AVARIAS: Sobre o meu ponto de vista

Fernando Proença

Vai uma excitação total com a questão da Catalunha. Para as televisões a coisa é fácil: primeiro foram os coletes amarelos, depois saiu na rifa Hong Kong, agora é a Catalunha. É sempre a abrir, cada vez mais lenha para a fogueira das notícias que promovem a excitação do povo, agora que o Brexit não anda nem desanda e não dá porrada (pelo menos que se veja), nas manifestações – escrevo durante a tarde de sábado, dezanove de Outubro do ano da Graça de dois mil e dezanove.

Em Barcelona os enviados especiais subiram (ou desceram, depende da perspectiva) um ou dois níveis e agora até usam capacete como se andassem de trotinete. Podiam, digo eu, não usar o dito artefacto em causa, enquanto falam nos directos; mas depois o que iriam dizer deles? Que não estão em perigo de vida? Adiante! Para as nossas televisões, jornalistas e comentadores, hípersatisfeitos por pensarem estar a fazer história (com agá grande) não há diferenças: ouvi-os dizer que as pessoas que em Hong Kong (os coletes amarelos estão agora um pouco esquecidos, mas até ao lavar dos cestos é vindima), procuram o mesmo que os manifestantes (e muitos, apenas arruaceiros profissionais) na Catalunha. Mas não, estão redondamente enganados, digo eu. A contestação na China feita a partir de uma das suas regiões autónomas, faz-se pela manutenção do princípio, um país dois sistemas, sabendo que na antiga possessão britânica se protege muito mais os direitos humanos, coisa que não deve agradar muito aos nossos amigos chineses.

A Espanha, pelo contrário, é um estado de direito e logo aí se estabelecem todas as diferenças entre as duas realidades. Os políticos que foram julgados (e que são o rastilho dos actuais protestos) puseram em causa os princípios do estado e constituição espanhola, além de se ter provado terem usado em “proveito próprio” o dinheiro dos contribuintes. Sei que usar em “proveito próprio”, dinheiro dos contribuintes já começa a parecer tão natural que ninguém se devia importar… Além disso é muito complexa a situação; muitos políticos independentistas são sobejamente conhecidos pelo seu comportamento nacionalista e xenófobo e, segundo parece, o ambiente reinante da região, para quem não alinha pelos padrões da tribo nacionalista é, no mínimo, de uma persuasão musculada. Por isso é muito estranho que a nossa TV ouça, sem nunca pôr em causa, as afirmações de manifestantes que dizem querer a liberdade que o Estado lhes tira. Lembro-vos que se existem graus na autonomia de uma região, Catalunha e País Basco estão no grau nove e meio. Tudo é em catalão ou basco e os parlamentos são autónomos. Penso que a pedra no sapato é que pensam estar a pagar pelas autonomias que têm rendimentos inferiores, o que me parece uma ideia perfeitamente egoísta. Se não me falha a memória uma pequena história ilustra bem como se fazem as coisas lá para os lados de Barcelona: há anos num dos exames para acesso à universidade, um dos alunos tentou usar uma das hipóteses que o Estado lhe dava na altura. Ter o enunciado de prova em espanhol e não em catalão. Pois a pressão foi tanta que o rapaz se resignou a receber o que tinha por direito. Se nesse particular é assim, o que será com tudo o resto? Aparentemente muitos sabem, menos Pacheco Pereira.

Fernando Proença

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