VAI ANDANDO QUE ESTOU CHEGANDO

O rescaldo das eleições legislativas está ainda por fazer, apesar da onda especulativa que comentaristas de rádio e de TV dão já como conclusões definitivas sobre consequências futuras, desvalorizando sempre o que de importante, ou não, os números revelaram. Novas forças compõem a AR, mesmo que minúsculas na sua representatividade, são factores novos na sua expressão na sociedade. É ainda muito cedo para tirar conclusões definitivas sobre acordos, quais e de que formas. Estamos ainda em tempos de especulação e intriga.

Os resultados obtidos representaram, em primeiro lugar, uma profunda alteração de forças. Há quatro anos o PSD era o Partido mais votado e na actualidade cedeu essa posição para o PS. O que não significa um factor menor. A direita que tinha como objectivo central afastar a esquerda da área de poder perdeu em toda a linha tal objectivo, ficando o CDS/PP reduzido a um partido de cinco deputados que pode economizar deslocações, utilizando com vantagens nas suas deslocações para a AR transportes colectivos. Ficaram sem expressão política, com as suas “estrelas“ a anunciarem desde já que estão mais interessadas em negócios, seguindo aliás o exemplo dos seus “brilhantes“ antecessores. No PSD levará algum tempo para se entenderem, porque a recuperação última que obtiveram, se dá alguma margem para Rui Rio, pode não ser suficiente para a sua afirmação como líder de um Partido que necessita de um dirigente que se afirme com projectos para o País que não mudem em cada semana.

À esquerda o Bloco obtém um resultado, para além das suas perspectivas, o que se pode dizer, nem que é mau nem que é bom. Não perde nem ganha em termos de mandatos. Ficou como estava, seguramente aquém das suas expectativas, a confirmar que a luta não se faz em dois dias. Não é caso para desistências, continua a servir, sem dúvida, para contribuir à esquerda, para avanços, no quadro da correlação de forças que as eleições estabeleceram.

O pior resultado obtido à esquerda, e não há que fugir à questão, foi irealmente o obtido pela CDU. Não só foi mau pela perda de cinco deputados que se somam a outras perdas recentes, mas pelas conclusões que a direcção do PCP retira dos mesmos. Desde logo a não existência de qualquer autocrítica, os culpados são sempre os outros, a imprensa, alargando desta vez a membros do próprio partido e outros ex-membros, sem qualquer identificação, como se qualquer cidadão tendo sido membro do PCP lhe fosse vedado à eternidade exprimir uma opinião contrária à linha política seguida pela direcção do PCP. Ou mesmo aqueles que sendo membros do PCP lhe fosse impedido de discordar do que estava a ser praticado como linha de actuação e discurso político pela direcção do respectivo partido.

Mais, é de espantar que o Secretário Geral produza declarações que coloquem em causa a existência da própria “Geringonça“ não reconhecendo a sua existência, traduzindo-a a acordos políticos de circunstância, minimizando a importância que a mesma teve na profunda alteração na vida política do País. Se após estas eleições o PCP ficar, de qualquer forma, fora de qualquer acordo para aprofundar e fazer avançar de facto, não em palavras, uma política de esquerda que sirva o País, o seu desenvolvimento e a melhoria de vida da gente que trabalha, será o caminho para a decadência e isolamento da sociedade, deste grande e indispensável Partido. Cabe aos seus membros, assumirem as responsabilidades na difícil situação que o Partido atravessa para, numa visão crítica, inverterem a situação, antes que seja tarde.

Carlos Figueira

carlosluisfigueira@sapo.pt

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