Vai Andando Que Estou Chegando

Estava um dia solarengo a convidar a uma saída coincidindo com a circunstância de se tratar de um dia festivo em toda a ilha em comemoração da reconquista do território com a expulsão dos árabes, que aqui tinham estado e governado durante vários séculos. Acontecimento que remonta a finais do Século XIII. O último reduto de resistência foi Ciudadela cidade que durante largo tempo foi a capital da ilha, título que hoje ostenta Mahon.

Como em todas as guerras sucedeu-se um período marcado pela carnificina, escravidão, fugas e, com alguma sorte, alguns dos antigos ocupantes permaneceram numa actividade comercial que interessava aos novos donos do território sobre o poder do Reino de Aragon. Não sei se entre os que acabaram por permanecer haveria algum poeta à semelhança do que nos trouxe, até aos dias de hoje, a reconquista do Algarve. Mas a data também é dedicada ao culto de San António Abat, Patrono da Defesa dos Animais, correspondendo, eventualmente, a uma das actividades económicas associadas à produção agrícola e, em particular, à produção de carne no entender do historiador Marti Carbonel que com algum detalhe descreve os acontecimentos vividos nessa época.

Longe desses tempos vivemos hoje também momentos inquietantes provocados pela extensão da pandemia, com número de infectados a crescerem dia após dia e, mesmo que distantes quanto a mortes e internados na UCI, face aos verificados há um ano atrás, não deixam de constituir um verdadeiro pesadelo a condicionar as nossas vidas em comum, situação explorada nos limites da decência por uma comunicação social assente na propagação de tudo o que de mal nos pode acontecer, tornando a procura de notícias que nos despertem para o que de bom acontece nos dias que passam. Neste quadro não se estranha a subida das depressões. Cumulativamente estamos confrontados com notícias inquietantes que nos dão conta da possibilidade de ocorrer um conflito, que a ocorrer só aparentemente será regional, na fronteira da Ucrânia com a Rússia, acontecimento que a verificar-se envolveria toda a Europa e os EUA. Que Mundo estranho estamos a viver.

Voltando aos nossos dias como era de prever, os momentos são marcados pela expectativa dos resultados que cada partido pode obter a 30 de Janeiro. Após um longo período de debates que opôs os cabeça de lista de cada um dos intervenientes com representação parlamentar, em momentos circulares, ficou para mim claro duas questões que reputo de centrais: tornou claro o que o centro direita e a extrema direita, com mais ou menos nuances, propõem a existência de um Estado predominantemente entregue à iniciativa privada nos domínios da Saúde, Educação e Apoios Sociais e um outro, representado pelo conjunto do centro esquerda e esquerda que, apesar de diferenças substantivas, se opõem a tal projecto. É esta a questão macro sobre a qual os eleitores decidirão quando votarem.

De resto se para alguma coisa os debates serviram, se entendidos nesta perspectiva, apesar do curto tempo em que decorreram e o enfadonho que já provocavam na parte final. Creio que, por tal, puderam ter prestado um bom serviço, mesmo que acompanhados por um conjunto de comentadores, próximos ou militantes do centro direita e, diria mesmo, do esforçado e artificial circo mediático, que rodeou o debate entre Costa e Rui Rio, a ponto de o embrulharem num clima como se desse confronto democrático, se decidisse quem ganharia as próximas eleições.

Entrados no período de campanha eleitoral, pelas notícias que dela ocorrem, a substancia dos discursos da direita, com alguma coerência diga-se, centram-se na natureza do regime e do papel do Estado que a ocorrer a sua vitória, implantariam no País, contornando a Constituição que nos rege, num mar de demagogia e populismo, que não enobrece a política. À esquerda e ao centro esquerda, observo com alguma preocupação, que tanto PCP como o Bloco centrem os seus discursos no ataque ao PS procurando à exaustão, fugirem do facto de terem votado contra o OE/22, esquecendo completamente a direita. Costa, numa postura de punição à esquerda, procura na captação do voto útil, o que lhe falta de apoios para alcançar uma maioria absoluta.

Não creio que os tempos sejam propícios a qualquer solução política assente num bloco central, mesmo que no interior do PS tal solução seja considerada. As diferenças que os separam do centro direita, com Costa ao leme, superam em muito possíveis convergências. Estas têm de ser valorizadas pela esquerda como contributo para que tal não possa ocorrer. Está marcado para hoje à noite um último debate com todos os cabeças de lista com assento parlamentar. Não creio que venha alterar nada de essencial.

Carlos Figueira

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