CULTURA

Transformar a cortiça em arte

Das mãos e da mente do algarvio David Mota saem peças de arte, feitas em cortiça. Misturando cores e elementos da natureza, as suas obras são expostas na rua, não deixando ninguém indiferente à sua criatividade e originalidade. Conhecido como Curtiço, sente e vivencia o conceito de arte que o levou de Monte Gordo para a Catalunha

“Exponho e vendo, sinto e ofereço, chego e deixo, pego e fujo, curto e guardo, esqueço e desfaço”, afirma Curtiço ao JA, referindo-se ao destino das suas obras de arte que seguem as leis da rua: “Acaba por ser um processo muito poético, as peças ficam à sorte de quem passa nas ruas. Umas duram anos, outras alguns dias”.


O percurso artístico de David Mota, de 29 anos, começou na Escola Secundária de Vila Real de Santo António, quando começou a explorar a cultura do hip hop.


“Rodeava-me de colegas que o viviam de uma forma ativa, sendo eles rappers, produtores, Djs, dançarinos, beatboxers e, em geral, todos extremamente criativos”.


Ao mesmo tempo, David explorava outras temáticas e fazia “reflexões introspetivas em busca de quem era” e como funcionam os sistemas mental, emocional, físico e espiritual, que fez com que desde tenra idade começasse a entender “o desequilíbrio e corrupção assente e presente em todos os aspetos da sociedade em que vivemos”.


No ano de 2009 inicia os seus estudos na Universidade do Algarve, licenciou-se em Artes Visuais. Esta foi uma página virada na vida de David Mota, pois foi quando começou “a sentir e a vivenciar o conceito de arte”.


O seu nome artístico, Curtiço, nasceu de um momento para o outro, quando recebeu a visita um amigo, que o tratou por essa alcunha.
“Curtiço leva com ele um ideal resumido a ‘curto isso’. O meu trabalho tem de passar por uma criação prazerosa e, se assim não o for, significa que estou desencaminhando-me do objetivo base. Também sou fã de trocadilhos, tal como se pode ver por vários dos títulos das minhas obras”, refere.

O encontro com a cortiça

David Mota no processo de criação

David Mota decidiu começar a trabalhar com a cortiça depois de procurar “um material de fácil recorte”, tendo experimentado a cortiça em folha.


“Fez bastante sentido. Quando aprofundei o estudo da cortiça, eram imensos os pontos positivos. Permitia-me trabalhar com a natureza na sua textura de uma forma direta e contrastá-la com o cimento da cidade”, revela ao JA.


Este material é também capaz de “levar a identidade nacional incrustada” e é “orgânico e ecológico na sua mensagem”.
“A respeito da cortiça não foi coincidência houve uma busca”, salientou.


O processo de cada obra de arte em cortiça começa com um planeamento e um estudo do tema ou da proposta. De seguida, o artista procura imagens e faz uma montagem em Photoshop, desenha digitalmente e projeta-a na cortiça, que está colocada na parede.


“Depois de ter as linhas base desenhadas, retido da parede e recorto, para começar a pintar com aguarela ou acrílico, mantendo a transparência de textura e redesenhando com marcadores”, acrescenta.


Já na rua, quando cola a peça numa parede, pressiona com um rolo e por vezes pinta o fundo com sprays.


“Depois é como deixar um filho ir embora”, confessa o artista ao JA, que vê os seus trabalhos nas ruas “como uma oferenda ao povo local”.

Misturar a cortiça com o graffiti

O artista tem como objetivo abrir uma escola de cultura urbana

Outra das paixões de David Mota é o graffiti, também pertence à cultura do hip hop, que por vezes mistura com os seus trabalhos em cortiça.


“O spray é uma ferramenta incrível que permite muitas técnicas variadas e, para além disso, muda toda a visão”, revela o artista ao JA, que confessa ainda que sente que controla melhor a cortiça “sendo um processo mais racional e metódico”.


O algarvio salientou ainda que pretende fazer mais peças em grande escala “para ganhar mais experiência”, apesar do trabalho na rua “ser mais complicado e caro, quando se trata de cortiça”.


Gatos e polvos são a base do trabalho


Nos seus trabalhos, onde é retratada a natureza, destacam-se os gatos e os polvos, que David considera ser a base do seu trabalho.


“Ter crescido a explorar a natureza é fácil quando cresces com os pés na praia de Monte Gordo e com a Reserva do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António no quintal de trás”, confessa.


Para David, os polvos são “o símbolo da máfia corporativa que tudo controla com os seus tentáculos”, enquanto os gatos são animais com qualidades que “vão para além da realidade mundana e física”, cujo ronronar “é regenerador no que diz respeito a frequências”.


Desde os seus 15 anos, o artista já leva mais de um milhar de polvos desenhados e destaca a sua anatomia que “facilita a construção de qualquer forma”.


Entre as suas inspirações, estão “a procura da verdade atual e passada da sociedade, as mentiras políticas e corporativas, as verdades ocultas de religiões, credos e ciências, as verdades ficcionais de Hollywood e da Netflix e as verdades ridicularizadas pelos meios informativos e de entretenimento”, além da astrologia e da espiritualidade.


No arranque da sua carreira, explorou a temática dos pescadores, a história e genética da população de Monte Gordo, enquanto acerca de Vila Real de Santo António abordou temas da maçonaria.


“Recebo muito amor e respeito não só pelo trabalho artístico, mas por ser um motivador da criação artística juvenil no município, e de alguma forma, ainda assim o é mesmo estando longe”, confessa ao JA.

Atelier de artes montado em garagem

As obras de arte são coladas nas paredes e pressionadas com um rolo

Após terminar a licenciatura, criou a “Guarida del Arte”. Trata-se de uma garagem, no Monte Fino, nos arredores de Monte Gordo, transformada num atelier de artes por onde já passaram vários artistas.


“Era com o meu núcleo de amigos que, constantemente, reuníamos para produzir distintas artes e desenvolver projetos artísticos e profissionais, apesar de por vezes a guarida funcionar como sala de psicólogo, reuniões, entretenimento, armazém, cinema e estúdio”, salientou Curtiço, nascido em Lausane (Suiça) mas criado em Monte Gordo.


Foi nesse atelier que o artista algarvio começou a explorar várias técnicas, já com base na cortiça, “como uma espécie de pós-graduação em freestyle”, ao mesmo tempo que era convidado para vários eventos e para criar capas de música, livros, participar em exposições e meetings de arte urbana.


Juntamente com o seu grupo de amigos, criou a crew de hip hop “SoulutioN”. Dele fazem parte seis artistas de várias artes, que desenvolvem workshops infantis e juvenis, concertos, espetáculos de variedades, meetings de graffiti e palestras, além de um projeto internacional Erasmus+ de cultura urbana intitulado “Wake Up Sotavento”.


Com o apoio da organização não-governamental “Back Up”, teve a oportunidade de levar a sua crew e outros jovens do concelho de Vila Real de Santo António a vários países da Europa para participarem em vários projetos artísticos e sociais.

De Monte Gordo para Barcelona

Curtiço num dos seus trabalhos de grande escala

A sustentabilidade financeira da crew “foi bastante difícil de equilibrar” e de prosperar “sem apoios das entidades competentes”, apesar do grupo considerar que existe a necessidade de encontrar soluções para o combate ao abandono escolar e ao desemprego juvenil, além de salientar a existência de um “desinteresse de política local, uma oferta cultural contemporânea limitadíssima e um espaço público mal dinamizado”.


O grupo pretendia ainda a criação de um espaço juvenil de educação não formal, “que disponibilizaria ferramentas e formação de várias disciplinas artísticas, além de educação não formal” como empatia, empoderamento, pensamento crítico e gestão de emoções.


Depois de uma luta que durou aproximadamente cinco anos, David Mota mudou o seu plano. Escolheu o voluntariado europeu de um ano, em Barcelona, com o objetivo de se formar como educador não formal e trabalhar num espaço juvenil intitulado “Espai jove El Casal”, em Polinyà, na Catalunha, onde se mantém nos dias de hoje.


Neste momento, David trabalha como dinamizador juvenil num centro de jovens da Catalunha, onde usa as artes visuais em várias atividades.


Atualmente, o artista encontra-se a remisturar a digital uma coleção que pode vir a ser transformada em cortiça, t-shirts, prints ou outra superfície, considerando-a como a “mais estudada e esteticamente equilibrada” que já fez até hoje.


“Estou a explorar o digital e sem dúvida que senti um progresso repentino ao usar esta ferramenta”, confessa o artista ao JA.
Para o início do próximo ano, David Mota agendou uma ação de voluntariado artístico no Sahara ocidental, mas “dada a recente situação de conflito armado”, aguarda o desenvolvimento.


Nos seus sonhos, continua o objetivo de abrir uma escola de cultura urbana: “Na Catalunha seria mais fácil, dada a rede de educação não formal. Porém, no concelho de Vila Real de Santo António a necessidade é maior. Existe muito potencial e acima de tudo foi onde me criei e se formou a base do meu ser”, conclui.

Gonçalo Dourado

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