VAI ANDANDO QUE ESTOU CHEGANDO

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Entramos num novo ano que não se afigura fácil, quer no plano interno, quer por além fronteiras. Ano eleitoral marcado pelas eleições para o Parlamento Europeu em Maio e internas, legislativas, em Outubro.

No plano externo com avanços da extrema direita e em muitas situações a apontar para uma direita radical a aflorar o neofascismo. Cujo exemplo, talvez maior, seja a Hungria, recentemente, com o governo a aprovar a imposição dos trabalhadores terem de trabalhar 400 horas extraordinárias de forma gratuita ou, na melhor das hipóteses, deixadas à vontade dos patrões. Trata-se de um regresso às mais violentas formas de exploração que marcaram o início do século anterior. Mas, esta medida, é o somatório do que ocorre no mesmo sentido em vários países da EU, Áustria, Suécia, República Checa, de entre outros, o que demonstra um crescimento da ideologia da extrema direita só possível pela cedência a políticas de centro direita com a cumplicidade dos partidos de centro esquerda não só na Europa mas sobretudo das forças políticas que tem exercido poder no interior das estruturas da EU.

Por cá também iniciamos um ano marcado pelo anúncio de novas greves e o arrastamento de outros conflitos que têm marcado os últimos tempos. A multiplicação de estruturas sindicais e comando de Ordens Profissionais associadas à direita, faz prever que a direita procura ter nestes instrumentos um balanço político que lhe poderá dar folgo para as próximas eleições já que no plano da representação política não o está a conseguir.

É neste contexto político que também se enquadra o convite da TVI para um programa cuja figura principal é assumidamente um criminoso fascista que para além do que proclama seja um projeto de regresso ao passado de miséria e de repressão por ideais diferentes, um novo Salazar mas, para além desse facto repugnante, trata-se de um criminoso, por crimes de racismo, por assassinado de cidadãos de outra cor e sustentar a sua atividade nesse pressuposto, atuando contra a Constituição da República que define no seu numero 4 do Art. 46º, consagra o princípio de que “não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista”. O programa acabou por ser suspenso perante o repúdio que provocou numa vasta opinião pública, o que significa que existe na população portuguesa um número significativo de cidadãos com uma consciência sólida quanto ao que foi a ideologia fascista, a ditadura de Salazar e o que todos esses anos representaram de crimes e atrasos sociais e económicos do País que saiu desse regime com o mais atrasado da Europa.

O Jornal Expresso de 22 de Dezembro anunciava os principais investimentos previstos pelo atual governo até 2030. Devo confessar que sem cair em demagogias constituiu surpresa maior o que está previsto para o Algarve porque se bem compreendi para além de obras há muito esperadas na EN 125, na discutível obra de ligação ferroviária do aeroporto a Faro nada de novo e significativo vislumbrei. E perguntei-me a mim próprio: e então a eletrificação da rede ferroviária em todo litoral; os portos; os incentivos à perca; a regularização, ou como quiserem modernização, do acesso de VRSA a Beja e da mesma forma de Lagos a Sines? Perplexo fiquei com a noção que o Algarve tinha mais uma vez sido desvalorizado no que podia constituir um salto para o seu desenvolvimento.

Por último uma breve nota de desencanto quanto ao que significou chegar-me às mãos o número do Jornal Baixo Guadiana, em papel, comemorativo dos 20 anos da Odiana, mensário ao qual fique ligado durante cerca de 10 anos, muito dos quais como diretor, num exercício completamente gratuito, ter sido praticamente ignorado, nas funções exercidas e no papel que desempenhei para que o jornal não fosse um somatório dos boletins municipais. A democracia tem destas coisas!

Carlos Figueira

carlosluisfigueira@sapo.pt

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