VAI ANDANDO QUE ESTOU CHEGANDO

Entrou em normal funcionamento a nova legislatura, com a composição da nova Assembleia e a aprovação pelo Presidente da República do novo Governo, no qual figuram três membros oriundo Algarve. Cabe também em particular sublinhar a eleição de Ferro Rodrigues por uma larga maioria para Presidente da Assembleia da República, no reconhecimento de um papel marcado pelo respeito das diferenças de opinião, num registo em que acima de tudo os valores da democracia estiveram sempre presentes, independentemente de quem os expressava em cada debate ou intervenção em particular.

Trata-se de um Parlamento representado por um conjunto mais alargado de forças políticas. Pela primeira vez entra no Parlamento a extrema-esquerda, os liberais, que ainda se irá saber em que espaço de direita se colocará e o Livre que tem a novidade de ter eleito uma deputada negra, com deficiências de dicção, que tornarão seguramente mais difícil o seu exercício como deputada em algumas circunstâncias. Foi visível nesta sessão de instalação, o desalento do CDS e a situação não é para menos. Trata-se do destroço de um Partido, em consequência dos resultados eleitorais obtidos, o que agora o coloca a contas com o desmoronar de um aparelho interno e de um montante significativo de dívidas a pagar que, a acreditar na imprensa, se situará numa verba próxima de 2 milhões de euros.

Mas voltando à política, temos três questões importantes, uma delas já esta semana, a que a nova Assembleia é chamada a dar resposta: a aprovação ou não do Programa do Governo e dentro em pouco o mesmo em relação ao OE.

Veremos quanto ao Programa do Governo qual o comportamento de cada bloco político. Rui Rio, já protestou quanto à exiguidade do prazo. Mas os deputados são eleitos para trabalharem sem horário definido e o PSD elegeu gente suficiente para descentralizar responsabilidades para ler e analisar páginas sem grande pressão de horário, argumento que serve pouco para justificar um voto contra atitude mais que previsível ou mesmo uma abstenção que será muito censurável pelo seu concorrente à liderança do Partido.

Já quanto à esquerda cresce a curiosidade, aumentada pela última intervenção de AC, quando refere que continuam as portas abertas para se erguer um novo acordo à esquerda, chame-se “geringonça“ ou outra forma. Lançando assim um desafio para que a esquerda se defina e com tal atitude, de algum modo, desresponsabilizando-se se tal não acontecer. Eis aqui um facto político da maior importância que impõe uma resposta clara e rápida por parte da esquerda.

A intervenção do líder do PCP, até agora, tem sido pautada por um apelo à luta o que sendo certo não é o único caminho que se abre para defender os interesses dos trabalhadores e do País. Entender como alguns no interior do núcleo mais sectário da direcção do PCP que a participação do PCP na “gerigonça“ só trouxe prejuízos vertidos em perdas de deputados para o PS, a esses perguntaria e então sem tais acordos a CDU é certo que ganharia, como antes não ganhou, porque tem vindo sistematicamente a perder, com ou sem “geringonça“. Não será então necessário levar a análise mais longe e mais profunda, na procura das razões das perdas que já vêm de longe e decerto motivadas por razões ainda não totalmente equacionadas.

Já quanto ao BE a abertura para o diálogo parece maior com base em propostas, algumas das quais se me afiguram demasiado ousadas perante a realidade económica do País mas é exactamente para tal que serve a negociação e o diálogo.

Está aberto um caminho. Veremos como e cada um tem arte, engenho, força e sentido de classe para o melhor trilhar.

Carlos Figueira

carlosluisfigueira@sapo.pt

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