ENTREVISTA

Desemprego no Algarve cai abaixo da média nacional

Madalena

Há quase seis anos à frente dos destinos do emprego e formação profissional da região, Madalena Feu não tem dúvidas de que o Algarve está no bom caminho no que respeita à queda do desemprego. Falta-nos atingir os índices de 2019, ano em que quase se chegou ao “pleno emprego” no distrito, segundo os últimos dados do INE. O número de pessoas sem trabalho caiu para metade entre o fim de abril e o fim de setembro. E a “culpa” não é só da forte sazonalidade, já que em abril começam as contratações de verão e em setembro já há muita gente dispensada. Numa entrevista franca, a delegada do IEFP percorre os rumos do emprego e desemprego regional e mostra-se otimista face à viragem da crise pandémica e à retoma económica

JORNAL do ALGARVE (J.A.) – O Algarve é uma região com situações críticas e radicais, tanto nas descidas do desemprego como nas subidas. Recentemente, após uma enorme subida de desemprego, acentuada durante a pandemia, verificou-se uma drástica queda. Em que se traduziu essa queda do desemprego nesta última época alta?

Madalena Feu (MF) – A queda de desemprego que ocorreu nesta última época alta deveu-se a um aparente controlo da pandemia, uma taxa de vacinação que foi muito eficaz em Portugal e com o afrouxamento das medidas de confinamento. Isso permitiu reativar a atividade económica, que teve uma grande quebra na pandemia. O setor que teve maior quebra foi o Turismo e vivendo nós maioritariamente do Turismo, houve um aumento de desemprego, que se verificou o ano passado e no primeiro trimestre deste ano. O facto de se ter reativado essa atividade levou a que as pessoas começassem de novo a trabalhar, trouxe mais turismo e dinamismo da economia. Temos ainda a sorte de o verão se ter prolongado, temos tido excelente tempo e temos tido eventos como o MotoGP.


J.A. – Como se traduz essa queda face a 2020 e aos números de 2019? Já nivelámos este último ano?
M.F. –
Ainda não atingimos os números de 2019. Tanto mais que o Algarve foi a região do País que mais sofreu com a crise pandémica do ponto de vista da atividade económica. Proporcionalmente foi a região em que mais aumentou o desemprego devido à pandemia, acima de 200% em 2020!


J.A. – Isso significa quantas pessoas?
M.F. –
O número máximo de desemprego registado foi em fevereiro deste ano, com 33.459 desempregados. Relativamente ao mesmo mês de 2020, tivemos um crescimento de 74,4%. Note-se que em 2020 ainda não havia pandemia, que só surgiu em março. Mas este, em fevereiro deste ano, foi o número máximo que atingimos em toda esta crise. Não chegou sequer perto dos números da crise de 2012-2014, quando atingimos 37 mil. Mas são números preocupantes e são-no porque refletem que o facto de a região viver praticamente de uma só atividade económica a torna mais frágil. Isso evidencia a importância de se diversificar a base económica do Algarve.


J.A. – Os últimos dados do INE, saídos na passada semana, indicam uma queda do desemprego no Algarve e até uma diferença para menos face à taxa de desemprego nacional. Em que é que se traduzem estes dados e o que é que os explica?
MF –
Segundo o INE e para o 3.º trimestre do ano, o Algarve apresentou uma taxa de desemprego de 5,8%. Este valor traduz uma quebra significativa do desemprego face ao 2.º trimestre do ano, cuja taxa foi de 10,2%. E, como diz, ficou abaixo da taxa de desemprego nacional (6,1%), o que não acontecia desde o 3º trimestre/2019, em que a taxa de desemprego na região se situou nos 5,4%, face à nacional que foi, para o mesmo trimestre, de 6,2%. Isto evidencia que a região tem capacidade para reagir rapidamente, num quadro de retoma da atividade turística e de maior controlo do problema de saúde pública que a todos abalou. Deve deixar-nos confiantes e otimistas, mas não tranquilos, porque se mantêm as fragilidades evidenciadas, quer na crise socio económica de 2009/2014, quer agora. Como também se mantem um número ainda elevado do desemprego registado, a que agora vêm acrescer os desempregados sazonais.


J.A. – Para lá do desemprego, como se está a comportar a criação de emprego na região?
M.F. –
Esses números são apurados pelo INE [Instituto Nacional de Estatística]. Nós o que trabalhamos são as ofertas de emprego que nos chegam e tivemos um crescimento dessas ofertas. Os sinais que daí advêm são positivos. Há um aumento do número de empregos que leva a uma diminuição do número de desempregados e um comportamento positivo. Terminámos o mês de abril de 2021 com 32.271 desempregados e terminámos setembro com 16.332 desempregados, diminuímos quase metade, 49%. Esta diminuição traduz-se no facto de as pessoas terem retomado alguns dos empregos. No fundo tem a ver com ofertas de emprego. Agora se se refere à criação de novos empregos…


J.A. – Referia-me nas duas vertentes: a criação do próprio emprego e a empregabilidade das pessoas como empregados de alguém…
M.F. –
Há sinais positivos. Aumentámos o número de ofertas de emprego e aí até já estamos próximo dos valores de 2019. Aumentámos o número de colocações de pessoas no mercado de trabalho e diminuímos claramente o desemprego. Quase para metade.


J.A. – Essa criação de emprego corresponde a postos de trabalho permanentes ou temporários? Há um aumento dos contratos com termo?
M.F. –
Temos um programa, o Incentivo.Ativar, que tem tido uma boa recetividade das empresas e que exige que haja criação líquida de postos de trabalho e portanto contratos sem termo. Mas na área da hotelaria, que é o grosso das ofertas, a maior parte do emprego é, por norma, sazonal e temporário.


J.A. – Antes ainda da crise, a sazonalidade vinha-se acentuando?
M.F. –
Sempre houve e vai existir sazonalidade na região, que vive do Turismo. Há uma vontade da região para alargar a base económica e isso estava-se a notar em 2019. A pandemia veio inverter a situação mas acredito que vamos retomar novamente e o exemplo disso é este ano, em que o verão se tem prolongado mais. Em 2019 o período de desemprego das pessoas estava-se a restringir praticamente a três meses, de novembro a janeiro. Se no próximo ano começarmos a retomar o maior dinamismo, sobretudo 2018, que foi um ano muito bom (2019 foi um ano de manutenção), os números vão melhor e retomando progressivamente os números anteriores. Mas mesmo no Turismo, 2/3 são empregos permanentes e 1/3 são contratos sazonais. A maioria dos trabalhadores não são sazonais, mas haverá sempre trabalhadores sazonais.


J.A. – Há falta de mão-de-obra em alguns setores. Quais esses setores e o que pode ser feito para contrariar essa falta?
M.F. –
Mesmo na pandemia houve atividades que não pararam. Construção civil, agricultura, foram setores que não tiveram muito desemprego. Nos citrinos, por exemplo, mais tivessem mais conseguiam vender, trabalharam em pleno. E na saúde, por via da pandemia, houve até necessidade de reforçar os efetivos humanos.


J.A. – Como está o desemprego de longa duração (DLD) no Algarve? Quais os números e as características?
M.F. –
Numa situação regular, a maioria dos desempregados inscritos nos serviços públicos de emprego na região são sazonais, são 60% dos desempregados inscritos. Em janeiro de 2021, tínhamos 77,75% dos inscritos eram desempregados há menos de 12 meses. E 22,25% eram desempregados há mais de 12 meses. Quando há um pico de desemprego o peso dos desempregados de longa duração é menor. A maioria dos inscritos são desempregados sazonais, pelo que, quando o desemprego está num pico máximo, eles têm mais peso e os DLD por norma não saem para trabalhar. Há aqueles que saem anualmente para iniciar novos trabalhos ou retomar os que tinham, mas há um grupo de desemprego estrutural, com maiores dificuldades de inserção no mercado de trabalho regional e que serão os DLD, que se mantêm. Com a pandemia, o peso dos DLD tornou-se maior. Por exemplo em agosto o peso dos DLD é maior, porque os outros arranjaram emprego. Em setembro 55% dos desempregados eram inscritos há menos de um ano e 44,9% eram inscritos há mais de um ano. Tornam-se mais evidentes porque os outros [os desempregados de curta duração] baixam. Mas diria que, em média e por norma, 30% de pessoas são os DLD da região. Nós no terceiro trimestre de 2019 estávamos quase no pleno emprego: a taxa apurada pelo INE era de 5,1%. Em 2018 eram 5,1%. E o número de desempregados inscritos era 7.500!


J.A. – O que tem sido feito para impedir o desemprego dos mais velhos e para que eles encontrem emprego? O patronato continua a preferir os mais novos em detrimento da experiência dos mais velhos. Isso pode ser contrariado por políticas ativas de emprego do IEFP?
M.F. –
Claro, e elas têm existido. Em 2019, a nossa grande preocupação era a intervenção junto dos DLD, as pessoas que teriam mais dificuldades de integrar o mercado de trabalho. Todas as políticas de emprego criam melhores incentivos para as empresas contratarem públicos com maior dificuldade de inserção, sejam jovens ou pessoas com mais de 45 anos, ou DLD, ou outras situações de fragilidade. É o caso do Incentivo. Ativar, e outras. E depois temos outras medidas às quais priorizamos estes desempregados, como no âmbito do mercado social de emprego, em que incentivamos entidades públicas a candidatarem-se a projetos que prevejam a integração daquelas pessoas para lhes aumentar as competências de empregabilidade, de maneira a que depois seja mais fácil encontrarem emprego. E algumas delas até ficaram nessas entidades em que fizeram esses projetos. Depois também há um atendimento mais individualizado, de convocarmos as pessoas, de as conhecermos.


J.A. – Essa é uma das críticas que se faz às vezes aos serviços de emprego, a de não acompanharem as pessoas concretos das pessoas.
M.F. –
Mas até nisso tivemos preocupação. Primeiro é preciso que haja essas políticas e elas existem, vamos operacionalizá-las. Por outro lado, é importante capacitar os técnicos para que a intervenção seja mais direcionada para o atendimento individual e do acompanhamento dessas pessoas.


J.A. – Essas políticas ativas têm-se refletido num aumento, manutenção ou decréscimo desses casos de DLD entre os mais velhos?
M.F. –
Nós estávamos a intervir de uma forma mais focada junto desses públicos em 2019 e de repente entrámos em contra-ciclo, em que tivemos que trabalhar um número elevadíssimo de desempregados que já não era só esses. Tivemos que distribuir a atenção por todos. Espero que com o retomar da atividade e a diminuição do desemprego possamos focar-nos mais nestas pessoas. Elas têm que ser trabalhadas de forma mais individualizada, com mais acompanhamento. E fizemos até um coaching com a UAlg, aos nossos técnicos que intervinham junto de DLD. E receberam uma formação para estarem mais capacitados a trabalhar com este tipo de pessoas. A outra resposta que temos vindo a fazer é por via da formação profissional. Identificámos quem são os nossos públicos, quais os públicos que saem para trabalhar no verão e quais os que ficam. E entre esses segmentá-los para saber que habilitações têm, expetativas, em que áreas estão inscritos. Convocá-los a todos. Por exemplo, convocámos os licenciados para definir planos de intervenção com eles.


J.A. – E houve resultados práticos?
M.F. –
Um resultado muito positivo foi as pessoas sentirem que estavam a olhar para elas, conversar com elas individualmente. Muitas delas aceitaram inscrever-se em ações de formação profissional, nomeadamente nas áreas das informáticas. Outras tiveram conhecimento dos apoios à criação do próprio emprego e procuraram explorar essa via. Outras não quiseram, queriam um emprego na área em que estudaram. Esse trabalho estava a ser feito e vai ser feito agora com mais foco.


J.A. – O desemprego juvenil tem aumentado na região, estruturalmente?
M.F. –
Tem-se mantido mais ou menos estável. Em setembro, o peso dos desempregados com menos de 25 anos era de 9,1%. Este valor é estável face aos anos anteriores.


J.A. – E o desemprego nas outras faixas etárias?
M.F. –
Em setembro, nas pessoas com idades entre 25 e 34 anos era 22,3%, entre 35 e 54 tínhamos 44,4% e com mais de 55 anos tínhamos 24,2%. O grosso do desemprego situa-se por norma entre os 35 e os 54 anos.


J.A. – Quanto aos imigrantes, qual o seu peso laboral na região? Precisamos da imigração para cada vez mais setores? Que setores e onde se inserem mais os imigrantes no nosso tecido empresarial?
M.F. –
Temos um peso grande de desempregados oriundos de países terceiros, nomeadamente brasileiros, indianos e nepaleses. Que no primeiro trimestre do ano rondou os 30% e que agora em setembro estava nos 20,27%.


J.A. – Um terço dos desempregados do Algarve eram de origem estrangeira no último inverno?!
M.F. –
No primeiro trimestre eram. É muito. O que significa que temos desempregados na região em número significativo, sobretudo brasileiros. A região precisa dos estrangeiros para trabalhar e tem que os acolher e integrar.


J.A. – E isso está a ser feito?
M.F. –
Sim, temos a decorrer na região um projeto piloto com o Alto Comissariado para as Migrações e com a ANQEP [Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional] que visa a qualificação destas pessoas e encontrar uma metodologia de qualificação por via da reformação ou dos Centros Qualifica. Todos os que não dominam a língua portuguesa estão a ser encaminhados para ações de língua portuguesa. Relativamente às qualificações, há o problema de muitos deles não terem certificados reconhecidos cá e poderem nem sequer ter esses documentos com eles. Nos Centros Qualifica damos informação e acompanhamos essas situações.


J.A. – Cresceu o número de empresas que foram ajudadas nos últimos anos pelo IEFP no que respeita a contratações de estagiários e de funcionários contratados ao abrigo de programas do Instituto?
M.F. –
Mantivemos durante a pandemia apoios muito interessantes às empresas. Aliás, se não aumentámos mais o desemprego foi precisamente por haver políticas públicas de emprego que ajudaram a minimizar o problema e a manter o emprego. Majorando mais, apoiando – nos períodos de suspensão da atividade – todas aquelas medidas que estavam em vigor. Por exemplo, estágios profissionais que tiveram que ficar suspensos por via da pandemia, em que foram pagos os períodos de suspensão, para que não se desistisse das pessoas e dos projetos. Se o desemprego, apesar dos números que atingiu, não subiu mais foi por terem havido essas políticas. Por exemplo, o programa dos estágios profissionais foi um programa com muita tradição no IEFP e manteve um número de candidaturas muito interessante. O programa Convert+, para a conversão de contratos [de contratos a termo incerto para contratos sem termo], superou as nossas expetativas.


J.A. – O usufruto desses programas tem crescido nos últimos anos?
M.F. –
As empresas têm aproveitado bem esses apoios, nomeadamente ao nível dos estágios profissionais. Estágios não são criação de emprego, é a possibilidade de facultar a jovens ou adultos recém qualificados um estágio profissional numa empresa que lhes permite transferir o que aprenderam enquanto estiveram a estudar para uma realidade concreta. E que a empresa conheça aquela pessoa. A medida tem uma grande recetividade por parte das empresas e mesmo durante a pandemia não deixou de ter candidaturas e as taxas de empregabilidade na sequência desses estágios também são bastante interessantes.

João Prudêncio

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