VAI ANDANDO QUE ESTOU CHEGANDO

A recente eleição de Diaz-Canel como Presidente do Conselho de Estado em Cuba, embora já membro da Comissão Política e Vice-Presidente do Conselho de Estado e portanto desde há muito apresentado como sucessor de Raul Castro à frente do regime, não deixa de ser uma novidade, pelo facto de pela primeira vez, na já longa história da revolução cubana, ser um personagem fora da família Castro, nascido pós revolução. Não espero com tal escolha nenhum “milagre das rosas“, ou seja, grandes alterações no sistema de partido único e sobretudo quanto à gestão da economia.

Visitei o País pela primeira vez a convite de um amigo nos finais da década de oitenta. Por lá estivemos cerca de um mês numa viagem que a partir de Havana chegou a São Tiago e, inevitavelmente, à Serra Maestra. Por razões diversas voltei inúmeras vezes ao País, seja em apoio de investidores portugueses interessados em investir em Cuba, quer mais tarde apoiando a concretização e dinamização do Protocolo que tinha sido firmado entre o município de VRSA e outra estrutura congénere nos arredores de Havana. Foi com base nesse aprofundamento que proporcionaram a ida de algumas dezenas de habitantes pobres do nosso conselho, a realizar operações às cataratas porque o SNS não tinha dado resposta a essa necessidade. Mas, de uma forma ou de outra, sempre quando se tratou do regresso, saia de Cuba com um sabor agridoce.

Pela situação de atraso em que o País permanecia, mesmo tendo presente as consequências provocadas pela derrocada política a Leste e mais tarde com os problemas criados com a situação política na Venezuela, a dependência do petróleo, a baixa concorrência que oferecia a produção de cana de açúcar quando ficaram de fora compras subsidiadas. O turismo é hoje o principal motor da economia do País, sobretudo também pelo que permite de economia paralela que vai da restauração à renda temporal de casas para acolher turistas. Mas um País que produz pouco o que recebe pela actividade relacionada com turismo vai em parte esvair-se para pagar a importação de bens alimentares, de entre outros, para suportar a manutenção de hotéis.

A curta abertura que tem sido dada para libertar de amarras, em beneficio do pequeno negócio tem, a meu ver, de ser ampliada para que o regime possa sobreviver, não só como regime de partido único, com uma relação não resolvida com a liberdade, mas porque o desenvolvimento económico em diversas áreas acabe por acontecer de forma larga e duradoura, em benefício da estabilidade do País, que tem na educação e na saúde, como sistemas públicos, as grandes conquistas da revolução, que permanecem, apesar de todas as dificuldades que enfrentam.

Mas a Cuba, mesmo tendo presente que nos dias de hoje, significa um destino caro, vai regressar-se, pela descoberta e encanto da palavra revolução, ao encontro de um povo alegre, musical, que tem no acolhimento que a mulher cubana jovem ou menos jovem dispõe, o sabor caribenho do carinho, de quem está disponível para receber e dispor, o que pode significar uma noite de amor ou um romance para a vida.

É desse sabor agridoce que permanecendo sempre estimulado, contraditoriamente, entre o desejo de voltar, e o desencanto que regressa, após cada viagem. Até ver.

Por razões de trabalho estarei fora do País de 24 a 30 de Abril. É a primeira vez que não festejo o 25 de Abril. Levo-o todavia na alma.

Carlos Figueira

carlosluisfigueira@sapo.pt

Advertisements
Tamanho da Fonte
Contraste