SMS: Provincianismo e provincialismo

Com manifesta sabedoria e sabendo o que estava escrever. José Barão fez encimar o Jornal do Algarve (este mesmo, em 1957) com a aceite heráldica da região e a designação qualificativa da publicação – Semanário Provincial. Provincial e não provinciano… Sem dúvida que a palavra “província” e palavras derivadas perseguem muito do que é português fora de Lisboa. Ser provincial até pode ser uma grande honra, ser provinciano é um desastre e que dá origem à mais grave doença cultural e política do País – a doença do provincianismo. Na verdade, no seu melhor, Lisboa, e em certo sentido também o Porto das últimas décadas, é uma cidade ou capital provincial sendo composta um pouco por parcelas de todas as províncias, à exceção do reduzido grupo de alfacinhas. No seu pior, Lisboa é também um somatório de provincianos portugueses que deixaram de ser provinciais.

Confesso que, num dos arrumos gráficos, tive pena de ver desaparecida do cabeçalho do jornal a bela heráldica algarvia e a sua qualificação como “semanário provincial”. Mas também em casos como este, não é o hábito que faz o monge. O jornal felizmente tem-se mantido imune aos ventos do provincianismo, continuando tanto quanto possível, provincial. Imune designadamente face ao provincianismo da capitalidade que é aquilo que destrói uma província que não queira ser provinciana, uma região que não queira ser manta de trapos das comarcas, uma metrópole que não queira ser bordel político, económico ou cultural. Para ser sede não é preciso ser capital, porquanto a cabeça daquilo a que chamamos Algarve e amamos como terra natal, tem variado com os séculos e as conveniências. Silves, Lagos, Tavira serviram para isso e para os devidos efeitos, tal como Faro hoje serve sem contestação de maior, desde que não se transforme numa cidade provinciana a imitar o tal plebeu do século XIX a querer fazer-se passar por duque com título comprado. E seja, pois, Faro a cabeça provincial.

Quer isto dizer que o provincianismo, por regra, dá para o torto. Quem se coloca no avesso da cooperação provincial, ou regional (se quiserem), ou mesmo metropolitana, com cultura de domínio e impondo hegemonias políticas hoje sem sentido, isso normalmente dá mau resultado. Basta surgir um incidente não calculado. Basta um pequeno incidente. Como diz a canção do José Afonso, “não me obriguem a ir para a rua e zarpar”…

Flagrante Tesouro Nacional: Foi posto na gaveta mas saiu da gaveta. Conservadas e mantidas no Arquivo Municipal, as Atas Medievais de Loulé classificadas como Tesouro Nacional. Bom caminho.

Carlos Albino

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