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Uma volta ao mundo sem gastar uma gota de combustível? Sim, num avião solar

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Tem uma envergadura maior do que a de um Boeing 747-8 (72 metros), pesa menos do que um jipe Range Rover (2300 quilos), é pouco mais rápido do que algumas scooters (140 km/h de velocidade máxima) e tem espaço para apenas um passageiro. Só isto seria suficiente para fazer do Solar Impulse II um avião invulgar, mas há mais: as suas enormes asas estão cobertas por mais de 17 mil células fotovoltaicas, que armazenam energia solar em baterias de lítio e, assim, permitem ao aparelho voar com uma autonomia virtualmente ilimitada. De dia e de noite. É nesta aeronave que os suíços Bertrand Piccard e André Borschberg vão tentar, a partir de hoje, um feito único: fazer uma volta ao mundo num avião solar, sem gastar uma gota de combustível.

A viagem do Solar Impulse começa em Abu Dhabi e, se tiver sucesso, deverá terminar em julho, também na capital dos Emirados Árabes Unidos. Uma eternidade, pensarão muitos, mas o aparelho “só” estará no ar cerca de 25 dias: mais de 80% do tempo é passado nas cidades onde o avião aterra, a promover o projeto. Na China, por exemplo, o Solar Impulse estará um mês. “As escalas serão momentos importantes para comunicar o nosso espírito e a nossa mensagem aos governos, aos media, às escolas, às universidades de cada país”, explicou Piccard na conferência de imprensa de apresentação da rota da aventura.

A expedição terá doze escalas e, como o avião só tem lugar para um piloto, Piccard e Borschberg irão trocar de lugar aos comandos do aparelho no final de cada etapa. A primeira paragem será em Mascate, capital de Omã, seguindo-se Ahmedabad e Varanasi (Índia), Mandalay (Myanmar) e Chongqing e Nanjing (China). “Cada um destes voos demorará cerca de 20 horas porque voamos muito devagar para poupar energia”, revelou Piccard, que também é psiquiatra. Segue-se uma etapa longa, de cinco dias, até ao Havai, atravessando o Pacífico, e daí até Phoenix, na costa oeste dos Estados Unidos. Na viagem até ao aeroporto JFK, em Nova Iorque, haverá uma escala, mas cujo destino não está ainda decidido – depende das condições atmosféricas. Para atravessar o Atlântico será necessário outro “voo mítico e icónico de cinco dias, sobre a água, para tentar chegar à Europa”. A escala será em “Espanha, França ou Marrocos” e daí o Solar Impulse regressará a Abu Dhabi, pelo Mediterrâneo.

Quando Piccard e Borschberg, um antigo piloto da Força Aérea Suíça, se juntaram e fundaram o projeto, em 2003, a ideia de um avião solar voar durante a noite era inconcebível, quanto mais dar uma volta ao mundo. Mas, sete anos depois, a primeira versão do Solar Impulse, pilotado por Borschberg, entrou para a história depois de voar durante 26 horas sem gastar combustível, carregando as baterias durante o dia para alimentar os motores à noite. Depois de doze anos de investigação, desenvolvimento e muitos testes (incluindo várias viagens internacionais), a segunda versão do Solar Impulse está agora pronta para cumprir um objetivo bem mais ambicioso: abrir caminho para um planeta mais sustentável.

“Se conseguirmos aterrar em Abu Dhabi, aí começará verdadeiramente o Solar Impulse, o projeto de demonstrar que conseguimos milagres, feitos incríveis, com energias renováveis e tecnologias limpas”, afirmou Piccard. “Já temos hoje tecnologias limpas suficientes para dividir por dois o consumo de energia no mundo e produzir metade do restante com energias renováveis. E a todas as pessoas que não acreditam que isto seja possível, queremos mostrar que um avião já pode voar à volta do mundo com um piloto a bordo, sem combustível, dia e noite. Para que ninguém possa dizer no futuro que a energia renovável é uma anedota”.

O gene da aventura

Se alguém pode fazê-lo é Piccard. Psiquiatra e apaixonado pela aviação, o suíço descende de uma família de aventureiros com vocação para desafiar os limites e bater recordes: o avô, Auguste Piccard, foi em 1931 o primeiro homem a atingir a estratosfera (a quase 16 mil metros de altitude), numa cápsula pressurizada; o pai, Jacques, estabeleceu o recorde de profundidade (11 mil metros) ao conduzir o submersível Triest I ao maior abismo da Terra, a Challenger Deep, na Fossa das Marianas, Pacífico Ocidental. Com uma herança assim, Bertrand parecia fadado para altos voos, como aquele que pretende fazer agora.

Nascido em Lausanne em 1958, tinha 11 anos quando o Homem foi à Lua. Enquanto o pai explorava as profundezas do oceano, à procura dos segredos da Corrente do Golfo, ele foi convidado por Wernher von Braun, engenheiro que liderou o desenvolvimento do foguete Saturno V da histórica missão Apollo 11, para assistir in loco, no Cabo Kennedy, à partida de Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins. Foi um grande passo para a Humanidade e um “ponto de mudança” na vida de Piccard, confessou anos mais tarde. Desde então, passou a viver com os olhos postos no céu.

Há 16 anos, precisamente a 1 de março, dia do seu aniversário, conquistou por fim o seu lugar na história. Depois de duas tentativas falhadas, partiu com o inglês Brian Jones para aquela que seria a primeira volta ao mundo num balão de ar quente sem realizar qualquer escala. O voo é, ainda hoje, o maior da história da aviação, em distância e em duração: 45 755 quilómetros em 19 dias, 21 horas e 47 minutos. Agora, também a 1 de março, dia do seu 57º aniversário, quer ir ainda mais longe. Auguste e Jacques estariam orgulhosos.

RE

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