave desobediência ao sexto mandamento – é um adultério de Estado, mas a descentralização com manha desobedece ao quinto – mata a regionalização. Esta, a regionalização, é que deveria ser a verdadeira e primacial descentralização.

Carlos Albino

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