Vai Andando Que Estou Chegando

Carlos Figueira

Antes de tudo peço desculpa aos meus leitores por uma boa parte desta crónica ter um espaço, na maioria do texto, extremamente pessoal. Tive até a ocasião de falar com Fernando, antes de tudo meu amigo, dando-lhe conta, se estaria, ou não, em condições físicas e até psicológicas para escrever, dado os acontecimentos que me têm envolvido pessoalmente. Porque de facto a vida me tem sido um tanto madrasta. Por razões fundamentalmente físicas. Abortei um regresso de uma viagem ao congresso de Macau, porque após viagem ao Vietnam e ao Camboja, no regresso a Lisboa desmaiei já em pleno avião no Dubai o que envolveu, como se imagina, uma complexa operação de interrupção do voo seguida de um serviço ambulatório que me conduziu a ficar um dia num hospital no Dubai, no qual, diga-se de passagem, fui muito bem tratado. Mais recentemente, verificou-se a interrupção de uma longa viagem que tinha projectado para Itália, interrompida em Roma, por uma completa indisposição gástrica que os italianos não assumiram as consequências do que poderia acontecer, durante o resto da viagem, o que conduziu a um regresso intempestivo a Lisboa. Como se não bastasse, mais recentemente, semanas atrás, tinha projectado, aproveitando os dias de Carnaval disfrutar de uns dias em Sevilha e mesmo quiçá em Córdoba, cidades próximas que admiro. Pela vida divertida que oferece: animação, gastronomia, património, convívio com gente feliz.

Eis que, em vésperas de partida, na madrugada que a antecedia, por razões que ainda hoje não consigo explicar, dei uma queda, em pleno quarto, que teve como consequência dois rasgões enormes num dos dedos, provocando uma grande hemorragia só resolvida no dia seguinte com recurso ao SNS, em VRSA da extensão do Hospital de Faro, tanto quanto me apercebi que acabei por saber que funciona 24 sobre 24 horas. Também aqui fui tratado com rapidez, com enorme eficiência e simpatia, resultando após o acto praticado, a marcação de consultas para os dias seguintes, na Unidade Familiar para tratamento dos pontos, o que aconteceu nos dias seguintes igualmente com a mesma eficácia e simpatia.

Factos que sublinho e refiro, porque é destes atendimentos que esperamos do SNS, para onde são canalizados boa parte dos nossos impostos. Todavia, dia depois, sexta-feira, dia marcado na mesma semana para operar a mudança do penso, deparo-me com um serviço vazio, sem enfermeiros para prestar tal serviço porque estavam em greve total e com uma manifestação em Lisboa com mais de setenta autocarros pagos pela respectiva Ordem, cuja legalidade desconheço, como ainda hoje continuo a desconhecer a proveniência dos dinheiros para pagar as consecutivas greves dos enfermeiros.

Aqui chegados, significa quanto me informaram que as unidades de saúde familiares do Levante, que cobrem necessidades de Alcoutim, Castro Marim e VRSA não dispõem de serviços mínimos, tal como as restantes Unidades de Saúde (hospitais ou equivalente em serviços) não se destinam, nem terem vocação, estatuto, nem serviços para substituir (foi o que me foi dito por uma profissional, por sinal simpática) para substituir pensos, sem gravidade aparente, o que significa que a única solução que se apresentava era recorrer ao serviço privado, nos quais os enfermeiros e os médicos, aparentemente, digo eu, continuam a ser bem pagos e a terem uma carreira assegurada.

Para além das contradições em que toda a conversa decorreu, a este propósito, ficou para mim com alguma clareza a radicalização em que o processo se encontrava por parte dos enfermeiros, para além da justeza que lhe pode assistir face às reivindicações porque agora se estão batendo. Mas igualmente que a luta dos enfermeiros, a manter-se em tais moldes, pode voltar-se, a curto prazo, contra os próprios, por parte significativa da população que não dispõe de recursos para recorrer aos privados. Falando por mim, com todo o respeito que tenho pelo direito à greve, também reconheço que existem momentos para tudo em benefício da população que não tem recursos para recorrer a outros serviços de saúde para além dos prestados pelo SNS. Está em curso na AR a sua discussão. Oxalá que de tal discussão saiam medidas para o seu aperfeiçoamento o que significa reforço, alargamento de serviços a prestar porque é também para tal que os portugueses pagam impostos e não são poucos.

Carlos Figueira

carlosluisfigueira@sapo.pt

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