CULTURA

Remate certeiro: Os nadadores salvadores e o salva-vidas Patrão Rabumba, com um herói vilarealense

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Vem de muito longe esta epopeia humanitária que inspirou a criação do Instituto de Socorro a Náufragos, cujo poiso dos barcos, por exemplo em Vila Real de Santo António, se localizava num grande armazém beijando a praia da vila…


E por aí ficavam, os marinheiros, a tripulação, aguardando o sinal de saída, quando havia barcos, boias e marinheiros/banheiros, cujo edifício tinha no frontal as iniciais de ISN, em letras mais ou menos gigantonas…


Em VRSA, o ISN era logo a seguir ao Estaleiro do Senhor António Pena, na chamada praia da «Vila», mais concretamente entre o estaleiro e a venda do Charro, esta sentada quase ao colo do que restava dos pedrulhos ilustres e históricos, de Santo António da Arnilha.


Era de cima desses rochedos, que o meu parente Patico, palangreiro experiente, se assomava, fazendo do rochedo uma espécie de gávea alta, qual Vasco da Gama, para ver e sentir, não o Adamastor, mas se o Guadiana ia liso, ou ondulado, como as permanentes, que se faziam no Salão do Senhor Guerreiro, ali nos baixos da Pensão Félix, e bem encostado, para não cair, ao café Monumental, na Praça Marquês de Pombal.


Primo Patico, parecia um indicador para a saída ou não dos marinheiros, nas chalupas, salva-vidas, empurradas por braços fortes, a remo, quando o diesel se escondia atrás do fumo e ficava sem ruído…


Diz a história que foi , por insistência de Sua Majestade a Rainha D. Amélia, que foi criado por Carta de Lei de 21 de Abril de 1892, o Real Instituto de Socorros a Náufragos, passando a designar-se por Instituto de Socorros a Náufragos (ISN) após a implantação da República.

Em fevereiro de 1892 um violento temporal assolou a costa portuguesa, tirando a vida a 105 dos cerca de 900 pescadores que estavam em faina.


Perante tal tragédia, e por insistência de S. Majestade a Rainha D. Amélia, foi criado por Carta de Lei de 21 de Abril de 1892, o Real Instituto de Socorros a Náufragos, mantendo-se como presidente a sua fundadora Sua Majestade a Rainha Dona Amélia, até à implantação da República em 5 de Outubro de 1910, passando a designar-se por Instituto de Socorros a Náufragos (ISN).

O ISN começou como uma organização privada, sob a égide da Marinha de Guerra, formada por voluntários.


Por dificuldades de fundos e de pessoal para as suas embarcações salva-vidas passou o ISN a partir de 1 de Janeiro de 1958 a ser um organismo de Estado na dependência da Marinha.


Em Portugal, a prática da natação apareceu a partir de pequenos torneios de verão nas praias mais frequentadas do país. Em 1902, o Ginásio Clube Português fundou na Trafaria uma escola de natação e quatro anos mais tarde, realizou-se a primeira corrida de natação, da meia milha, na baía do Alfeite, para disputar a taça D. Carlos.


É pois, natural que o primeiro registo de apoio a banhistas apareça no relatório da comissão central de 1909 e referido à praia da Trafaria, onde parece ter nascido a modalidade da natação no nosso país. Nele se diz que, para evitar acidentes marítimos, se vai montar um sistema de vigilância com uma embarcação que percorrerá a praia durante os banhos. Os primeiros sistemas foram montados nas praias da Trafaria e da Albufeira.


Em 1910, foram implantados 120 postos de praia que dispunham de duas boias grandes, duas boias pequenas com uma retenida de 25 metros, dois cintos de salvação, uma retenida de 100 metros e, finalmente, um quadro explicativo dos primeiros socorros a prestar aos náufragos.


Em 1956 realiza-se pela primeira vez um curso de nadadores-salvadores com uma frequência de 90 alunos.


A partir de 1956, os cursos de nadadores-salvadores tiveram um incremento relevante, em consequência da enorme visibilidade associada ao aumento significativo do número de banhistas.


A partir de 2004 o enquadramento legislativo da assistência a banhistas recebeu relevantes desenvolvimentos quer no âmbito da certificação dos Cursos de Nadador Salvador, quer de cursos adicionais na condução de embarcações e motas de água em ambiente de assistência a banhistas. Esta situação incrementou substancialmente as responsabilidades do ISN, exigindo a revisão do seu regulamento interno otimizando-o para a resposta a duas áreas fundamentais:

– A Assistência a Banhistas (associado aos Nadadores Salvadores);

– O Salvamento Marítimo (associado aos Tripulantes de Salva-Vidas)


Até se dizia, em meados de década de 50 – vamos lá acreditar que é verdade – que não se deveria confiar nos cabos do mar, pois alguns nem sabiam nadar.


Quem sabe, e para isso volto aos salpicos da memória, e deve ser desse tempo, que um dia um parente, do meu parente Carrão, que teria o apelido de Casimiro, foi para o Alfeite, para ingressar nas fileiras da marinha.


Aí chegado, um velho Sargento, bigode farto, mais para lá, do que para cá, pois logo pela manhã, para pensar que se baloiçava com o ondular do barco, mesmo em terra, mamava ao madrugar umas aguardentes, parecendo até que a sua cara tinha sido pintado com zarcão, que olhando ao Casimiro, como quem o examina perguntou-lhe:


– Então oh marujo, tu sabes nadar?


Sem pestanejar, Casimiro, respondeu:


– Então os senhores, aqui na marinha, não têm barcos?


Claro, que a gargalhada foi geral, e quando se pensava que o Casimiro viesse a nado para Vila Real de Santo António, o parente do meu parente Carrão, acabou por fazer carreira na Marinha.


Dizem que até esteve na India, no «Afonso de Albuquerque», que em plena ocupação de Goa, Damão e Diu, acabou por ser afundado, por ordens do senhor Nerú.


Acabou a sua carreira de marinheiro, a bordo da «Bicuda», lancha de fiscalização, e uma espécie de irmã gémea da também abatida «Azevia». Portanto, barcos, que fiscalizavam a nossa costa.


Creio que o Casimiro, foi um dos primeiros banheiros, isto apesar da desarrumação dos meus papéis, e que até chegou a ganhar o concurso do «pau de sebo», que se restaurava em cada Setembro durante a Procissão em Honra de Nossa Senhora de Encarnação, a Padroeira da «Vila»…


Por todo o país, a origem dos banheiros, agora nadadores salvadores, vinha de gente do mar, ou da Marinha, pescadores, que tinham provas, algumas de poucos minutos, com dois ou três mergulhos, por parte dos observadores.

Tens muito «folgo», folego debaixo de água? – Então passa lá por baixo do barco…Ou então… – dá ai uma grande ressolho, como se dizia na «Vila»… e pronto lá estava preparado para o que desse e viesse e tudo corria pelo melhor.


Aliás, o Socorro a Náufragos, também estava operacional para o socorro aos barcos de pescas, botes dos palangreiros, enviadas, traineiras. Enfim, qualquer embarcação em perigo lá iam eles a correr arás de outros perigos.

António Salas, já sonhando com o mar


Já por aqui, por estas colunas, há vários meses, fizemos deslizar uma história relacionada com o Salva-vidas, Patrão Rabumba, que tinha como marinheiro, o António Salas, um vilarealense que se tornou herói e foi reconhecido pelos governantes. Hoje, creio, que estará à beira dos 80 anos.


Por essa altura, e quando o Rabumba, levou a Vila inteira – ninguém ficou em casa – para todos os lugares da margem do guadiana, da Ponta da Areia ao Cais da Muralha, procurando descobrir, quando o salva-vidas ao menos mostrasse a cabeça à entrada da barra, a Assembleia Nacional ancorada no mar calmo de S. Bento, estávamos então em 19 de Março de 1963, fazia-se, entre muitos outros, este eco ruidoso:


O que não há muito se passou com a corajosa, valente e destemida tripulação do salva-vidas Patrão Rabumba diz bem do perigo em que vivem presentemente os homens do mar de Vila Real de Santo António. Na sua nobre missão, aquele salva-vidas saíra a perigosa barra para verdadeiramente arrancar das garras da morte as tripulações de dois barcos da pesca costeira, e, depois de os haver salvo, e já todos a bordo do salva-vidas, se iam perdendo e até o próprio barco. É que o estado da barra, pelo seu grande assoreamento, não os deixava entrar no porto. Tentaram-no, em vão, por duas vezes, e, na impossibilidade de se salvarem por ela e pela de Olhão, foram entrar, após 30 longas horas de luta com o mar, no porto de Portimão, quase no extremo oposto da costa algarvia.
Não é justo nem humano que se obriguem a tais perigos homens da têmpera destes doze náufragos, que, ao chegarem a terra, em resposta «nos jornalistas, que lhes perguntavam se haviam tido muito medo, disseram que «a altura das ondas e os corpos molhados não lhes tinham dado tempo para se lembrarem do medo, papão por eles ignorado»


Hoje é tudo diferente e muita coisa mudou num instante, e ao olharmos para os actuais nadadores salvadores, sentimo-nos confiantes. São educados, estão presentes, disciplinados, porque não se trata de uma missão fácil, que a pandemia pode ter aberto brechas, mas eles, os que eu conheço, na praia que frequento, têm sido até confidentes, solidários, disponíveis, próximos…

Nadadores Salvadores, num trabalho muito especial


Por exemplo há três anos, um dos nadadores-salvadores, levava consigo uma bola de rugby, e juntava seis ou sete banhistas e faziam uma roda…e o mar que se acalmasse, os banhistas que esperassem…Mas por essa altura, também conheci uma nadadora-matadora. Coisas da vida…


O mar é algo que amamos, capaz de nos trair, de nos deixar loucos de paixão. O seu sorriso é aberto, a sua voz rouca, o seu ruido musicado, e quando descansa na praia, nem nos apercebemos que num repente pode acordar zangado. Escute o conselho dos nadadores-salvadores, porque cada um de nós fas parte das suas vidas. Olhemos ao mar com um sorriso…
Permita-me que deixe aqui uma frase, que roubei do facebook, a uma familiar do António Salas, de seu nome, Sala Nela, que diz, numa foto que anexamos: «Este é o homem que esteve desaparecido envolvido num temporal durante 48 horas ..todos os julgavam mortos..mas resultaram vivos resgatando os náufragos…

Neto Gomes

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