Trabalham no Algarve mas moram na Andaluzia

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A crise da habitação em Portugal, com rendas mais altas do que em Espanha, mas também a vida mais livre e convivial e a qualidade geral de vida estão a levar muitos portugueses a viver em Espanha. Muitos deles continuam a trabalhar em Portugal. Graças à livre circulação comunitária e ao acordo de Schengen, a Espanha “fiscalizada” dos nossos pais e avós tornou-se num país ali ao virar da esquina. E para centenas de homens e mulheres de Portugal ir e vir todos os dias passou a ser rotina. O Algarve e a sua vizinha Andaluzia são um caso flagrante

Todos os dias, Júlio Cardoso, 46 anos, espera a embarcação de passeios turísticos que, em exclusivo para ele, por cinco minutos se transforma em “barquinho da carreira” e o há-de trazer a esta margem do Guadiana, a Alcoutim. É o único passageiro da marítimo-turística portuguesa com direito a “passe social”, um acerto negociado de 40 euros mensais que lhe garante ida e volta entre a localidade de San Lucar, onde dorme, e a patrícia Alcoutim, deste lado do rio que separa os dois países. Com os mesmos 40 euros pode fazer a pequena travessia as vezes que quiser. E faz. “Passe social” é isso mesmo.

Júlio Cardoso

Júlio poderá ser o único “salta-fronteiras” diário entre as povoações do interior algarvio e andaluz, mas está longe de ser o único português que atravessa a fronteira todos os dias. Muitas centenas de compatriotas seus, trabalhadores em Portugal, escolheram Espanha para morar. São portugueses-a- -dias e espanhóis-a-noites. Muitos deles são professores, temporária ou permanentemente colocados no Algarve, a braços com a crise da habitação na região, que a toda a hora expulsa portugueses para o outro lado da fronteira. Mas há-os de muitas profissões.

Rendas de casa de 600, 700, 800 euros do lado de cá da fronteira e um mercado de arrendamento minguante comparativamente com o mais pujante mercado espanhol, onde um apartamento em condomínio fechado com direito a mobília, eletrodomésticos e piscina pode valer 400 a 500 euros mensais, explicam esta “fúria” emigratória para a raia espanhola.

“Tenho dezenas de vizinhos portugueses, cada vez são mais, vêm mais todos os dias”, disse ao JA uma portuguesa residente em Ayamonte, aglomerado urbano espanhol que tem sido o principal epicentro do fenómeno no extremo-sudeste peninsular.

Também Júlio, o solitário “emigrante-a-dias” português, alcoutenejo de empréstimo desde 1997, explica a opção espanhola, em boa parte, pela diferença nos preços das rendas.
Em 1998, um ano depois de chegar ao Algarve, vindo de Lisboa, dava consigo a trabalhar diariamente como tutor técnico dos seus formandos. E a constância do trabalho diário não se compadecia com as idas e vindas entre São Brás de Alportel (onde residiu um ano, enquanto o trabalho era eventual) e Alcoutim, onde tinha emprego.

Um carro a metade do preço
“Acabei por procurar casa em Alcoutim, uma colega foi comigo e apresentou-me as casas de lá. Na altura as rendas eram um pouco mais altas do que em San Lucar. E não havia muitas casas para alugar, porque tinha uma maior população escolar e os professores vinham de fora e as casas estavam alugadas a eles. E isso também fazia as rendas subir”, explica, acrescentando que em Alcoutim, na altura, só havia casas sem mobília, o que não se compadecia com as suas necessidades.

Hoje, o técnico de Turismo paga 260 euros mensais pelo T2 mobiliado e com jardim em que vive e desde 2010 que não lhe sobem a renda. “Uma casa idêntica à minha em Alcoutim seria, no mínimo, 350 euros. E sem mobília”.

Fora os preços das rendas, Júlio vê outras vantagens na opção espanhola. Há cinco anos comprou um carro usado por 6000 euros. Em Portugal custaria quase o dobro. Um Ford Focus que quase não sai de território espanhol, por motivos legais, mas também porque não há passagem direta entre as duas localidades gémeas. “Para passar para este lado tenho que vir pela ponte do Guadiana [junto a Castro Marim] e fazer um desvio de 90 quilómetros”.

Júlio confessa ter saudades dos tempos em que Espanha funcionava para ele como um “interruptor”, que o desligava da realidade laboral portuguesa ao fim da tarde. “Agora leva-se trabalho para casa”, lamenta, saudoso dos tempos em que a sua casa de San Lucar constituía um pequeno refúgio.

Mas, mesmo com testes para corrigir em casa, para a professora Elisabete Guerreiro, 51 anos, o lado de lá da fronteira continua a ser um refúgio. É em Ayamonte que a docente de educação visual da Escola Básica de Vila Nova de Cacela tem tudo o que precisa para a sua preenchida agenda extraprofissional: amigos, colegas pintores, exposições e uma “movida” cultural sem paralelo deste lado do Guadiana.

Elisabete Guerreiro

Optou por Ayamonte em 2009, farta da lufa-lufa lisboeta de casa para o trabalho que a obrigava a atravessar quase toda a capital, de Alcântara ao Castelo. “Estava cansada daquilo, saía de casa às 8, entrava às 8 da noite. Comecei a ponderar sair de Lisboa. Sou de Faro, a cidade onde vivem os meus pais, e queria ficar perto deles. O meu cão teve leishmaniose, a vacina custava 20 euros em Lisboa. Fui a Ayamonte e eram 4 euros. Com isso percebi que a vida era muito mais barata do lado de lá, falava com as pessoas de lá e toda a gente me dizia isso”.

Um país em que os shoppings “morrem”
Mas o “clique” foi a qualidade de vida que conseguiu em Ayamonte para a sua filha, então com quatro anos. “Falando com as pessoas em Espanha percebi que as aulas dos miúdos são só de manhã, a vida das pessoas é feita em redor da criança. Os pais têm horários de seis horas, contínuos, para acompanharem os filhos. As crianças brincam na rua a tarde toda. Há parques infantis por todos os bairros. O que eu achava horrível para ela em Lisboa, estar todo o dia dentro de quatro paredes, não tinha em Ayamonte. Era fácil arranjar forma de deixá-la na escola e depois à tarde ela ter tempo para atividades”.

E é assim que, nascida em Faro e com os pais a viver na capital de distrito, Elisabete salta sobre o Algarve: “Toda aquela vida cultural de Ayamonte eu não encontro no Algarve. A minha filha tem aulas de violino por 15 euros, tem atletismo, está sempre ocupada. As crianças têm as tardes livres e conseguem brincar na rua. Voltei a perceber que se pode saltar ao pião, ao elástico e à corda”.

Diferenças culturais e hábitos prazerosos que se estendem aos adultos. A Elisabete cativou o modo de vida espanhol, o prazer da rua, mais do que dos centros comerciais, que “morrem” em Espanha por falta de clientes. “As pessoas gostam de rua, de esplanada, de café. Tudo fecha às 2 da tarde e as pessoas desfrutam muito mais do tempo, da vida, do ar livre. É mais normal ver as pessoas a conversar do que agarradas a um telemóvel”.

Colocada numa escola portuguesa a 15 minutos de casa – no centro de Ayamonte -, Elisabete gaba a qualidade de vida que consegue ter em Espanha. A mobilidade é uma das vantagens e a partir dela desfruta mais de uma vida espanhola do que portuguesa: “Vou a Sevilha e Huelva com autoestrada sem portagem e acabo por desfrutar muito mais de Sevilha do que de Lisboa. Vou a Sevilha com 20 euros de gasóleo e como uma tapa por 1 euro e tal. Ir a Lisboa implica portagens caríssimas e tudo o resto é mais caro, a começar pela comida”.

Para os espanhóis, Portugal não é “mau casamento”
Quando foi viver para Espanha, há exatamente uma década, Elisabete pagava uma renda de 450 euros por um duplex T3, num condomínio com piscina, jardins, campos de padel. Na altura os preços das casas eram os mesmos em Vila Real de Santo António e Ayamonte. “Mas percebi que podia ter um condomínio com piscina, jardins e tudo pelo mesmo preço que um apartamento velho em Vila Real. Aluguei a minha casa de Lisboa e com essa renda pago esta e ainda me sobra dinheiro. Percebi que a qualidade de vida era melhor”, reforça.

Uma melhor qualidade de vida que se estende aos preços do dia-a-dia. “A única coisa mais cara em Espanha do que em Portugal é o café e não presta [1 euro a 1,50 euros]”, glosa a professora. O resto, jura, é tudo mais barato: “O gás custa o dobro em Portugal. A luz também. Tenho TDT com 60 canais grátis, não preciso de ter TV Cabo. Quando vim de Lisboa conseguia poupar 50 euros num carrinho de supermercado, nos mesmos produtos. Os perfumes são metade do preço”, vai exemplificando.

As vantagens, sustenta Elisabete, alongam-se à forma cordial e simpática com que os portugueses são vistos em Espanha, que não corresponde à rivalidade nacional face a “nuestros hermanos”.

“Tenho imensos amigos em Espanha e não sinto a mais pequena rivalidade nem qualquer ódio aos portugueses. Eles até costumam dizer ‘es mas compelido [educado] do que un portugues’. Acham que os portugueses são pessoas muito educadas. Vivo ali há 10 anos e sinto-me em casa. Fiz amizades. Também há alguns portugueses que são mais isolados e com esses ninguém se mete, mas eu não, tenho muitos amigos. No grupo dos pintores dizem-me sempre ‘tu és uma das nossas’. Fazemos churrascos, as pessoas vão em família para o campo”.

A poucos minutos do local de trabalho, Elisabete sublinha que não se imagina a procurar casa do lado de cá, em Vila Real, Tavira ou Faro. Pelo contrário, pondera vender a casa de Lisboa e comprar em Sevilha. Afinal a filha, hoje com 14 anos e no 9.º ano de escolaridade em Ayamonte, irá dentro de poucos anos para a Universidade e Sevilha será, em princípio, a sua opção. O Algarve onde Elisabete nasceu e Lisboa onde trabalhou serão então, provavelmente, memórias cada vez mais remotas. Para ela e para a sua descendência.

João Prudêncio

A história de Isabel, que sempre viveu entre Portugal e Espanha

E também há quem “salte” ao longo da vida…

Isabel Calheiros

Foi o acaso que levou Isabel Calheiros, agora com 75 anos, para Espanha, nos idos de 1976. Não fora a inesperada morte do pai e aqueles tios residentes em Madrid, e Isabel provavelmente jamais teria saído de Portugal.

Mas quis o destino que, 21 dias antes da Revolução dos Cravos, morresse seu pai, arruinado e doente, e ela se visse obrigada, aos 30 anos de idade, a trabalhar numa loja. Isabel vivia no Estoril e aí viveria até à ida para casa dos tios, na capital espanhola.

Cinco dias depois de chegar, encontramos Isabel a cuidar de crianças e a guiar um carro por todo o Madrid sem conhecer a cidade e sem falar a língua.

Acabaria por conhecê-la bem, nos 32 anos que lá viveu, quase metade dos quais com o seu primeiro marido, que acabaria por deixar 14 anos depois do casamento, em novembro de 1989. Dona de casa por exigência marital, teve que encontrar novo emprego com crianças e muitos trabalhos temporários, sobretudo traduções.

Em 1991 casar-se-ia pela segunda vez e a relação iria prolongar-se pelos 23 anos seguintes. Pelo meio, em 2007, recebe um aviso antecipado de despedimento e o casal pensa em sair de Madrid: “As coisas estavam monetariamente difíceis e havia muito cansaço. O corpo já não aguenta. E quando te falha um emprego o dinheiro começa a não chegar. Madrid é muito cara”, justifica.

Vendida a casa de Madrid, Isabel e o marido tentam comprar casa em Ayamonte (como muitos madrilenos, morria de saudades do mar), mas nessa altura os preços espanhóis tinham disparado e acabam por comprar em Vila Real de Santo António, a metade do preço que custaria na cidade espanhola vizinha.

Depois da morte do marido, em 2014, Isabel Calheiros tenta regressar a Espanha e instalar-se em Ayamonte, mas não conseguia pela sua casa portuguesa o valor que pretendia. Até que, em abril deste ano, consegue finalmente vender a casa e duas semanas depois já estava na Ayamonte dos seus sonhos, pondo fim a 13 anos de “intervalo” de Espanha, no sudeste lusitano.

De Espanha gosta da alegria de viver e acha os portugueses muito tristes. E metediços: “Em Madrid sonhava com o dia em que pudesse pôr uns calções velhos e um chapéu depois do trabalho e ir à praia.

Quando fiz isso no Algarve começaram a dizer ‘você já não tem idade para calções!’. E em Portugal queriam sempre saber quem eu era e saber a que família pertencia. Isso pôs-me doente porque em Madrid eu era simplesmente Isabel Almeida. Em Madrid ninguém se mete com ninguém!”.

Agora reformada, Isabel continua a vir ao dentista e ao cabeleireiro em Portugal, mas o estreito horário dos barcos, que acabam às 7:00 da tarde, entre Ayamonte e Vila Real (ela não conduz) não a deixa ter uma vida mais ativa no lado português. Ainda assim, arrisca comprar algumas coisas do lado de cá: como a manteiga, melhor e mais barata, e a fruta, também mais em conta do lado direito do Guadiana.

“Uma das razões porque quis vir para Ayamonte é que às sete da tarde em Vila Real não havia absolutamente nada e nem conseguia passar para o outro lado. Deste lado, tenho a Europa inteira. O Guadiana é uma barreira, ou tens carro ou não te consegues mexer. Deviam pôr um teleférico. Porque não põem comboio?”, vai sugerindo.

Decididamente de coração dividido entre os dois lados da fronteira, assume-se apaixonada por Espanha e ainda hoje se considera madrilena: “Nunca me divorciei de Madrid. Tenho amigos em Madrid e continuo a ir lá muitas vezes”.

Até nos hábitos alimentares se considera mais espanhola: “Adoro a comida de Espanha, tive muita dificuldade em habituar-me à comida portuguesa”. E aponta um erro alimentar comum entre os lusitanos: “Arroz com batatas, não se faz!”.

J.P.

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