REPORTAGEM

Só 20% dos centros de dia reabriram

Apenas 20% dos 60 centros de dia da região reabriram depois do fecho de alguns meses a que foram forçados durante a pandemia. Esta semana, o JA foi em busca dos apoios com que contam os idosos nestes tempos tristes da pandemia. Embora sem números oficiais, admite-se que os apoios domiciliários cresceram, mas só uma pequena percentagem dos que frequentavam centros de dia os frequenta ainda. Uns porque não podem, outros porque têm medo. Contudo, há uma enorme maioria de 95% de idosos que não está em lares nem recebe qualquer apoio. Passam a vida entre a casa, o café e o banco de jardim

Dos 60 centros de dia existentes em todo o Algarve, apenas 13 (cerca de 20%) estão abertos neste momento, apurou o JA junto do Instituto da Segurança Social.


O organismo não tem dados sobre a percentagem de utentes a frequentar os centros de dia agora em funcionamento, “atendendo a que ainda existem utentes a beneficiar da domiciliação de serviços na resposta social de centro de dia”, embora não precise os dados dessa domiciliação.


Os restantes 47 centros de dia da região mantiveram-se fechados desde a emergência da pandemia, o que impede a maioria dos 881 utentes (número de julho passado) dos 57 centros de dia com acordos de cooperação de frequentar essas estruturas sociais.


Desses acordos dos 57 centros, 23 foram celebrados com Misericórdias e os restantes com outras IPSS, e três pertencentes à rede lucrativa.


Os menos de um milhar de utentes que frequentavam os centros antes da pandemia são, ainda assim, uma gota de água de menos de 1% no conjunto dos 116.260 idosos algarvios (no caso, pessoas com mais de 60 anos) existentes no Algarve, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística. Desses, há cerca de 3.700 nos 82 lares da região (3,2% do universo de pessoas da Terceira Idade com residência no Algarve). Os restantes 112.500 fazem as suas vidas diárias em casa, quase sempre sem frequentarem centros de dia nem usufruírem de quaisquer apoios.


“As respostas licenciadas [as três estruturas da rede lucrativa] têm uma capacidade instalada para 72 utentes, desconhecendo-se contudo a frequência habitual”, acrescenta a Segurança Social, em resposta escrita enviada ao JA sobre questões relativas a centros de dia e respostas sociais a idosos.


A maioria dos quase mil utentes dos centros de dia que não podem – ou receiam – frequentar essas estruturas têm apoios domiciliares, segundo apurou o JA junto de autarcas, instituições e provedores de Santas Casas da região, o que foi confirmado pela Segurança Social.

O Centro de Dia da Santa Casa da Misericórdia de Faro ainda não reabriu

Visitas mensais fiscalizadoras aos centros de dia


Em todo o Algarve, alguns centros de dia que tiveram que fechar durante a primavera no período de confinamento foram obrigados a adequar o seu funcionamento ao que está definido no Guião Orientador da Direção Geral de Saúde e alguns equipamentos foram adaptados para que seja possível o seu funcionamento, esclarece a Segurança Social.


Os centros de dia estão a ser alvos de visitas mensais fiscalizadoras por parte de equipas mistas, com técnicos da saúde, segurança social e proteção civil, para apoiar tecnicamente as instituições, no sentido de verificarem a conformidade das medidas em execução com as normas em vigor, nomeadamente as medidas corretivas aplicadas nos centros.


“A Segurança Social recorda que o funcionamento dos centros de dia terá que garantir o estrito cumprimento das medidas de prevenção e controlo preconizadas pela Direção-Geral da Saúde (DGS) para a COVID-19, quer para os centros de dia que funcionem de modo isolado, quer para os centros de dia acoplados a outras respostas sociais”, evoca a instituição, observando que os centros de dia, pelas características do edificado e sua organização e funcionamento, “devem garantir total separação, sem cruzamento entre utentes e colaboradores das outras respostas sociais e sem partilha de espaços como refeitórios e instalações sanitárias”.


“No caso dos centros de dia com funcionamento acoplado, a oportunidade e a verificação das condições da reabertura devem ser avaliadas pela instituição em articulação com a autoridade local de saúde e Instituto de Segurança Social, IP”, sublinha o Instituto da Segurança Social.


Recorda ainda que desde o início da pandemia foi possível as Instituições irem a casa dos utentes para fazerem os mesmos serviços prestados em Centro de Dia, consoante as necessidades , estando garantido o apoio financeiro da Segurança Social no âmbito dos Acordos de Cooperação. “As caraterísticas desse apoio são serviços prestados no domicílio que permitem garantir a satisfação das necessidades básicas (Alimentação/ Higiene Pessoal e/ou Habitacional/ Tratamento de Roupas, entre outras)”, precisa a resposta enviada ao JA.

VRSA e Castro Marim com quase todos os centros fechados


Uma auscultação realizada há dias pelo JA em alguns concelhos algarvios permite ter uma melhor perceção do panorama regional no que respeita aos apoios a idosos, tanto em centros de dia como na domicialização de respostas sociais.


E essa domicialização de apoios foi a resposta encontrada pela Casa do Avô, IPSS de Monte Gordo, cujo centro de dia tinha 50 utentes quando a pandemia obrigou ao seu encerramento, em março: “Continuamos a prestar apoio, apesar do fecho. Ligamos todas as semanas aos idosos, vemos a medicação, alimentação e monitorizamos os casos sinalizados”, disse ao JA uma fonte da Câmara de VRSA, cuja divisão de ação social presta apoio à instituição.


Naquele concelho há dois centros de dia, geridos pela Misericórdia local, na cidade sede de município e em Manta Rota, que reabriram há poucas semanas. O JA tentou contactar o Provedor mas, infelizmente, não conseguiu.


Pelo contrário, o único centro de dia do vizinho município de Castro Marim permanece encerrado desde março, devido à falta de condições de distanciamento social e separação: “O centro de dia está fechado, já esteve cá uma fiscalização do Centro Regional da Segurança Social de Faro e achou que não pode reabrir. Porque o nosso edifício não permite que haja separação das pessoas, temos o mesmo refeitório, a mesma sala de estar, os mesmos corredores. Teríamos que nos cruzar a toda a hora com outros”, disse ao JA o Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Castro Marim, José Cabrita, precisando que há cerca de 50 internados e o centro de dia tinha 40 utentes quando estava aberto. “Não podem frequentar o centro de dia mas têm apoio domiciliário, na alimentação, temos uma diretora técnica para contactar, ir lá a casa, ver as condições, estar com eles”, acrescentou, recordando que Castro Marim e VRSA se viram obrigados a severas medidas de contenção devido ao aumento do número de casos, que incluíram o fecho das visitas presenciais aos acamados dos cuidados continuados.

José Manuel Cabrita, provedor da Misericórdia de Castro Marim

Em Faro, só a ARPI


Na cidade sede distrital, o centro de dia da Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos (ARPI) local, que reabriu no desconfinamento, tinha 30 utentes antes da pandemia mas agora, desde a reabertura a 1 de setembro, apenas 13 ousaram lá voltar. Os restantes 17 optaram por receber apoio domiciliário da própria ARPI, de acordo com o que descreveu ao JA uma funcionária do lar.


Também em Faro, o centro de dia da Misericórdia local está fechado “porque a frequência é limitada e as condições não dão garantias”, como explicou ao JA o provedor da Misericórdia local, José Ricardo Candeias Neto, explicitando que o centro, instalado no antigo hospital da Misericórdia, no centro da cidade, tem uma entrada comum com a ala dos cuidados continuados, onde permanecem atualmente 30 utentes, e portanto não tem condições para estar aberto, por imposição da Segurança Social.


“Centro de dia só temos um, e está fechado, mas temos cuidados continuados, três lares, ponte domiciliar, escola, apoio aos indigentes (almoçam e jantam) e tudo continua a funcionar”, especifica o provedor. O centro de dia não servia mais do que sete utentes, parte dos quais recebem agora apoio domiciliário, em conjunto com outros. No total, há agora 80 idosos a receber apoio domiciliário (higiene, alimentação, cuidados da casa e até compras) por parte da Misericórdia de Faro, sensivelmente o mesmo número dos tempos da pré-pandemia. Além daqueles, a Misericórdia de Faro tem ainda 168 idosos nos seus três lares.

José Ricardo Candeias Neto, provedor da Misericórdia de Faro

Em Olhão, instituições “não conseguem suportar” reaberturas


O vizinho concelho de Olhão tem dois centros de dia, um dos quais na Fuseta, que pertence ao Centro Social de Nossa Senhora do Carmo, e outro na cidade sede de concelho, sob responsabilidade da ACASO. Ambos se encontram fechados. Na altura dos fechos, o lar da Fuseta tinha 22 utentes e o da ACASO contava com 32, segundo precisou ao JA a vereadora da Ação Social da Câmara de Olhão, Elsa Parreira, esclarecendo que a entidade certificadora detetou inconformidades no lar da Fuseta, pelo que determinou a não reabertura. Já o centro de Dia da ACASO aguarda a visita técnica. “As entidades apontam para normas muito restritivas e para uma enorme logística que, na maior parte, não conseguem suportar”, esclarece ainda a vereadora.


Também em Portimão os centros de dia estão fechados. “Há lares que têm a componente de centro de dia, que não está a funcionar. Para entrar em funcionamento têm de pedir uma autorização à delegada de Saúde local”, referiu ao JA fonte da autarquia.


Para continuar a apoiar os idosos em tempo de pandemia, a Câmara Municipal de Portimão tem equipas formadas que vão entregar medicação e alimentação a casa, através de uma parceria com as Juntas de Freguesia desde o início da pandemia, “de forma atenuar esta situação”.


Já o concelho de Loulé tem apenas dois dos oito centros de dia reabertos, deste 17 de agosto, de acordo com fonte do Município de Loulé. “As outras seis IPSS, apesar de não terem os centros de dia abertos, estão a dar apoio domiciliário”, esclareceu a mesma fonte.

João Prudêncio*

*com Gonçalo Dourado

Rostos de quem passa os dias em casa… ou no jardim

A esmagadora maioria dos cerca de 116 mil idosos residentes no Algarve (cerca de 25% da população do distrito) não está em lares nem frequenta centros de dia. Estes últimos eram frequentados por cerca de menos de mil idosos (menos de 1%) antes da pandemia, segundo números da Segurança Social. E há cerca de 3.700 nos 82 lares da região (3,2% do total de idosos).


Os restantes 96% estão em casa (própria ou de familiares), e só uma pequena minoria deles – em quantidade não precisada pela Segurança Social – recebem apoio domiciliário.


São dias tristes por que passam a maioria deles, numa altura em que, ainda por cima, foram suspensas a maioria das atividades promovidas quer por autarquias quer por entidades privadas, como visitas, excursões, provas desportivas ou ações recreativas que tinham a Terceira Idade como destinatária.


O JA foi à rua falar alguns dos que não recebem quaisquer apoios.

António Teixeira,
69 anos, reformado

Passa os seus dias “mais na casa do que na rua”.
Só costuma sair para fazer as compras, mas “como as coisas estão agora”, ir à rua tornou-se uma raridade maior.
Sem mulher ou filhos, apenas com a companhia dos seus animais, António não frequenta centros de dia nem recebe apoio domiciliário.

Maria de Lurdes Bravo,
77 anos, reformada

Só sai de casa de manhã, geralmente para fazer compras. Já as tardes, passa-as em casa.
“E agora desde que há o covid, então, estar em casa sempre.”
O único apoio que recebe é a pensão do falecido marido.

Queveco Marsão,
87 anos, reformado

Passa os dias na praça a ler o jornal ou então a “dar uma voltinha”.
Também não conta com um apoio domiciliar e não frequenta centros de dia.

Ana Batista,
70 anos, reformada

Passa a maior parte do dia em casa. Como tarefa externa diária, só tem de ir à escola buscar os netos, à tarde.
Também não recebe apoio domiciliar ou frequenta centros de dia.

Luís Bravo Dias

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