OPINIÃO

Vai Andando Que Estou Chegando

política
OPINIÃO | CARLOS FIGUEIRA

A chegada do Outono foi violenta, inesperada mesmo, como se sentisse na obrigação de atenuar com tempestades um Verão longo e demasiado quente. Como se fosse obrigado a limpar a atmosfera e arrumar o desarranjo provocado na natureza pela invasão dos devastadores incêndios a tornar em cinzas o que se destinava a uma agricultura e floresta férteis. Mas tudo mudou em poucos dias voltando a um Outono suave a permitir os últimos banhos de sol ou, quem sabe, a garantir um fim-de-semana sem obstáculos de chuva ou frio, propiciando assim o acesso dos cidadãos às mesas de voto nas eleições autárquicas.

De facto é de eleições para o poder local que particularmente me ocupo nesta crónica, pela importância que os resultados obtidos por cada força político podem vir a ter no futuro do País, no que podem ou não intervir na estabilidade politica que se necessita. Os dados que nos foram até agora oferecidos não permitem uma análise de pormenor, nem o tempo que medeia a crónica com a sua entrega, facilitam tal análise.

Assim sendo limito-me a comentar alguns dos resultados que me chamaram mais a atenção. Desde logo para me afastar da ideia que tudo ficou na mesma ou seja não houve nem vencedores nem vencidos o que realmente não corresponde na minha opinião à verdade dos factos porque se observarmos alguns dos detalhes que marcaram esta eleição torna-se claro que embora com perdas e ganhos o PS continua a ser a força com maior número de Câmaras e Juntas de Freguesia assegurando dessa forma a direcção das respectivas Associações no plano nacional.

A perda de Lisboa, tem um significado particular, representou um alívio para Rui Rio que assim pode respirar melhor quanto à manutenção do seu cargo à frente dos destinos do PSD. Mas a derrota de Medina coloca a esquerda num embaraço com responsabilidades acrescidas nesta derrota. PCP e Bloco recusaram por sectarismo, ilusão política, uma aliança à esquerda com um candidato que representa a ala mais à esquerda do PS, frente a um candidato que tinha unificado toda a direita numa cidade com uma classe média insatisfeita porque esmagada pela violência dos impostos e a incerteza de carreiras profissionais e uma grande burguesia que não suportava tropeçar nas bicicletas frente ao seu património.

O espaço que ainda disponho faz-me regressar ao Algarve região na qual o PSD perde duas Câmaras para o PS (Monchique e VRSA) e não ganha qualquer outra, mantendo as que dispunha. Neste contexto cabe uma particular referência à derrota do PSD em VRSA a qual me merecem os seguintes comentários: uma candidatura fortemente marcada em torno de Luís Gomes relegando para a penumbra o resto dos candidatos; não se ter demarcado com clareza da gestão do mandato exercido por São Cabrita a contas com a justiça; a indefinição entre música e exercício do poder a que se candidatava; a desvalorização politica da classe media e das suas opções, até musicais, que vive e ocupa o centro da cidade, num espaço no qual se ganham ou perdem eleições; a atenção excessiva para zonas de um leitorado nem sempre fiel como já o demonstrou em eleições anteriores; uma campanha envolta numa nuvem subestimando o que estava para além da bolha em que viviam.

Finalmente e regressando ao País uma nota sobre os resultados obtidos pela CDU os quais confirmam descidas importantes de influência com perdas de Câmaras de grande significado como Loures, ou Monte Mor, aguentando Évora no fio da navalha, sem recuperar as significativas perdas de há quatro anos. Creio que todo este panorama que tem por detrás uma linha política, sectária, longe da realidade do cidadão comum, tendente a colocar o PS no centro das suas críticas, torna obrigatório a marcação de um Congresso Extraordinário para eleger uma nova direcção e a correcção deste desvio politico em que se move há décadas.

Por último o PS tem de igual forma de retirar ensinamentos que conduziram à perda de Lisboa e Coimbra perdas acrescidas com a desistência do Porto. Os tempos não dão para carpir magoas e nesse sentido pode justificar-se, a curto prazo, alguma renovação na composição do governo e no acerto de políticas.

Carlos Figueira

carlosluisfigueira@sapo.pt

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