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Lídia Jorge: “as personagens são o esteio fundamental da minha obra”

SCS/JA

A escritora algarvia Lídia Jorge, 30 anos de carreira, recebeu ontem o doutoramento honoris causa da Universidade do Algarve

Ouvir Lídia Jorge a falar do Dia dos Prodígios, o seu primeiro romance, parece quase como se tivesse sido escrito ontem.

Trinta anos, muitos livros e outros tantos prémios depois, Lídia, nascida no meio das searas em Boliqueime, no Algarve rural, ainda hoje recorda essa como a obra mais complicada de lhe sair da pena.

“O mais difícil talvez tenha sido o primeiro livro, não sabia o que ia acontecer, não tinha um horizonte de publicação e tudo era uma incógnita. No entanto, quando penso na escrita, lembro-me que o fazia com uma sensação de triunfo”, adianta, em entrevista ao Expresso.

Estórias de neve e de Alice, no país das maravilhas

Ao receber o doutoramento honoris causa pela Universidade do Algarve pela sua prestação como escritora, Lídia Jorge recordou os tempos de infância e o papel de uma família, que embora sendo do campo, cedo a pôs em contacto com alguns livros.

“Recordo-me que a minha mãe, sempre que ia a Faro, me trazia um livro e eu ficava à espera, para descobrir qual seria a capa e qual seria a estória”, lembra.

Uma dessas vezes ficou-lhe especialmente gravada na memória: corria o ano de 1954 e um mês frio de Fevereiro e, coisa raramente vista, o Algarve ficou pintado de branco com um forte nevão, precisamente no dia em que a mãe e uma tia se tinham deslocado a Faro, para tratar de documentação.

Ficaram presas pela neve, e Lídia teve de esperar que os flocos brancos que despencavam dos céus se acalmassem para poder ver de novo a mãe e a tia, Alice, e o habitual livro de que a futura escritora já se esquecera. Era outra Alice, a do livro de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas, que vinha dentro do saco, obra que Lídia Jorge admite que a acompanharia vida fora, “como um símbolo”.

Novo livro a caminho

Cheia de personagens, tal como a obra de Lídia, que admite serem elas a ‘vida’ das suas estórias, elas e o espaço, o espaço em que vivem e que se torna ele próprio às vezes numa outra personagem.

“As personagens são o esteio fundamental da minha obra. A criação de personagens que eu sinto como muito próximo de pessoas, de figuras. Em geral eu invento e elas depois coincidem com figuras quase reais, ao contrário de outros escritores que partem de figuras reais para imaginárias”, admite. “Por outro lado, apoio-me bastante naquilo que é o espaço físico, às vezes até demais segundo alguns dos meus leitores, mas o espaço surge-me como uma espécie de alma. Não animizo, como as crianças, mas preciso dele como se fosse de facto uma personagem e fizesse uma espécie de cama onde as figuras se deitam”, conclui.

Questionada sobre novos projetos, Lídia Jorge desvenda que tem um novo livro pronto a sair, que será editado em Março de 2011, mas não quis ainda descortinar o véu sobre a nova obra.

Mário Lino/ Rede Expresso

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