OPINIÃO

Volta seally season, estás perdoada

OPINIÃO | JOÃO PRUDÊNCIO
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Tenho saudades de uma boa tontaria por esta altura do ano. Lembram-se? A onda gigante, as saraivadas anti-ciganas da Fátima Bonifácio, o Mário Soares a cumprimentar um par de mamas no Vau, o coqueiro do Cavaco, as diatribes do Santana Lopes, as palhaçadas do João Jardim, as idiotices do Pontal e do Chão da Lagoa. De tal maneira eram grandes e incontornáveis das nossas agendas de conversas de Facebook e de café que nos últimos anos já não conseguíamos passar sem esses laivos certificadores da seally season. Aqueles factos confirmavam que estávamos no verão e que esse verão era louco. Habituámo-nos. Era como se, de repente, todos precisássemos de nos rir, e também irritar, e também espairecer, e também desesperar, e também divertir, e também impacientar, e também zangar… para exorcizarmos a normalidade dos dias mais frios e sensaborões.


A seally season era, de há muito anos para cá, uma certificação de que estávamos vivos, assim uma espécie de prova de vida que julho e agosto conferiam à nossa existência para termos a certeza da porcaria de vida que levávamos aos tombos em transportes públicos, em empregos tristes, em tascas repetitivas comendo o mesmo bife com batatas anos a fio, uma vida a fio, uma merda de realidade.


Eis senão quando, este ano, tudo muda. Não tivemos seally season porque não tivemos standard season, fomos roubados da rua, da loja, do restaurante, até do “nine to five”, da rotina angustiante, entediante, das nossas vidas.


A culpa de não sermos tontos por dois meses é que não tivemos normalidade durante os três meses e meio que os precederam.

Não se formou “a sede que se deseja”. Roubaram-nos a normalidade à força e com tanta eficácia que ficámos com saudades dela. Quando finalmente vieram os meses da tonteria ainda nem sequer tínhamos chegado à normalidade. Continuávamos sem futebol, sem festivais, sem cinema nem teatro, mascarados, tristes, carentes de beijos e abraços e de uma boa pista de dança.


Estávamos como aquele tipo que levam ao Parque Mayer depois de lhe ter morrido toda a família, o cão, o gato e de sopetão lhe terem ainda quebrado os braços e as pernas à pancada. Como podem pedir a um tipo desses que ria com as parvoíces de uma revista à portuguesa?


Como nos podem pedir que nos habituemos à realidade luminosa nos cinco segundos seguintes a um mês de escuridão?


Claro que temos as nossas diversões feitas de idiotices que roçam ao de leve as diatribes de uma verdadeira seally season: o regresso da Cristina Ferreira e a sua vingança, a exceção da Festa do Avante, o “Chega pra cá” do Miguel Albuquerque, o bloco central contra os debates quinzenais, o Ventura que põe meninos pretos de enfeite nas ruas.


Mas o que é tudo isso ao pé de uma bela e magnificente onda gigante, daquelas que arremetem contra a praia, esvaziam a praia antes de chegarem e depois afinal nunca chegam? Que saudades de uma ilusão, seja para fugir dela ou para, simplesmente, a abraçar!

João Prudêncio

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