Talentos algarvios elevam a dança, a região e o país

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Títulos, medalhas individuais ou coletivas, apuramentos para competições internacionais, nomes que ecoam cá dentro (e lá fora) e que nunca desistem de lutar por uma das mais belas artes e formas de expressão. No Algarve, nos últimos anos, muitos têm sido aqueles que batalham para reinventar a dança e posicioná-la “no lugar que merece”. Ouvimos bailarinos, coreógrafos, professores e diretores artísticos de algumas das mais prestigiadas escolas da região para percebermos o que mudou, as razões para o salto qualitativo da modalidade e o que faz falta à dança

Paixão, talento, preparação física, dedicação, compromisso, entrega, sacrifício, horas e horas de trabalho árduo… Estes serão com certeza alguns dos muitos requisitos para alcançar o sucesso no mundo da dança. Os bailarinos e os talentos que por cá levitam ainda sentem na pele a distância às oportunidades. Para eles, o trabalho parece ser a duplicar. Apesar das dificuldades e da paragem forçada motivada pela pandemia, a dança não parou e os artistas nunca desistiram de apostar na formação. Agora é o momento de voltar a arriscar e colher os frutos outrora plantados por profissionais algarvios, de outras partes do país e dos professores provenientes da Europa de Leste. Seja como for, todos eles têm a dança do coração, no corpo e no pensamento.

De Lagos a Vila Real de Santo António, não conseguimos contar o número de talentos que querem a dança nas suas vidas. A nova geração de bailarinos do Algarve fervilha ao ritmo da música com uma energia que parece inesgotável. Mais novos ou mais velhos, adormecem e acordam a pensar como poderão fazer mais e melhor. Dia após dia. Todos eles querem, e provam, que no Algarve há e sempre existiram bailarinos com potencial.

Carolina e Margarida Cantinho têm um longo percurso na dança e criaram a “Camada – Centro Coreográfico”

Anos 2000 trazem uma nova forma de ver e sentir a dança

Carolina e Margarida Cantinho são duas irmãs na casa dos trinta. Ambas têm um passado, um presente e um futuro no mundo da dança. É em Faro, de onde são naturais, que decidiram abrir a Camada – Centro Coreográfico – um projeto iniciado em 2020 que tem como objetivo “servir a comunidade da dança com uma estrutura criada para apoiar coreógrafos e jovens bailarinos”. Para as coreógrafas, a grande mudança no paradigma da dança na região passou pela vinda de Evgeniy Belyaev para a Faro nos finais do século XX. Graças a ele, a dança começou “a ser vista de outra forma”, explicam. Belyaev “queria ver os alunos no palco e isso era algo que nunca tinha acontecido. Antes não havia a possibilidade de seguir dança”, recordam as irmãs que também já foram pupilas de Belyaev.
Atualmente, enquanto professoras, o objetivo é “dar ferramentas aos alunos para eles se conhecerem, para perderem os medos e ganharem confiança neles próprios, mesmo que não cheguem a profissionalizar-se”, sublinham. Outra das suas ‘lutas’ é transmitir aos jovens que “não é preciso um corpo perfeito para dançar”. Para as irmãs Cantinho, a dança é também “uma forma de nos relacionarmos com o outro”, sendo por isso necessário olhá-la como “uma arte inclusiva” e isso tem feito a diferença no que toca à procura desta modalidade artística. Contudo, consideram que faltam “apoios financeiros”, uma “maior cooperação das salas de espetáculos” e “público nas plateias”.
Se existe alguém que tem trabalhado para colmatar as necessidades da dança na região, essa pessoa é Evgeniy Belyaev, que trocou a Rússia por Portugal em 1992. Desde então lecionou várias classes de dança contemporânea. Entre 2000 a 2002 foi professor no Conservatório Regional do Algarve e na Sociedade Recreativa Artística Farense. Em 2002, formou a sua própria escola de dança, em Faro, e um ano depois fundou a associação ‘Beliaev Centro Cultural’, que serve de polo aglutinador de diversas atividades culturais e artísticas, com especial relevo na organização de espetáculos, festivais, intercâmbios internacionais e do concurso internacional ‘Dançarte’. Em 2004, a partir do trabalho desenvolvido nas áreas do ballet, da dança de caráter e da dança contemporânea, criou a Companhia de Dança do Algarve (CDA), da qual é o diretor artístico, professor e coreógrafo.
A CDA é uma referência a nível regional e nacional que se destaca na qualidade dos seus professores e alunos. Com o objetivo de incutir nos alunos o gosto pela diversidade de estilos de dança, e através do seu repertório eclético, a CDA tem contribuído para a formação de jovens talentos, fomentando o potencial da dança no país. Ao longo dos anos, os discípulos de Beliaev têm vindo a auferir diversos prémios em competições nacionais e internacionais. Através dos workshops anuais, os alunos têm tido igualmente a oportunidade de enriquecer as suas aprendizagens com professores e bailarinos de diversas companhias de renome, nomeadamente o Bolshoi Ballet, Mariinsky Theatre, Ballet Gulbenkian e Companhia Nacional de Bailado.

Evgeniy Belyaev

Região forma talentos que singram num patamar mundial

Com mais de 20 anos a formar e a acompanhar bailarinos da região, Beliaev reconhece que a evolução “tem sido encantadora” face àquilo que encontrou no início dos anos 2000: um nível de ensino “fraco e amador”, numa altura em que a dança “não era levada a sério”, recorda. “Não havia nada a acontecer em termos de apresentações” e por isso o objetivo foi “mostrar o trabalho que se estava a fazer” por esse país fora e “formar bailarinos de nível mundial num país que não tem a dança enraizada na sua cultura”. Também é graças aos seus “amigos e ex-companheiros de palco” que a dança se expandiu pelo Algarve e que existem as condições que hoje são dadas aos bailarinos. Muitos dos seus alunos estão agora nas melhores companhias de dança da Alemanha, Mónaco, Países Baixos, Suíça, Áustria, Noruega, entre outros países.
Para o coreógrafo russo, existem ainda muitas lacunas no que toca à inexistência de um ensino articulado que permita aos jovens conciliar de uma forma mais harmoniosa os estudos com a dança. “As próprias universidades, tal como acontece noutros países, poderiam ser uma porta de entrada para quem quer seguir dança”, sugere. Na sua visão, o Teatro das Figuras foi um “espaço essencial para promover e mostrar o que se faz”, ainda que continuem a ter de ir atrás das oportunidades “lá fora”. Uma maior articulação entre o turismo e a cultura, o aproveitamento de espaços abandonados para a criação de um “núcleo de dança do Algarve” e a abertura de polos da Escola Superior de Dança ou do Conservatório Nacional na região, são algumas das ideias que acredita poderem elevar ainda mais o nível do que se faz no Algarve.
Ana Margarida Dias tem 37 anos, é natural de Braga e diretora da Academia de Ballet Contemporâneo (ABC), projeto iniciado há seis anos em Vila Real de Santo António. Entre os 120 alunos (com idades compreendidas entre os oito e os quinze anos), 15 estão inseridos em programas de alto rendimento. Apesar de ser uma cooperativa de ensino artístico “sem qualquer apoio estadal”, a ABC soma talentos e vitórias nas modalidades de Dança Contemporânea, Ballet, Hip-Hop, entre outras. Uma das últimas conquistas da ABC foi a seleção da bailarina Ariana Emídio para integrar o programa de estudos intensivo da prestigiada escola Opus Ballet, em Florença (Itália) – um orgulho para toda a academia e que representa o trabalho e a vontade dos alunos e professores da ABC.
Para a diretora da ABC, o sucesso da escola passa pela consolidação “de um quadro pedagógico composto por 12 professores, nove dos quais residentes e que tem como objetivo acompanhar, formar e apoiar os alunos”. Na ABC existe um departamento clínico que faz a diferença no que toca ao acompanhamento físico dos bailarinos. “Dar condições físicas e estruturais para que os alunos cresçam pessoal e profissionalmente através da arte é o foco”, afirma Ana Dias.
Em 2004, Ljiljana Urosevic da Silva teve um sonho que se viria a concretizar numa Escola de Dança para todos. Bailarina de dança clássica e de dança de caráter, a fundadora da Associação de Dança de Lagos (ADL) foi bailarina profissional formada pela Servia Novi Sad Dance School e pela Academia Agripina de São Petersburgo (Vaganova). Atualmente a ADL, acolhe alunos de mais de 20 países e exibe prémios ganhos em palcos nacionais e internacionais, orgulhando-se “da sua história” e preparando “o futuro em prol de todos os que amam a dança”. Este ano, Tatiana Ursu, aluna da ADL foi eleita a Melhor Bailarina Adulta Profissional na prova ‘All Dance Portugal 2022’. Em novembro do corrente ano, 16 bailarinos desta escola irão participar no ‘All Dance World Hybrid’, a maior competição oficial da modalidade a nível mundial, que irá decorrer na Flórida (Estados Unidos da América). A ADL será, assim, a única escola a representar o sul de Portugal, o Algarve e a cidade de Lagos na competição que é conhecida como os Jogos Olímpicos da Dança.

Santiago Xavier é aluno da Splash e foi considerado o melhor bailarino no All Dance Portugal 2022

Companhia de dança Splash
A companhia de dança ‘Splash’, sediada em Vila Real de Santo António, é outro caso de sucesso no Algarve. Anna Avramenko, bailarina formada pela Escola Superior de Dança em Lisboa, saiu da cidade ucraniana de Kropyvnytskyi, considerada a capital da dança da Ucrânia há 18 anos e veio “rasgar caminho” para criar uma escola de dança de raiz na cidade, na qual é hoje professora e diretora. Filha de pais bailarinos, Anna acabou por ser levada, da melhor forma, até à dança. A mãe, Natalya Avramenko chegou mesmo a ser a bailarina principal na Companhia de Dança de Kropyvnytskyi.
O Ballet, a Dança Contemporânea, o Hip-Hop e as Danças Tradicionais são alguns dos estilos que dão vida à ‘Splash’, reconhecida também pelas participações no Got Talent Portugal. Nas palavras da diretora, “o crescimento da dança na região tem sido imenso e o nível está cada vez melhor”. Contrariamente “ao que alguns temiam”, diz-nos, a pandemia acabou por “elevar os níveis de concentração dos alunos”, que acabaram por transportar para as últimas provas as “as saudades e a vontade de pisar os palcos”, explica. Em novembro de 2021, a academia recebeu o prémio de “Melhor Escola” no Festival ‘All Dance Kids’. Recentemente arrecadou oito prémios no “All Dance Portugal”, concurso de dança que decorreu em Santa Maria da Feira, em abril. Nesta mesma competição, Santiago Xavier foi considerado o Melhor Bailarino do concurso entre os 11 e os 18 anos.
Em fevereiro, a ‘Splash’ chegou mesmo a ser convidada para uma audiência no Got Talent America via Zoom. Anna Avramenko explica ao JA que essa audição “acabou por coincidir com o despoletar da guerra na Ucrânia”, o que impossibilitou a participação da escola. Em 2022, a ‘Splash’ abriu uma escola na capital algarvia, naquela que é uma estratégia de expansão da academia. A partir de agora, alunos e professores já preparam as próximas competições internacionais que se vão realizar em Itália (ainda este ano) e no México (em 2023).

Joel e Josué Oliveira são professores de dança e bailarinos de Diogo Piçarra

Joel e Josué Oliveira são gémeos e partilham desde sempre a paixão pela dança. Já lá vão quatro anos desde que integram o corpo de bailarinos do cantor Diogo Piçarra. Com ele têm pisado palcos de norte a sul do país, momentos que consideram essenciais para “dar visibilidade à região em termos artísticos”, sublinha. Atualmente são professores na Outsiders Art & Dance Studios, em Olhão, mas a competição está sempre presente nas suas vidas. É com o grupo ‘Outsiders’ que competem em provas nacionais e levam o Algarve “às costas”. Josué afirma ao JA que a evolução da dança “está a correr muito bem”, embora não ao ritmo que gostariam, confessa. “Faltam oportunidades, mais projetos, apoios e acima de tudo mais respeito para com a cultura e pela dança”, declaram. Sabem que são “uns privilegiados”, mas não se cansam de pedir “mais respeito pelo trabalho dos artistas, pelo tempo que dedicam à arte e à sua criatividade”. Os irmãos algarvios que estão “sempre atrás da dança, das oportunidades e dos talentos”, deixam um apelo aos leitores: “olho aberto e mente aberta para o que se faz no Algarve”.

Joana Pinheiro Rodrigues

(leia a reportagem completa no Jornal do Algarve de 26 de maio de 2022)

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