REPORTAGEM

Era o nosso jornal que o ligava ao mundo

Jornal do Algarve

Aos 76 anos, o antigo soldado pega numa das últimas edições do JORNAL do ALGARVE, com a mesma curiosidade que tinha aos 20, quando folheou o n.º 517 que lhe chegou da metrópole, em 1967. Foi este jornal, que durante dois anos e dois meses a fio carinhosamente lhe foi endereçado por sua mãe, que o ligou ao mundo, por entre tiros e fogo posto. Aqui lhe contamos a história de Mário Prudêncio Alves, o homem que, na juventude, descansava da guerra e do ódio e encontrava a paz no papel macio do JA

Exemplar que apresenta na foto, em 1967

Quando segurou o JORNAL do ALGARVE para a fotografia, já lá vai mais de meio século, estava “num sítio no meio do nada, onde os comandantes quiseram que houvesse uma força” e, ele e outros, abriram uma estrada com 50 km. Num lugar com um nome impronunciável, Mário Prudêncio Alves escancarava para a posteridade um momento de intervalo nos tiros e na abertura da estrada, a trator e catanada. Nem tem a certeza da data certa do retrato, Mário recebia o jornal com algum atraso sobre a data de saída. Mas, com lupa ou zoom digital, é possível divisar a data de saída do periódico fundado uma década antes por José Barão, e então dirigido interinamente por José Manuel Pereira: 18 de fevereiro de 1967.


Em África, entre mosquitos e balas, um português do Algarve recebia em Moçambique um pouco mais do elo de ligação ao mundo do que as singelas e lacrimosas cartas da namorada e da mãe, Maria da Conceição Prudêncio, assinante de anos do jornal publicado em Vila Real de Santo António.


“A minha mãe mandava sempre o jornal, todo o período em que lá estive era o único jornal que recebia. Não havia mais notícias nenhumas senão as do jornal e as cartas da minha mãe e da namorada. O JORNAL do ALGARVE tinha notícias que me interessavam, por exemplo as da pesca da sardinha.

Não havia mais nenhum jornal que recebêssemos, lá não havia mais nada, só o correio que a minha mãe mandava e eu recebia de dois em dois meses. Mandava sempre o último exemplar do jornal”, narra Mário Prudêncio Alves, hoje com 76 anos, a partir da mesma casa de Armação de Pêra de onde abalou a 11 de janeiro de 1966 para embarcar em Lisboa no dia seguinte e chegar à moçambicana Nacala (Nampula) a 28 de janeiro. Voltaria a 14 de março de 1968, precisamente dois anos, dois meses e dois dias depois da partida.

Mário Alves, atualmente e em 1967 em África

Viu o colega morrer ao seu lado


Aos 20 anos de idade, poucos dias depois, meteram-lhe um fuzil numa mão e um cantil na outra: “Começámos logo a guerra. Chegámos ainda em janeiro e no outro dia já estávamos a caminhar pelo mato afora. A guerra estava no máximo da força em Moçambique nessa altura, as primeiras minas tinham começado em 1964. A primeira mina, na província de Niassa foi nesse ano à porta de uma igreja”, historiza o ex-combatente 55 anos depois.


Naqueles 800 dias de guerra e suor de 1966 a 1968 poucas vezes sentiu medo. “Não pensava no medo. Era jovem, tinha 20 anos, meteram-me uma espingarda às costas e diziam para eu ir atrás dos outros e eu ia. Não tinha medo!”, reforça agora, a mil anos do desconforto de então, no sofá da sua casa armacenense da Rua das Redes para onde regressaria já na reforma, depois de África, Lisboa e muitos outros lugares aonde o levaram os seus afazeres de embarcadiço da marinha mercante.


Em África, não chegou a ter tempo para medos sequer quando um par de granadas lhe mataram o colega de armas que seguia imediatamente atrás na fila indiana. “Ele vinha a dois passos de mim, apanhou com um chumbo na cabeça e nunca mais falou. Só o vi a tombar e a espumar pela boca. Foi no dia 11 de junho de 1966”. Do incidente com o colega que morreu, Mário Prudêncio Alves ficaria ainda com uma recordação em carne viva, dolorosamente conservada até hoje: “Aqui no tronco, debaixo do braço esquerdo, ainda tenho um estilhaço. Levei uns pontos na cabeça. Foram duas granadas, ligadas a um arame, a pessoa que ia à frente tropeçou no arame e as cavilhas saltaram. Eles sabiam que íamos passar por lá”.


Não tem a certeza de ter matado alguém nas muitas razias que fez naqueles dois anos bem contados, muitas emboscadas eram de noite, o inimigo fugia. “Tenho uma história de uns colegas meus que estavam a guardar uma povoação (um cabo e dois soldados), cercados por cerca de 50 ‘turras’ e dispararam e no outro dia encontraram sangue e armamento espalhado, algum foi ferido e retirado por outros”.

A ordem era lançar fogo às palhotas


O que mais lhe custava era assaltar acampamentos dos chamados terroristas (só mais tarde soube que eram guerrilheiros da FRELIMO – Frente de Libertação de Moçambique), onde bastas vezes encontravam mulheres e crianças – às vezes levavam-nos para terra dominada por brancos – mas sempre com ordens para a terra queimada: “O destino dessas missões era assaltar os acampamentos terroristas. Esperávamos o pleno dia, mas ainda de noite eles sentiam-nos e fugiam e nós dávamos tiros na escuridão. Deitávamos fogo às palhotas, destruição completa de todos os acampamentos, isso era sagrado”.


Mas Mário Prudêncio Alves também guarda recordações gratas, até engraçadas, como aquela que ocorreu com um amigo de coração “daqueles com quem a gente partilha até o último cigarro”: “Ele apanhou 30 dias de prisão e cumpriu esse tempo lá numa instalação da Marinha de Guerra. Um dia calhou-me tratar dele, levá-lo a tomar banho, dar-lhe refeições. Eu fui com ele, armado, para ele tomar banho num lago. Ele tomou banho e depois, com o calor intenso que estava, eu não aguentei e disse ‘Oh Chico, fica lá aqui com a minha arma, faz de conta que o prisioneiro sou eu, que eu vou tomar banho também’. E ele assim fez. Se alguém nos visse ao longe, teria de haver sempre alguém com a arma e o outro a tomar banho, nunca conseguiriam ver quem era quem. Quando a malta soube disto, foi um pagode!”.


Hoje, mais de meio século depois, o ex-combatente reconhece que nada ganhou com a guerra a não ser o pré de soldado, pouco mais de 100 escudos (50 cêntimos na moeda corrente) por mês. Mas ainda sente algum orgulho patriota naqueles dias de ferro e fogo: “Servi a bandeira nacional. Um militar que é mandado para qualquer sítio tem a sua obrigação de não desertar, ou é refratário, e eu nunca desertei”, conclui, com a mais recente edição do JA nas mãos, chegada de um mundo colorido, 54 anos e oito meses depois daquela foto a preto-e-branco, dos tempos de um país cinzento.

João Prudêncio

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