REPORTAGEM

Viagem pela Ásia interrompida pelo vírus

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Uma viagem de sonho de um casal algarvio, que deveria durar nove meses, foi interrompida a meio devido a uma ameaça invisível. Este é apenas um exemplo, muitos outros amantes de viagens sofreram a mesma angústia. De acordo com o relato do casal, feito esta semana ao JA, ao longo do tempo o número de máscaras utilizadas nas ruas dos países asiáticos por onde passaram foi aumentando, na medida inversa em que iam diminuindo nas lojas. O medo das fronteiras fecharem a qualquer momento levou ao regresso a casa dos dois jovens de Faro.

Lara Gonçalves e Rúben Caeiro, ambos com 24 anos, são um casal de fotógrafos algarvios que embarcaram numa longa viagem pela Ásia, agora interrompida devido à pandemia do vírus COVID-19. De regresso a casa, revelaram ao JA tudo o que viram enquanto a doença, ainda nos seus primórdios, se ia espalhando pelo mundo.

Muito antes, em 2019, estiveram a trabalhar durante um ano para viajar durante

tempo indeterminado. O plano e a viagem que começou no fim de novembro do ano passado acabou por não correr como era esperado e voltaram a 13 de março para as suas casas no Algarve.

A viagem começou por Singapura e a partir daí visitaram outros países do continente asiático como Indonésia, Malásia, Filipinas e Tailândia, ficando outros por conhecer.

Para partilhar a viagem com a família e amigos, o casal criou o projeto “The Coolest Kiddos”, uma página de Instagram e um blog para publicar fotografias em pelos locais por onde passavam “para depois recordar com uma fotografia muito bonita, em vez de uma selfie normal”, com algumas dicas de viagem.

“Soubémos do vírus passados dois meses do início da viagem e tínhamos acabado de chegar à Malásia, no final de janeiro”, afirmou Rúben ao JA, acrescentando que nessa altura ainda não se falava muito do COVID-19 em Portugal, mas souberam pelos seus pais dos “casos preocupantes que estavam a surgir na China”.

“Era muito raro ver uma pessoa sem máscara nos países por onde passámos, mas não achámos muito estranho porque já é uma coisa normal para eles, que usam máscara no dia-a-dia por causa da poluição e para não passarem doenças”, disse Lara ao JA.

Com o passar do tempo, e o vírus a alastrar, os jovens começaram a ver mais pessoas a usá-las.

No entanto, o casal de fotógrafos não conseguiu perceber se os habitantes daqueles países asiáticos falavam do assunto “porque não se consegue entender a língua” e a população local não parecia estar muito preocupada.

Quando compraram as primeiras máscaras, Lara e Rúben estavam longe de imaginar as proporções que o vírus iria ter.

“Ouvimos falar do vírus e fomos ver as notícias. Achámos que era uma coisa que não iria sair da China e que seria facilmente resolvida”, confessaram.

Em relação às máscaras, “havia sítios mais fáceis de encontrar do que outros”, tendo primeiramente comprado descartáveis, “em packs de cinco e dez a um preço muito baixo”. Em alguns locais, as máscaras custavam entre 0,17 e 0,50 cêntimos e as mais caras poderiam custar entre um e quatro euros, algumas com filtro de ar.

No entanto, “para fazer menos lixo”, acabaram por comprar máscaras de pano, reutilizáveis e laváveis, a cerca de 1,70 euros. Este tipo de máscaras tem uma particularidade que agradou aos jovens: um arame que se molda ao nariz, tornando-as

mais eficazes.

“Quando andávamos de avião ou estávamos em espaços mais frequentados, usávamos as máscaras descartáveis e, por cima, as de pano”, explicaram os jovens algarvios.

O sitio mais difícil de encontrar máscaras durante esta viagem foi em Phuket, na Tailândia, uma área muito turística e com uma grande afluência de pessoas, segundo o casal: “Tivemos de percorrer as lojas todas para encontrar máscaras, mas acabámos por encontrar”, referiram. Em Manila, nas Filipinas, havia muitas máscaras à venda e também muitas pessoas a usá-las, enquanto que na Malásia o gel desinfetante encontrava-se esgotado.

O facto do povo asiático ser muito cuidadoso foi uma atitude destacada pelos fotógrafos algarvios, que deram o exemplo dos centros comerciais, onde era medida a temperatura corporal à entrada e desinfetadas as mãos de todos os visitantes.

Apesar do casal usar as máscaras frequentemente, salientam que “a maioria dos turistas” não as usavam, em todos os sítios por onde passaram.

Com o voluntariado em vista, os jovens decidiram que voltar a casa seria a melhor opção: “Nós tínhamos realmente medo que fechassem as fronteiras, como acabaram por fazer” e que depois pretendessem voltar para junto das suas famílias e não conseguissem, como é o caso de mais de quatro mil portugueses neste momento.

O casal tomou a decisão quando percebeu que o vírus estava a alastrar-se pela Europa, nomeadamente em Itália, que é “um caso mais grave”.

Quando chegaram a Lisboa, depararam-se com um cenário assustador: o aeroporto não tinha qualquer medida preventiva, não fazia qualquer tipo de triagem nem era medida a temperatura corporal das pessoas que desembarcavam em Portugal.

“Em todos os outros aeroportos que passámos, mediram-nos a temperatura. Em Portugal, não houve nada”, referiram os jovens, que passaram pelo aeroporto General Humberto Delgado imediatamente antes de ter sido decretado o Estado de Emergência.

O casal, quando chegou a Lisboa, ligou de imediato para a Linha de Saúde 24 a explicar toda a situação e que viviam com a sua respetiva família. Do outro lado, foi dado o conselho de “aguardar por uma chamada de um médico num sítio mais isolado”, o que era “praticamente impossível” pois os jovens encontravam-se num aeroporto.

A chamada acabou por não acontecer e os jovens seguiram viagem para o Algarve, onde ficaram em isolamento voluntário.

“Voltámos a ligar para a Linha de Saúde e esperámos durante três horas para que nos atendessem a chamada”, confessou Lara ao JA. Após várias perguntas, do outro lado da linha foi-lhes dito que como não tinham estado em países de risco como China, Irão, Singapura ou Itália, o isolamento tinha caráter voluntário.

O especialista de Saúde que atendeu a chamada não considerou que as viagens feitas pelo casal nas últimas semanas em aviões, autocarros e comboios tenham sido arriscadas, mas que seria “uma boa atitude” praticarem o isolamento, mesmo em casa.




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