OPINIÃO

Nomes, números e sensibilidade à dor alheia

OPINIÃO | JOÃO PRUDÊNCIO
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No passado fim-de-semana, o The New York Times publicou uma inusitada primeira página, despida de fotos ou ilustrações. Toda ela consistia, exclusivamente, numa lista de mil norte-americanos mortos pela pandemia, pequena parcela dos quase 97 mil que os EUA tinham já na altura. A exposição desta minúscula fatia de toda a destruição de vidas humanas que o coronavírus tem provocado pretendia ser uma homenagem aos cidadãos que pereceram, vincada pelo peso acumulado do conjunto de palavras que formam mil nomes e respetivas idades. A intenção era que o leitor comum sentisse a enormidade da tragédia que se abateu sobre o seu país e o mundo. Afinal, aqueles mil seres humanos, menos do que os que morrem num qualquer dia comum nos EUA, representavam já uma gota num oceano de 350 mil mortos vítimas da pandemia no planeta. Trezentas e cinquenta mil capas de jornal repletas de nomes de gente.


A publicação vai ao arrepio da desvalorização que parece imperar nos telejornais, que diariamente arremessam catadupas de números de vítimas. Mesmo em Portugal, onde o achatamento da curva se consolidou e o número de falecimentos não excede, há algumas semanas, as duas dezenas, a enunciação fria do número esconde o drama pessoal da própria vítima e das famílias que a choram. Nos cemitérios de alguns países do mundo, quando as câmaras se aproximam dos que choram a perda de um ente querido, e se lhes divisam as lágrimas, e se ouvem as vozes trémulas, sobrevém só então o terrível drama da morte, quotidianamente disfarçado pela frieza dos números gritados pelos pivôs de telejornal.


Os números tornam-nos frios e distantes e a sua repetição durante dias, semanas, meses consecutivos tem em nós um efeito anestesiante. Estamos a ficar frios e alheios ao sofrimento particular de milhares de seres humanos. Habituámo-nos à dor alheia por trás dos algarismos.


Mas há um país em que esta alienação coletiva e frieza social atinge o âmago da sociedade até a limites insuportáveis e o próprio núcleo do poder.


No passado dia 22 de abril, houve um Conselho de Ministros no Palácio do Planalto, Brasília, cuja gravação integral – por razões judiciais – veio a público no final da passada semana. Foram praticamente duas horas de reunião, em que se falaram das mais variadas matérias, desde os ataques à família Bolsonaro ao uso de armas pela população, numa reunião perpassada por teorias conspiratórias e autoelogios em barda.


À parte dois raspões no assunto, um de três minutos, do próprio presidente, que atacou os perfeitos e governadores que exigem confinamento e outro que consistiu numa ameaça de prisão para esses responsáveis, perpetrada pela inefável Damares, ministra dos Direitos Humanos, o tema pandemia não foi tocado naquela reunião. Nem sob o ponto de vista epidemiológico, nem de saúde pública, nem sequer da crise económica adveniente. Nada! Duas horas de reunião e não se falou de covid-19. E não se pense que ainda não havia assunto: até ao dia anterior, 21 de abril, já tinham morrido no Brasil 2.741 pessoas infetadas. Para o Governo Bolsonaro, essas pessoas não existiram!


Isto diz bem da importância que o poder de Brasília reserva à pandemia e ao sofrimento que provoca. O célebre “e daí?”, seguido da pergunta retórica “quer que faça o quê?”, vociferados pelo Presidente quando questionado, a 28 de abril, acerca de um súbito crescimento diário do número de mortos (seguido de um “sou Messias mas não faço milagre”), permite aquilatar bem da qualidade do poder presidencial brasileiro e da sensibilidade que detém para com as vítimas e suas famílias. Uma semana antes, já o Presidente tinha respondido “Não sou coveiro” a uma questão similar. Respostas que ficarão para sempre nos anais da ignomínia, da vergonha e da mediocridade presidencial por que passa o Brasil nos dias de hoje.


A desvalorização da epidemia e do sofrimento que causa contou ainda com outras frases infelizes e nuas de sensibilidade e humanidade, como “não é uma gripezinha que me vai derrubar” e “pelo meu histórico de atleta não tenho que me preocupar ”.


Mas é uma vez mais a insensibilidade perante o sofrimento alheio que sobrevém quando o Presidente evoca razões eleitorais, relativas às presidenciais de 2022, na imposição de isolamento social decretado pelos governadores do Rio e São Paulo. E manda os cidadãos desrespeitarem tais ordens em nome da economia.


Isto para não falar da invenção da cloroquina como remédio milagroso, ou da descoberta do isolamento vertical (isolamento restringido apenas aos grupos de risco, nomeadamente idosos e pessoas sofrendo de outras patologias) em vez do isolamento social generalizado recomendado pela OMS. As tiradas presidenciais ressoarão para sempre na cabeça de milhões de brasileiros conscientes.


Mas o pior são os milhões que ainda acreditam no Presidente que ajudaram a eleger e lhe confiam a vida. Muitos nem acreditam que o Brasil vai a caminho dos 30 mil óbitos e já se tornou o segundo país do mundo com mais casos, a seguir aos EUA. É tal a paranoia que dizem que esses números (que chegam do Ministério da Saúde do Governo Bolsonaro) são… uma fantasia da esquerda.


Até onde podem chegar a doença social e a disfunção cognitiva num país!

João Prudêncio

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