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Um paraíso “bastante esquecido” para descobrir a pé

Ana Carla Cabrita com o filho na Costa Vicentina. O prémio nacional que a Walkin´Sagres venceu foi criado para distinguir o que de melhor e mais inovador se faz nas áreas protegidas
Ana Carla Cabrita com o filho na Costa Vicentina. O prémio nacional que a Walkin´Sagres venceu foi criado para distinguir o que de melhor e mais inovador se faz nas áreas protegidas
Ana Carla Cabrita com o filho na Costa Vicentina. O prémio nacional que a Walkin´Sagres venceu foi criado para distinguir o que de melhor e mais inovador se faz nas áreas protegidas

Uma empresa de Vila do Bispo acaba de vencer um prémio a nível nacional com a sua ideia de promover passeios a pé pela Costa Vicentina. Mais do que um negócio, a criadora do projeto e guia da natureza Ana Carla Cabrita diz ao JA que pretende “sensibilizar para a riqueza deste parque natural bastante esquecido e muitas vezes maltratado, com muitas pressões para um desenvolvimento igual ao do outro Algarve já destruído”

 

A empresa Walkin´Sagres, que se dedica desde 2009 à atividade de passeios pedestres guiados, sediada no concelho de Vila do Bispo, conquistou no final do mês passado o primeiro lugar no concurso “Natural.PT Awards”. A cerimónia de entrega dos prémios decorreu, no dia 24 de julho, no Palácio da Vila, em Sintra.

Este prémio foi criado para distinguir “o que de melhor e mais inovador se faz nas áreas protegidas portuguesas em termos da conservação da biodiversidade e dos valores” das regiões, segundo a organização, que elegeu o projeto algarvio como o melhor a nível nacional.

Passamos a explicar o projeto… “Ao olharmos o horizonte deparamo-nos com uma paisagem agreste, rasteira, nua… é preciso ir mais além, aproximar. É preciso cheirar, olhar, escutar, sentir… voltar a usar os sentidos numa paisagem que se revela apenas quando nos atrevemos a conhecê-la.” É desta forma que se apresenta a empresa de Vila do Bispo, que promove passeios numa das maiores reservas naturais da Europa – o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

Esta empresa de animação turística realiza passeios pedestres em Sagres, “enriquecidos com informação local a nível histórico, geológico, cultural e com observação de flora e fauna”. “Oferecemos a possibilidade de conhecer a riqueza natural e cultural da vila de Sagres através de programas tranquilos e divertidos”, adianta Ana Carla Cabrita, natural de Sagres, que é a criadora e guia de natureza do projeto.

Estrangeiros deslumbrados com paisagens de arrepiar

Em declarações esta semana ao JA, Ana Carla revela que já guiou “cerca de 1820 pessoas” desde que criou a Walkin´Sagres.

A maioria dos clientes surge através de operadores que organizam viagens personalizadas, mas também vêm por contacto direto através do guia de viagens “Lonely Planet”, que deu a este projeto algarvio “uma enorme projeção”.

Ana Carla é também a guia local de um operador belga e um operador inglês, que organizam viagens anuais à Costa Vicentina. “Os belgas organizam duas a três viagens por ano, enquanto os ingleses organizam uma viagem anual”, adianta.

Além destes operadores, a maioria dos clientes da empresa sediada em Vila do Bispo são “americanos, canadianos e australianos, com idades entre os 50 e 70 anos”. Os franceses também começam a ter “bastante peso”, desde que a empresa algarvia iniciou, no ano passado, uma parceria com um operador virado para este mercado.

A fundadora do Walkin´Sagres realça ainda que os turistas que gostam de fazer caminhadas a pé na região “são sempre pessoas com elevado grau de escolaridade”, nomeadamente “advogados, médicos e empresários, das classes média-alta/alta”, mas “são pessoas extremamente simples e com muita sensibilidade para as questões ambientais e da sustentabilidade”. Além disso, frisa, “ficam todos deslumbrados com estas paisagens”.

Passeios pensados e preparados para toda a família

A ideia do projeto, sublinha, é sensibilizar para “a riqueza deste parque natural bastante esquecido e muitas vezes maltratado, com muitas pressões para um desenvolvimento igual ao do outro Algarve já destruído”.

A Walkin´Sagres é um sonho que começou numa viagem à Patagónia Argentina, em 2001, concretizado em 2010, revela a guia, que ao longo dos últimos anos frequentou cursos e workshops de flora, fauna, ambiente e pedestrianismo. Ana Carla Cabrita possui ainda curso de tripulante de ambulância, de forma a poder estar à altura de qualquer situação de emergência.

A guia de natureza salienta que é comum associar Sagres ao mar e às praias, mas a sua riqueza natural vai bastante mais longe. “Inclui falésias de diferentes formações geológicas, lagoas temporárias, matos mediterrânicos (com os seus diversos endemismos), charnecas (biótopo raro e importante), pinhais e muito mais”, realça.

Ainda de acordo com Ana Carla Cabrita, “os primeiros percursos foram pensados e preparados de forma a mostrar, num só passeio, as diferentes paisagens naturais de Sagres e da sua reserva biogenética”. Foram, assim, criados três percursos pedestres circulares, todos eles realizados na reserva biogenética de Sagres (Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina).

“São percursos com a duração média de três e quatro horas (passo normal com pequena paragem) e com grau de dificuldade médio, uma vez que se caminha por terrenos ora arenosos ora com rocha”, adianta a responsável, acrescentando que, para os sábados, foi ainda criado um pequeno percurso circular destinado a famílias que desejem caminhar com bebés e filhos pequenos.

O verdadeiro desenvolvimento sustentável

Normalmente, as saídas são efetuadas junto à praia do Beliche e os passeios realizam-se sempre da parte da manhã e com um número máximo de nove pessoas.

Desta forma, o projeto garante “a sustentabilidade e um desenvolvimento que não coloca em causa os valores naturais e culturais desta área protegida, pois trabalha apenas com grupos pequenos, oferecendo um produto personalizado”, realça a autarquia de Vila do Bispo.

O concurso “Natural.PT Awards” é uma iniciativa do Ministério do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia (MAOTE), através do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, com o apoio da WWF Portugal e financiado pelo EEA Grants.

Para além de premiar e reconhecer boas práticas em iniciativas implementadas nas áreas protegidas, este prémio visa ainda “dar visibilidade às entidades, empresas, pessoas e instituições que identificaram uma oportunidade nas áreas protegidas e que atuaram positivamente na construção do desenvolvimento sustentável”. Todos estes valores foram reconhecidos à empresa Walkin´Sagres, que foi assim distinguida pelo seu bom desempenho na divulgação de boas práticas na área do turismo de natureza.

Nuno Couto/JA

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