ENTREVISTA

Adriana Freire: A pandemia veio unir a classe artística

Adriana Freire

Ao leme das áreas da cultura e do património do Algarve desde dezembro de 2018, Adriana Freire Nogueira, 52 anos, atravessou os tempos de pandemia e deles tirou uma lição importante: afinal, a classe artística até é mais unida do que se pensava, sobretudo em tempos difíceis. Numa conversa franca com o JORNAL do ALGARVE, a licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas pela Universidade de Lisboa, nascida em Barrancos, discorre sobre a arte, cultura e património do Algarve e declara, a pés juntos, que cultura e turismo não andam tão de costas voltadas como por vezes se crê

Adriana Freire Nogueira,
Diretora Regional da Cultura

JORNAL do ALGARVE (JA) – Está neste lugar há menos de três anos. Mas o que podemos chamar “normalidade cultural” só existiu em menos de metade desse tempo. Foi frustrante dirigir a cultura numa região nestas circunstâncias?

ADRIANA FREIRE NOGUEIRA (AFN) – É sempre frustrante, não tanto pelo que se pode fazer ou não, mas por ver as dificuldades pelas quais a região está a passar, nomeadamente a nível cultural. Mas não foi frustrante na medida em que continuamos a dar apoio e tentámos que esse apoio fosse adaptado às novas circunstâncias. Na ação cultural damos apoio a que aconteçam atividades pelo Algarve inteiro. O que fizemos foi adaptarmo-nos às circunstâncias, tentámos ajudar como podíamos.

J.A. – Neste período de pandemia qual foi a sua maior alegria?

A.F.N. – Foi ver a solidariedade. Senti muita solidariedade entre os artistas. Muitas vezes comenta-se que a classe artística não é muito unida e a verdade é que a pandemia veio unir a gente da cultura. Juntaram-se para se ajudar.


J.A. – E a maior tristeza?


A.F.N.
– Foram as situações que me chegaram de pobreza e de pessoas a passar mal.


J.A. – Houve de facto situações muito complicadas entre os artistas, aqui no Algarve, todos sabemos. O que foi feito, em termos concretos, para colmatar as consequências económicas e sociais da crise pandémica neste setor?


A.F.N.
– No programa de apoio à ação cultural, criámos uma alínea nova para esta situação segundo a qual os apoios que dávamos podiam ser convertidos parcialmente em pagamento de salários. Houve um aumento da verba de apoio à ação cultural por parte do Governo, de 175 mil euros para cada direção regional, a juntar ao apoio já previsto. Além disso, transmitimos às pessoas a possibilidade de concorrer ao apoio à criação. Normalmente concorriam ao apoio à difusão. E permitimos que a atividade fosse válida mesmo sendo online. Sempre que nos contatavam dizíamos isto. Diziam “Ah não consigo…” e nós respondíamos “mas não consegue criar ou fazer online?”. Dávamos todo esse apoio. E a verdade é que em 2020, de 62 entidades elegíveis para apoio 50 conseguiram fazer! O que para uma situação de pandemia é um valor bastante alto.


J.A. – Esses programas resultaram no terreno? Não foram só uma panaceia?


A.F.N. –
Os programas que tínhamos de apoio continuaram a ter a mesma lógica, mas em vez de as pessoas dizerem ”não consigo fazer, vou cancelar”, nós dizíamos “não cancele, transforme e faça algo online!”. Orientávamos para continuarem a usufruir do nosso apoio. O apoio à atividade cultural também é à ação artística e a pessoa que está a criar precisa de tempo de criação. Os artistas vivem do seu trabalho e criação também é trabalho.


J.A. – Quantas pessoas vivem da arte, cultura e património no Algarve.


A.F.N. –
Não sei ao certo, mas há imensas associações e muitas pessoas. Apoiamos as associações não profissionais, mas os seus associados podem viver da cultura. Mas não sei dizer número.


J.A. – Assim não é mais complicado apoiar as pessoas, se não se sabem quem são e onde estão?


A.F.N. –
Nós não apoiamos pessoas, apoiamos atividades não profissionais. E os que apoiamos são os que não têm apoio da Direção Geral das Artes [DGA], são associações culturais não profissionais que existem. Nós temos ideia dos que concorrem. Tivemos o ano passado 62 projetos elegíveis. Quantas pessoas estão nesses projetos, varia. Há pessoas sozinhas e há grupos grandes. Mas muitas não nos pedem apoios porque as câmaras também dão apoios. Este ano houve mais associações e mais pedidos. Houve algumas que já existiam e nos pediram pela primeira vez e houve associações novas que se criaram.


J.A. – Essas ajudas têm sido suficientes, mesmo fora o período da pandemia?


A.F.N. –
Gostava que fosse mais. Os apoios nunca são suficientes, porque há projetos que com mais dinheiro podiam fazer muito mais. Tivemos, por exemplo, o programa “365 Algarve”, que permitiu um tipo de apoio muito maior. Foi um programa que teve o financiamento da Secretaria de Estado do Turismo. O “365” durou vários anos e tinha um valor acima de 1 milhão de euros. E o nosso orçamento são 160 mil euros! São horizontes completamente diferentes!


J.A. – Porque é que esse programa acabou?


A.F.N. –
Ninguém nos disse que acabou. Não continuou.


J.A. – Não foi substituído pelo Bezaranha?


A.F.N. –
Não foi substituído. O Bezaranha é também de ação cultural em rede, envolvia todos os municípios e dividiu-se o dinheiro desse programa pelos municípios. E cada um desses parceiros tinha esse valor e faz a sua própria programação. O “365” estava mais centralizado, embora tivesse como objetivo levar a cultura às populações do interior e fora da época alta.


J.A. – O Algarve podia atingir um papel de liderança na cultura nacional? Houve projetos de grande dimensão que ficaram pelo caminho, como a construção de estúdios de cinema em Portimão, em Loulé há outro de que nunca mais se ouviu falar. Pensa que podemos atingir um papel cimeiro, tanto no cinema como em outras artes?


A.F.N. –
O Algarve tem potencialidades de atração cultural para além do sol e a praia. Em certas regiões há muitos palácios, muitos castelos e aqui não temos isso, mas temos outras coisas. Temos uma história profunda e milenar, monumento muito importantes, como os megalíticos de Alcalar, em Portimão, as ruínas romanas de Milreu, a Fortaleza de Sagres, os castelos de Silves, Paderne e Castro Marim, Vila Real de Santo António com um núcleo pombalino extraordinário… O Algarve tem muito elemento atrativos em termos culturais. Damo-nos muito bem com o turismo…


J.A. – Mas esse turismo não é um óbice à cultura nesta região (as pessoas vêm fazer praia e noite)? Ou pelo contrário é um dinamizador da cultura?


A.F.N. –
A RTA tem sido nossa parceira, incluindo na formação em património que temos dado, em parceria com eles. Há uma consciencialização de que é preciso diversificar a base económica e não pode ser só sol e praia. A cultura não pode ser vista só como uma área que nos vai trazer dinheiro, porque isso leva à comercialização da cultura. Claro que é importante que as pessoas paguem os seus bilhetes…


J.A. – Eu não falava de dinheiro, falava de frequência, independentemente de as pessoas pagarem ou não…


A.F.N. –
Quem vem de férias já tem muita consciência de que há muita coisa para ver. Notamos isso nos nossos monumentos principalmente nos dias de mais nevoeiro.


J.A. – E para os centros comerciais!


A.F.N. –
Também, mas temos que chegar mais a essas pessoas que vêm para a praia e chegar lá com a informação de que há cultura ali à volta. Uma ligação aos hotéis, que podem explicar o que há. A impressão que eu tenho é que eles já dão essa informação e às vezes é o próprio visitante que não está interessado. Mas 80% dos visitantes dos nossos monumentos são estrangeiros!


J.A. – Há alguma maneira de maximizar este sol fantástico, por exemplo para a produção cinematográfica?


A.F.N. –
Acho que o Algarve tem potencialidades quanto aos locais, os locations. As produtoras que vêm fazer cinema, mas isso é mais por uma questão económica e não cultural. À Direção Regional de Cultura isso é tangente. Não é exterior, porque nós também apoiamos a produção de cinema, desde que envolva artistas ou técnicos algarvios… damos apoio à criação na área do cinema.


J.A. – Como vai a conservação do nosso património cultural?


A.F.N. –
Temos um mapa de risco com muitos monumentos em risco. Estamos sempre a atualizar esse mapa, para mapear a intervenção no património e temos muitas necessidades. Estamos a falar de património que existe em todos monumentos do Algarve e não só dos três monumentos que dependem da Direção Regional [Fortaleza de Sagres, ermida de Nossa Senhora de Guadalupe e ruínas romanas de Mireu]. Damos apoio a todos os monumentos e as necessidades são muitas.


J.A. – Mas tradicionalmente tem havido algum descuido nesta área…


A.F.N. –
O problema é tratar monumentos como deve ser. Eles não podem ser tratados de qualquer maneira e já tem acontecido alguém estar a arranjar um monumento de interesse público e pôr cimento num sítio onde não o podem usar. Isto por exemplo. É preciso tempo, dá trabalho e é preciso usar materiais especiais. Mas há muito património e mantê-lo é muito caro. Há coisas com mais de mil anos…


J.A. – Quando ficam prontas as obras do Promontório de Sagres e das ruínas de Milreu?


A.F.N. –
Estamos a apontar para o final do ano no que respeita a Sagres. Mas há sempre imponderáveis. Mas será no princípio do próximo ano. Em relação a Milreu também está a decorrer. No caso dos mosaicos acabou mais cedo do que prevíamos, que era em outubro. Continuam as obras, mas elas no fundo nunca terminam. Porque um monumento como Milreu, que tem 2000 anos e tem à vista mosaicos que estavam tapados no tempo dos romanos – agora estão abertos à intempérie – precisa de muita manutenção.


J.A. – Quanto ao teatro, tem havido evolução no número e qualidade de companhias, mas também na formação de públicos?


A.F.N. –
Eu acho que o Algarve tem um público para o teatro e para todo o tipo de teatro. Há companhias de grande qualidade na região, que fazem um trabalho de qualidade. Mas há sempre espaço para mais.


J.A. – Mas só há uma companhia verdadeiramente profissional, a ACTA…


A.F.N. –
E temos o LAMA [Laboratório de Artes e Média do Algarve], que também é uma companhia profissional. E também a Casa Branca, que tem apoio da Direção Geral das Artes.


J.A. – Falando de Faro Capital Europeia da Cultura, a capital de distrito tem hipóteses perante tanta concorrência? Pugna pela vitória de Faro?


A.F.N. –
Claro que tem hipóteses. Mas eu não posso pugnar porque tenho que ser equidistante em relação ao país todo. Mas com toda a distância a que sou obrigada, o meu coração quer que Faro ganhe. E é uma candidatura que envolve toda a região.


J.A. – A pandemia fez crescer o número de utilizadores das bibliotecas, mesmo estando elas boa parte deste tempo fechadas?


A.F.N. –
As bibliotecas adaptaram-se à situação, permitindo que as pessoas fossem devolver o livro ao postigo. O que quer dizer que os leitores continuaram a precisar do livro. E as pessoas aderiram a essas novas formas de serviço. Houve mais entregas ao domicílio, embora não seja líquido que tenha havido aumento da procura geral de bibliotecas, porque grande parte do tempo elas estiveram fechadas, ou pelo menos não podiam ser frequentadas localmente.


J.A. – Já ouvi membros do Governo a falarem de 2% para a cultura, embora ainda nem se chegue a 1%. Algum dia lá chegaremos, a 1% ou a 2% do Orçamento de Estado para as atividades culturais?


A.F.N. –
Claro que é viável, é a minha opinião pessoal. Aspiro a isso!

João Prudêncio

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