SMS: A Marcha das palmas felizes

Carlos Albino

Para a jovem Constança
O Concerto de Ano Novo da Orquestra Filarmónica de Viena transmitido no passado dia 1 de Janeiro, para um bilião de espectadores em torno da Terra, dirigido pelo maestro Christian Thielemamn, e como sempre incorporando valsas da família Strauss, terminou como usualmente, pela execução da célebre Marcha Radetzky, aquela em que a assistência bate palmas até lhe doerem os pulsos. É um momento feliz para todos. No concerto transmitido a partir de Viena, dava para ver como os vienenses sabem em que momento devem acompanhar o compasso binário com as palmas ao alto, e quando apenas devem fazer o gesto para respeitar o andamento baixo. Tudo isso resultou, este ano, maravilhosamente executado pela orquestra e pelo público em Viena. Foi um prazer ouvi-los.

À nossa dimensão, aqui no Algarve, no Cine-Teatro de Loulé, o concerto executado pela Orquestra do Sul também terminou pela Marcha Radetzsky, mas a maestrina Joanna Slusarczyc, ou por ser muito jovem ou suficientemente polaca, não conseguiu interagir com o público. Na sala, ninguém sabia muito bem quando devia e não devia bater as palmas. E no final, quando um pequeno grupo quis identificar a marcha, ninguém se lembrava de que marcha se tratava. Mas todos associavam aquele galope glorioso ao anúncio feliz de que o Novo Ano irá, por certo, ser próspero. Se assim é, assim deve continuar a ser. Para quê saber mais?
Para quê saber que, afinal o Concerto de Ano Novo tão maravilhoso que atinge um bilião de ouvintes, foi uma pura criação nazi? Que se iniciou em 1939, como forma de angariar fundos para o esforço de guerra alemão, chamado Auxílio de Inverno, operação proposta pelo maestro Clemens Krauss, que Joseph Goebbels, o ministro de propaganda ao serviço de Hitler, aceitou? Aliás, acaso o anterior regente da orquestra não se tinha corajosamente demitido em protesto contra o regime nazi? Nos tempos que correm, em que os nacionalismos ferozes parecem ter de novo voltado, não é bom sublinhar estes factos que estão enterrados debaixo da alegria que nos dá o Concerto de Ano Novo.

E se quiserem saber – não sei se é bom saber – a célebre Marcha Radetsky, também da autoria de J. Strauss, só foi integrada no Concerto de Ano Novo em 1958, para celebrar as vitórias do marechal-de-campo austríaco Joseph Radetzky von Radetz e que por isso ficou com esse nome, mas a marcha fora composta em 1848, na altura em que esse célebre cabo-de-guerra conduzia ferozmente a repressão sobre os liberais do seu país. Quando agora, batemos palmas e nos alegramos, não sabemos o que estamos a aplaudir. Só reconhecemos a alegria e exaltamo-nos com ela. Esqueçamos os nacionalismos e as repressões que de novo estão no horizonte. Batamos palmas inocentes, felizes, pelo Ano Bom que há-de vir.

Constança, lembra-te disto.

Flagrante restaurante: Chama-se «A Sala», fica em frente do Parlamento, porta número 11, antiga mercearia de Lisboa. Comidas e bebidas algarvias, gente algarvia, e muito mais – música, banda desenhada, cinema, jogos… Passa a ser sítio obrigatório.

Carlos Albino

pub

 

 

 

WP2Social Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
Tamanho da Fonte
Contraste