REPORTAGEM

Algarve é uma das regiões do País mais bem preparadas para reagir a sismos

Lagos

A região algarvia é uma das zonas do País mais bem preparadas para reagir e responder a um sismo, segundo conta ao JA o engenheiro civil João Estevão. No entanto, o também docente da Universidade do Algarve alerta para a falta de um sistema de evacuação das praias, nomeadamente das ilhas da Ria Formosa

O sismo e tsunami de 1755, apesar de longínquo temporalmente, é do conhecimento geral. Com uma grande magnitude, causou danos desde o Algarve à zona de Leiria, deixando um rasto de destruição que terminou com um tsunami. Mas poderá o Algarve voltar a sofrer um grande sismo desta magnitude, seguido de um tsunami? Segundo João Estevão, especialista em engenharia sísmica, este tipo de catástrofes são “um fenómeno recorrente, mas bastante intervalado”.

João Estevão, engenheiro civil, docente da UAlg e especialista em engenharia sísmica

“Só conseguimos prevenir os efeitos, não se consegue prever quando vai acontecer. Os sismos ocorrem quando a natureza quiser. A probabilidade de ocorrer como em 1755 é muito baixa, no entanto pode acontecer. Não temos um relógio que diga que chegou a hora”, acrescenta.

O especialista refere ainda ao JA que apenas “podemos perceber se é provável ou não provável, mas o quando e onde é muito relativo”.

Relativamente a um sismo de grande magnitude, seguido de tsunami, como aconteceu em 1755, João Estevão explica que segundo os registos que existem, “esse tipo de fenómenos podem acontecer de mil em mil anos” apesar da probabilidade continuar a ser “muito baixa”, mas não impossível, uma vez que “já aconteceu no passado, com sequências mais próximas”.

Para o docente da UAlg, o Algarve “é das zonas mais preparadas do País”, uma vez que “existem planos, têm sido feitos simulacros baseados em modelos matemáticos e existe a previsão de danos e mortes, que podem estar longe da realidade, mas dão uma estimativa que permite preparar a Proteção Civil”.


“Estamos muito melhor preparados do que no passado, mas só o futuro é que irá dizer. A realidade é sempre muito diferente da previsão. Vai depender se o sismo for localizado ou não, porque assim é fácil ir buscar ajuda próxima. Se for como em 1755 é muito complicado de perceber. A área atingida é muito grande e a maior parte dos meios de intervenção vão estar inoperacionais. Nem a Espanha poderíamos pedir ajuda porque estariam da mesma forma”, explica.


No entanto, apesar do Algarve ser uma das regiões mais preparadas, João Estevão defende, por outro lado que “não estamos preparados de maneira nenhuma” para um grande sismo ou tsunami.

“Num sismo desses, as pessoas não sabem como reagir. Se for muito afastado, a onda pode chegar sem ninguém perceber”, refere.

Região com dois enxames de sismos


A zona da Ferradura e do Canhão de São Vicente, a sudoeste do Algarve, “são dois grandes enxames de sismos muito bem identificados” onde os terramotos são mais frequentes.


Nesta zona já foram registados sismos de nível 6, de acordo com as estações do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), que tem uma rede distribuída por todo o Algarve.

Segundo João Estevão, foi divulgado um novo estudo que defende “a junção destes dois enxames como a origem do sismo de 1755”, apesar de “não estar comprovado”.


Já no interior algarvio, na zona de Monchique, existe outro enxame. No entanto, segundo os registos, os sismos que ali têm ocorrido “são de pequena magnitude”, tendo o maior sido de nível 4, em 2011.

Ao longo dos anos “tem havido vários projetos de investigação sobre o risco de sismo no Algarve” e em breve “irão surgir novas propostas”, devido à evolução dos meios informáticos, dos modelos matemáticos e das bases de dados mais completas.

“Há 20 anos atrás, quando comecei a estudar os sismos, a base de dados era muito incompleta. Os sismos já foram entretanto reposicionados”, refere o especialista ao JA.

As sirenes de alerta de tsunami em Portimão poderão não ser suficientes

Não há sistema de evacuação de praias


João Estevão refere que o Algarve não tem um sistema de evacuação de praias, apesar de em Portimão, por exemplo, existirem sirenes de alerta de tsunami.


“Em Portimão o que acontece é que o IMPA deteta o registo do sismo, emite o alerta que é transmitido por mensagem de telemóvel e as sirenes disparam”, explica.

Segundo o docente da UAlg, a população “ganharia 15 minutos” para se proteger, mas “falta definir percursos de evacuação, para se saber para onde ir”.

“O problema é que quando se avista o tsunami, se calhar pode ser tarde demais. Nunca teremos muito tempo. O Algarve terá sempre dificuldade, principalmente no barlavento, que terá pouquíssimos minutos para evacuar”, salienta.

No entanto, João Estevão considera que a Proteção Civil Municipal de vários concelhos algarvios já está alertada e preparada para estes fenómenos, mas que é necessário “passar para a prática” através de simulações de movimentos de grandes massas de pessoas.

Em caso de tsunami, a Ria Formosa pode ajudar. João Estevão explicou ao JA que todas as ilhas podem “servir como uma proteção”, no caso de a maré estar vazia no momento do fenómeno, cujas ondas podem atingir velocidades entre os 800 e os 900 quilómetros por hora em alto mar.

Já para proteger as pessoas que vivem nas ilhas, o professor sugere a colocação de plataformas e grandes bunkers em locais elevados: “Do ponto de vista estético seria difícil, há muitos obstáculos e temos de viver com o risco, dentro das dificuldades”.

Algarve está “estável” e aprendeu com sismo de 1755


A atividade sísmica no Algarve “tem estado estável e relativamente moderada” nos últimos anos, segundo disse ao JA João Estevão.


Apesar de há poucas semanas ter sido registado um sismo de 3,6 em Portimão, um fenómeno desta pequena magnitude “não provoca dano”, ao contrário de terramotos a partir do nível 5.

Com o terramoto e o tsunami de 1755, a ciência e o estudo destes fenómenos desenvolveu-se em Portugal. Um dos pioneiros foi Marquês de Pombal, que reconstruiu Lisboa, tratou dos feridos, enterrou os falecidos e construiu de raiz Vila Real de Santo António.

Essa reconstrução da capital portuguesa e a construção de uma nova cidade virada para Espanha já inclui algumas técnicas antissísmicas como a “gaiola”, que consistia no uso de tábua em forma de “x” nas paredes.


“Fomos pioneiros. Com os estudos feitos na altura, mudou-se a mentalidade. O Marquês de Pombal fez muita força para que fosse atribuída uma causa natural e não divina, porque os povos da antiguidade encaravam este tipo de fenómenos como algo divino. Ou seja, não havia uma tendência de construir para resistir, mas sim a construção de um templo para apaziguar o deus”, salienta João Estevão.

Segundo os registos revelados por João Estevão ao JA, não se sabe qual terá sido o nível exato da magnitude deste sismo, mas terá sido “claramente acima de 8,5”, cujo efeito no mar chegou a atirar peixes para dentro da Fortaleza de Sagres.


A partir daí, existe um registo histórico com “relatos detalhados, levantamentos de danos”, que permitem ter “uma ideia mais clara dos efeitos do sismo”.

Há também relatos de outros sismos mais localizados como na zona de Tavira, em 1752 e em Portimão no ano de 1719, com magnitudes pequenas, mas por vezes essas informações não são muito fidedignas. Em relação ao sismo de Tavira, há registos de um “pequeno tsunami” que afetou apenas aquela zona, mas cuja veracidade é “pouco consensual”.

“Não se sabe ao certo. As pessoas ficavam apavoradas e fica-se com uma ideia de que aconteceu algo mais nefasto do que aquilo que realmente aconteceu. Outras vezes acontecia o contrário, para não causar o pânico e para não existirem aproveitamentos em termos militares, evitava-se a partilha de informações”, explica.

Em termos históricos, João Estevão conta que “os grandes sismos devem ter ocorrido no mar ao longo dos últimos sete mil anos”, pois estão identificados vários depósitos de materiais “que indicam que terá sido resultado de um tsunami”.

O especialista recorda ainda o terramoto de 1969, que afetou maioritariamente a zona de Albufeira.

No entanto, fica o alerta: a zona do Algarve que tem de ter mais atenção em relação a sismos e tsunamis é o barlavento “devido às vibrações”.


“Depois vai atenuando até à fronteira”, explica.

Onda gigante em 1999 teria sido fatal


Corria o verão de 1999 quando um boato acerca de uma onda gigante que iria em direção ao Algarve se estava a aproximar. Em todas as praias, o pânico foi instalado, com as forças de segurança a mandar evacuar os areais. Não passou de um falso alarme, mas segundo o engenheiro, “se fosse a sério, teriam morrido milhares de pessoas”.


“As pessoas não sabiam que um sismo provocava um tsunami. Só com a tragédia de 2004 é que ficaram a conhecer, pela televisão. As pessoas agora têm mais consciência do fenómeno e estamos mais preparados em termos de organização”, explica.

Se a onda gigante fosse real e fosse vista daquela forma, “seria tarde demais para maior parte das praias”.

“Na ilha de Faro, o trânsito ficou todo engarrafado. E se fosse real ou se um dia acontecer, a única zona mais alta que permite fugir ao tsunami é apenas no aeroporto, vedado por arames farpados. Para encontrar a primeira árvore tem de se correr dois quilómetros”, conta.

Regulamentos de construção vão mudar


Apesar de em Portugal já existirem regulamentos de construção antissísmica “há muito tempo”, foi aprovado outro em 2019, com um período de transição de três anos, que termina em 2022.


O novo regulamento “é bastante mais exigente e avançado do ponto de vista do conhecimento do comportamento das construções”, refere João Estevão ao JA.


Comparando a resistência de um edifício com um carro, João explica ao JA que, há alguns anos, os automóveis eram menos seguros, o que causavam mais mortes na estrada.

“Hoje em dia os carros estão feitos para absorver energia. Qualquer toque, o carro fica deformado e foi adicionada resistência ao habitáculo, cinto de segurança e airbags. Na construção sismorresistente a filosofia é a mesma: não é para salvaguardar o imóvel, mas sim a vida humana.

João Estevão salienta a evolução e melhoria que tem vindo a acontecer nos últimos 20 anos nesta matéria.

Apesar de sublinhar que “nenhum país está preparado para um grande sismo”, as construções de hoje em dia, em caso de terramoto, “vão ter danos significativos”, mas o número de vítimas mortais “será muito inferior”.


“Vão reduzir os números de mortes associados a grandes catástrofes. Mas em termos de impacto económico seria devastador para o País”, acrescenta.

Gonçalo Dourado

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