AO CORRER DA PENA: Sismos

Todos sabemos que a terra não para de tremer. Hoje aqui, amanhã ali, hoje sem quase se perceber, amanhã com violência, mas sem nunca se saber quando e onde vão ocorrer, os sismos são uma componente importante dos movimentos geológicos que deram forma ao planeta tal como o conhecemos. Já é possível, embora com pouca precisão, prever as erupções de muitos vulcões mas os sismos têm baralhado as contas dos cientistas. Sabe-se que são essencialmente provocados por movimentos de ajustamento das diversas camadas da crusta terrestre mas a verdade é que devem ser tantas as variáveis para a sua ocorrência que se torna, pelo menos por agora, impossível prevê-los.
A Cidade do México, no ano de 1990, foi pioneira na detecção e alerta automático precoce de sismos originados na Falha de Guerrero (junto à Costa Oeste), permitindo aos seus habitantes, poucos mas preciosos segundos na busca de protecção e eventual fuga. Outras regiões e países lhe seguiram já o exemplo (Japão, EUA), mas o intervalo de tempo entre o aviso e a “chegada” do sismo é sempre muito curto e só é eficaz se os avisados souberem com precisão o que fazer. Portugal Continental e Açores estão também em zonas de ocorrências sísmicas embora, qualquer delas, de menor frequência de grandes sismos que as que ocorrem no chamado Anel de Fogo do Pacífico. Sobretudo o Continente.
Detemos contudo, a memória do maior sismo registado na Europa, o célebre Terramoto de 1.º de Novembro de 1755. Esse grande evento (e todos os outros menores que se verificaram antes e depois) adverte-nos que grandes sismos podem vir a ter lugar em qualquer altura. Ninguém estará a salvo e, pior ainda, quem se encontrar numa zona de costas baixas como o são todas as praias. Um tsunami (ou maremoto, em português) não será nunca de excluir. Demora mais tempo a chegar, mas chega! No “grande terramoto”, Lisboa sofreu um maremoto que teria sido de muito maiores proporções se não fosse a particular implantação da cidade e própria forma do estuário do Tejo. Já toda a costa do Algarve quase desapareceu do mapa, a ponto de, a par com a Baixa de Lisboa, se ter construído uma nova vila para albergar os sobreviventes do Sotavento, a Vila Real de Santo António. Safaram-se Silves e aglomerações do interior. Sempre ouvi dizer que os sismos estariam espaçados de dois séculos e é possível estabelecer esse período, dado que temos conhecimento de sismos violentos em 1356, 1531 e 1755. Se o violento sismo de 1969 (de que bem me lembro) entrar nesta série, teremos cerca de 200 anos sem sismos tão graves pela frente. O problema é que pode não estar, e assim, continuamos permanentemente a correr o risco de sofrer um grande sismo em qualquer altura. Pessoalmente, creio que mais vale acreditarmos nesta hipótese e assim mantermo-nos permanentemente prevenidos porque remédio, não há! O que me choca é que as entidades responsáveis pela prevenção (Ministério da Administração Interna e Câmaras, através dos respectivos Serviços de Protecção Civil) pouco ou nada nos alertam para este perigo tão eminente e tão real quanto potencialmente destruidor e mortífero! No Peru, por exemplo, todos que o desejem podem ter a sua própria casa inspecionada pela Protecção Civil, que indica as zonas mais seguras desta em caso de sismo. Nos locais públicos, uma barra pintada a verde (creio que fosforescente) assinala os locais mais seguros (junto a pilares e longe de zonas envidraçadas, por exemplo). Garanto-vos que estes sinais nos deixam bem mais seguros e nos lembram que os sismos são uma possibilidade, mas que são eventos que não foram descurados.
Toda a gente tem em casa, com toda a naturalidade, um kit de sobrevivência (que contém um rádio a pilhas, uma lanterna, água, alimentos enlatados, medicamentos e outras coisas de primeira necessidade) e toda a gente sabe onde se proteger durante o sismo. Todos sabem também como e onde se dirigir após o sismo. É esta consciência que faz com que, em caso de catástrofe, o natural sentimento de pânico seja bastante reduzido, porque tudo está pensado e memorizado com antecedência. Talvez isso tenha sido o principal responsável pela ausência de vítimas no último sismo em Oaxaca, no México (os 15 mortos contabilizados, resultaram do despenhamento de um helicóptero que sobrevoava uma zona sinistrada).
E por cá, quem sabe o que fazer em caso de sismo? Quem sabe o que deve ter em casa? E quem tem esse kit? Quem sabe onde se deve proteger? E quem sabe o que deve fazer a seguir? E quem sabe para onde e quando se deve dirigir em caso de derrocada ou de possível maremoto? Creio que a generalidade das respostas será negativa e por isso bastante preocupante. Acho que todos devemos, em nome de todos os que nos são queridos e de nós próprios, colocar estas questões e exigir respostas. E que as respostas sejam públicas, claras e consistentes. A nós, compete-nos criar esse hábito tranquilo de vivermos com um pouco mais de consciência do local onde moramos. Só nos fará bem!

Fernando Pinto

*cronicas.fp@gmail.com

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