OPINIÃO

A música é um caso sério!

OPINIÃO | JOÃO PRUDÊNCIO

Em pequeno ouvia rádio de dia e à noite discutia com o meu pai, eu em defesa da música, ele da palavra. Dizia ele que, quando rodava o botão direito do rádio de madeira da cozinha, se exasperava com a falta de palavra à medida que o girava.


Dizia eu que o contrário, mas sobretudo que a música que ele achava que poluía o espaço hertziano era uma benesse para a alma. Os 55 minutos por hora que sobravam dos noticiários do meu pai eram a essência da rádio, os meus 100 por cento de prazer.


Um dia chegou abril e eu aprendi a esperar em ânsia os restantes cinco minutos, que chegavam a ser 10 ou 15, porque com abril veio o primado da palavra e das notícias e os noticiários esticaram, embora a música também fosse mais palavra naqueles confusos dias da rádio. Era uma meia reconciliação com a paternidade, embora logo a seguir a abril as palavras que subitamente habitaram as músicas me dissessem muito mais do que ao meu pai. Naqueles dias eu era um revolucionário, ele não.


Com a música e também com as palavras que recheavam algumas canções separei-me da herança cultural paterna, assexuada, hirsuta, púdica. E assim continuei até hoje, amante da música e da emoção, despudorado, desbocado. Indecente até, sobretudo na palavra. Despenteado, embora muito menos revolucionário.


Noutro dia decidi fazer uma coisa rara: mostrar músicas da minha vida a um dos meus filhos, Ramon, um puto à beira da maioridade com sede de conhecer coisas antigas, com quem amiúde eu vou dar a ouvir coisas dos 60’s 70’s e 80’s. Muita coisa boa, a maioria anglo-saxónica, que ele absorve no Spotify. E canta, e curte. Como reagiria ele a novos sons, que eu só raramente punha na grafonola do carro? E que ele, com uma surdez adolescente, smartphone em riste e cascos nas orelhas, se recusava então a ouvir?


Menos anglo-saxónico de formação (ainda que com muita coisa boa em inglês nos meus gostos cimeiros), mais português, brasileiro e francês nas canções, lá comecei a pequena “formação” do miúdo, brasileiro de nascimento e luso-brasileiro de vivência e socialização, com alguns brasileiros da minha vida, antecedidos de pequeníssimas preleções enquadradoras. Ney Matogrosso, Ivan Lins, Milton Nascimento. Três velhotes da música da diagonal atlântica que seriamente me emocionam em boa parte das suas canções, bastas vezes ao ponto da lágrima, do arrepio, de uma emoção indescritível que chega do fundo da alma. Um prazer triste como no cinema, quando revemos o ET pela oitava vez e a lágrima roliça lá aparece no canto externo do olho, ou vemos o “Voando sobre um Ninho de Cucos” do Forman, ou o “Mundo Perfeito” do Eastwood, ou o “Império do Sol” do Spielberg, ou a Intimidade do Woody Allen. Há um masoquismo prazeroso em ver estes filmes com momentos profundamente tristes, igual a ouvir “O que Será” do Chico com os falsetes do Milton, ou “Canção da América” do Milton, ou Caetano a cantar “Cucurrucucu Paloma”, ou Ney com “Balada do Louco”.


Voltando à minha aula. Na lição dos três velhotes a que me propus perante o Ramon, passei da “Rosa de Hiroshima”, cantada ao vivo pelo Ney, emocionante até aos limites do suportável, a mão direita em arco sobre a cabeça e descaindo em pétala sobre o tronco, para a orgástica “Bandeira do Divino” do Lins e amigos. Depois atrevi-me a “San Vicente”, do eterno Milton, o cantor da minha vida.


Mostrei mais dois ou três hinos pessoais, já os conhecia a todos quando tinha a idade dele, acompanharam-me até hoje. As minhas músicas, as canções da minha vida, não envelhecem. Normalmente avesso ao sentimento e à exposição de emoções, Ramon reagiu como se tivesse descoberto ali que a música pode ser em simultâneo triste e bela e que afinal o mundo pode ser explicado em notas de música e palavras bonitas, cantadas como que chorando.


“Nunca tinha chorado a ouvir uma música”, confessou de rompante Ramon, após algumas canções, de olhos turvos e uma inédita alma na voz. Nessa altura senti-me resgatado, vingado da hirta cerebralidade do meu pai, caçador de noticiários na telefonia de madeira.


Sim, ele foi um herói em muita coisa, a esmagadora maioria delas decerto muito mais importantes, objetivamente, do que simples cantigas.


Mas no meu mundo emocional a objetividade nunca existiu. E o meu falecido pai nunca me ensinou o que não podia ensinar apenas porque não sabia: que afinal a música é um caso sério. E que a tristeza das canções vale por todas as palavras de todos os noticiários do mundo.


Amo-o profundamente, mas lamento nunca ter sido o seu Ramon.

João Prudêncio

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