Vai Andando Que Estou Chegando

Escrevo esta crónica por razões editoriais, em simultâneo com a minha disponibilidade, justamente no dia em que se comemoram em todo o País 48 anos de reposição das liberdades com a derrota da ditadura fascista de mais de quarenta anos.

Ao longo desta curta história do pós 25 de Abril assistimos a variadíssimas deformações sobre a origem e os protagonistas desse movimento revolucionário. Do centro direita que ocupa espaço político no interior do PS a uma direita em muitas circunstâncias extremada, que nunca aceitou a perda de privilégios nem de importantes posições que durante largos anos ocupou no aparelho de estado ou na economia, algumas delas com origem nas antigas colónias. O processo de descolonização que seguiu à derrota do sistema colonial continua, ainda hoje, a ser uma espinha gravada nas suas gargantas e ambições. A forma como no ensino público tem sido dada às novas gerações a visão deste acontecimento histórico é um exemplo entre muitos outros em que a direita tem vindo a ocupar espaço.

Não são poucos os historiadores, comentaristas, jornalistas, políticos de profissão, os que introduzem deformações sobre a natureza e causa de tal acontecimento, acompanhado da ideia de que continua a existir uma divisão no País sobre tal acontecimento ao ponto, tendo como referência, a atitude de Cavaco, na altura Presidente do País, ao condecorar um agente da Pide e recusar em simultâneo a mesma medalha a um dos heróis, Capitão de Abril, Salgueiro Maia. Numa linha de uma pseudo-reconciliação, conduziu este ano Marcelo a atribuir a Spínola uma medalha de reconhecimento, quando se sabe que foi um dos maiores activistas contra a revolução de Abril a ponto de ter fugido para o Brasil para se furtar da condenação por crimes cometidos.

Todavia, apesar de todo esse contexto, é confortante assinalar que de acordo com uma sondagem publicada hoje no DN, a esmagadora maioria dos portugueses não só apoia como se sente confortável com tal acontecimento, que de forma marcante ocupa um lugar devido na nossa recente história.

A semana que antecedeu a comemoração dos quarenta e oito anos da revolução dos cravos foi fértil em acontecimentos um dos quais, de maior relevo, assinalado com a sessão da AR para ouvir o discurso de Zelensky, presidente da Ucrânia, a apelar mais uma vez, como tem sido recorrente, a maior solidariedade e apoio, centrado no envio de armas, para prolongamento de uma guerra de todo injusta, com origem na ocupação russa, guerra já em muito pejada de destruição, cadáveres e milhões de refugiados.

Na origem desta cerimónia e dos elogios que generalizadamente se seguiram, teve como origem a iniciativa do PAN, para que tal ocorresse, partido com representação minúscula no Parlamento que serviu de “lebre” aos apoios que se seguiram, com excepção do PCP, porque em momentos de grande complexidade, como os que estamos assistindo, cujo desfecho se mantém incerto, é mais cómodo assumir prudência, porque resulta ser mais confortável ir na corrente, do que assumir a iniciativa primeira, embora as razões de fundo dos apoios permaneçam sendo de todo triste do Bloco ao recente deputado eleito pelo Livre este tenha tido a lata de enaltecer o valor democrático da eleição de Zelensky, esquecendo que se trata de um condecorador de nazis, alguns membros destacados do Batalhão Azov, agrupamento da extrema-direita europeia, numa eleição que não contou com o voto de boa parte dos ucranianos. Fica o registo.

Neste contexto de contornos sombrios a posição errada da direcção do PCP em se ausentar do hemiciclo, somada à posição dúbia que tem assumido sobre a invasão da Rússia (já aqui o assinalei) na Ucrânia, não pode nem deve servir de trampolim para uma das mais violentas campanhas contra os comunistas sejam eles membros ou não desse Partido.

Na Europa assiste-se, como era espectável, a distanciamentos sobre a posição dos EUA quanto a romper acordos com Rússia para fornecimento de gás, a mais importante das quais assumidas pela Alemanha, a maior economia europeia. A par, somam-se diversas posições, de apelo ao fim do conflito, não só na Europa, das quais destaco, pela sua importância política, a de Guterres, Presidente da ONU, que enfim se libertou do espartilho imposto pelos americanos, para assumir um papel de maior iniciativa visando o termo do conflito.

A sobreposição de interesses imperialistas perante a realidade terrível da guerra que conduz à pobreza extrema e ao abandono de vidas, só pode, a bem dos povos, conduzir a iniciativas que ponham fim ao conflito fundindo os mais largos apoios, no caminho de uma Paz que se torna a cada dia numa emergência.

Viva o 25 de Abril!

Carlos Figueira

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1 COMENTÁRIO

  1. A data do 25 de Abril deve ser considerada intocável, quanto à lufada de ar fresco que trouxe a um país cheirando a mofo e onde, quando se conversava com um amigo, se tinha de olhar para o lado, não fossem estar, por perto, alguns ouvidos, que se poderiam revelar sinónimo de uma “viagem” à Rua António Maria Cardoso ou a alguma das filiais distritais da polícia política, com todas as consequências advenientes e bem conhecidas.
    Porém, a nobreza do 25 de Abril não nos deve fechar os olhos para alguns que o quiseram transformar em algo de sinal contrário e que por aí andam fazendo juras eternas de fidelidade à democracia e à liberdade, quando conhecemos, preclaramente, como funcionam os países onde os seus princípios políticos vigoram, como Partido, cartilha e pensamento únicos.
    A ingenuidade jamais foi boa conselheira.

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