OPINIÃO

Vai Andando Que Estou Chegando

política
OPINIÃO | CARLOS FIGUEIRA

Regressei à Península para regressar a casa. Já tinha saudades de ver familiares e amigos. De regressar à cidade na qual passei momentos bons e felizes da minha vida. De almoçar frente à baía de Monte Gordo, de tomar contacto com o Oceano, meses passados, em redor do Mediterrâneo, mar parado sem ondas, misterioso nos seus silêncios despertos de quando em vez, por furiosas tempestades.

Mas regressei com um País de luto decorrente da morte de Jorge Sampaio, ex-presidente da Câmara de Lisboa e ex-presidente da República, sobre o qual já tudo foi dito e sublinhado, quanto à sua postura como homem de esquerda no plano ético e moral e como tal recorro-me do comunicado da RC, quando justamente assinala o contributo que esta personagem invulgar, deu à unidade da esquerda da qual resultaria a vitória na Câmara de Lisboa e posteriormente a Presidência da República.

Mas também por motivos diversos me afectou a notícia que dava conta da morte de Carlos Costa, membro destacado do PCP. Conhecemo-nos no início dos anos setenta, tinha ele saído à pouco de longa prisão nas cadeias fascistas e de pronto regressado à luta clandestina como responsável da Organização Regional do Norte, onde me encontrava, como membro em companhia de Edgar Correia, ainda este na situação de legalidade, porque só após a sua licenciatura como engenheiro, por decisão de Costa, integrou o quadro de clandestinos. Tive com Carlos Costa um longo período de convivência, quer antes quer após o 25 de Abril, no qual partilhamos ideias e fortalecemos longos anos de amizade familiar. Com pena assisti nos últimos tempos ao seu radicalismo político e nesse plano tendo sido um dos principais impulsionadores da minha expulsão e a do Edgar bem como à suspensão de Carlos Brito. Castigo que conduziu ao afastamento silencioso de largas dezenas de importantes quadros políticos do PCP. Costa nunca entendeu objectivamente o que tinha conduzido à queda da União Soviética e de todos o resto de regimes do Leste Europeu, sempre atribuindo tal facto a uma conspiração do imperialismo mundial. No plano em que se manisfestou o seu radicalismo, levou a actual direcção do PCP, tão imobilista como sectária, a afasta-lo de membro do CC no último Congresso. Quero guardar dele os melhores momentos que vivemos, no plano político e pessoal.

Mas nem tudo foram más as notícias que recebi na chegada. Desde logo o facto de Portugal figurar como o primeiro País a atingir um nível de vacinação acima dos 80%, facto para o qual contribuíram todos os profissionais de saúde, a coordenação do plano de vacinação, o papel desempenhado pelas autarquias e a adesão do povo na sua mais generosa posição na aderência à vacinação. Mas todos somados estes comportamentos não teriam o êxito que hoje nos orgulhamos como País, sem o papel desempenhado pelo Serviço Nacional de Saúde, apesar de todas as insuficiências de estrutura e meios que continua a evidenciar.

Estamos na última semana das eleições autárquicas. Não me recordo de um quadro político que tivesse em anos de eleições anteriores consequências políticas para a liderança dos vários partidos quer à direita quer à esquerda, retirando deste quadro a confortável posição que ocupa genericamente o PS. Dos resultados a obter, na direita estará preso por arames a continuidade de Rui Rio como Secretário-geral do PSD, mas mesmo à esquerda e tendo presente o imobilismo do PCP, creio que um mau resultado, somado ao anterior, não deixarão de ter efeitos internos, o mesmo se passando com a inconsequência política que tem vindo a demonstrar o Bloco. Aqui estaremos para a semana para apreciar o que de tudo resultou para o futuro político próximo tendo presente a aprovação, ou não, do OE.

Carlos Figueira

carlosluisfigueira@sapo.pt

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