SMS: Tudo isto é triste, muito pouco disto é Faro

Carlos Albino

No apontamento da semana passada falou-se da doença provinciana que fere na base qualquer veleidade de identidade regional, e com isto fere o argumentário válido para a regionalização, seja de que nível for. É uma doença infantil que tanto pode atingir políticos já adultos como meros estreantes ou candidatos inexperientes à carreira onde, à falta de ética, tudo vale. Hesitei entre referir ou não casos concretos de tal provincianismo que tanto tem prejudicado o Algarve, ou a política no Algarve. Como de resto tem prejudicado a nossa cultura. Preferi não citar protagonistas ou mesmo circunstâncias para não abrir ou reabrir feridas, ou para que energias não fossem queimadas sem proveito. A escrita seguiu no abstracto e muita gente entendeu.

Só que, a coincidir com a tinta fresca do apontamento, gente de Faro tomou a iniciativa de dar pública prova de tal doença infantil. Em comunicado, a força partidária atualmente no poder autárquico da cidade, anunciou que não iria presenciar a cerimónia comemorativa dos dez anos do curso e medicina da Universidade do Algarve, cerimónia agendada para Loulé. E qual a razão invocada? Que ali estaria prefigurado mais “um episódio de desconsideração” do concelho de Faro, e, porque a força concorrente “não consegue conquistar Faro”, o episódio se afigurou para os autores do comunicado como “uma tentativa do governo de mudar a capital de facto, de Faro para Loulé”. Mais: que outros serviços estão a sair do concelho de Faro “comprados por outro concelho, por decisão e alto patrocínio do governo” e no caso da medicina da UALG “explorando as conhecidas debilidades financeiras da universidade”. Não faltou até a referência à construção da sede do Agrupamento de Centros de Saúde do Algarve, o qual, obviamente não poderia ficar situado num logradouro entre prédios com acesso por um beco mas em local para servir equidistantemente o Algarve. E por aí afora.

Onde está o provincianismo? Para já na falta de memória, e para se aldrabar provincinamente é preciso ter boa memória. Quanto à sede do agrupamento dos Centros de Saúde, o respectivo protocolo data de de 2011, quando os poderes em Faro e em Loulé eram cruzadamente de sinal contrario, e foi efectivado em 2016. Tempo suficiente para corrigir a desgraça da memória. Quanto aos locais de formação e investigação clínica, o processo depende obviamente da Universidade do Algarve, e não está nem pode estar tutelado por qualquer município.

Além disto, a questão da capital. Que nos recordemos, ninguém no Algarve contesta a capital em Faro. Mas capital não significa meter tudo e mais alguma coisa no mesmo cesto. Significa pólo, cabeça de área metropolitana, integradora das zonas envolventes significativas para o ganho de mais valias integradoras – mais valia demográfica, cultural, política (porque não?), económica e social, designadamente na habitação e nos transportes onde estão quase tudo por fazer p se vai fazendo de modo selvagem.

Pode haver diferenças de entendimento, diferentes propostas de soluções para os problemas que, à medida que o tempo passa, são cada vez mais comuns a Olhão, Loulé e Faro. Mas que alguns de uma terra hoje ou amanhã de outra (ninguém está livre do provincianismo) amuem e procedam como se o Algarve estivesse balcanizado, é profundamente errado.

Os tempos do órgão de Olhão já passaram e oxalá não voltem. Por isso, Faro apenas será capital mais a sério se pensar duas vezes antes da asneira.

Flagrante linha férrea: Está por provar se entre Faro por Tavira até Vila Real de Santo António, há ou não linha de caminho-de-ferro. E se de Faro até Lagos há ferro a mais ou a menos na linha. Finalmente, se, quanto a comboios, a Andaluzia existe.

Carlos Albino

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