REPORTAGEM

Algarvios e andaluzes desesperam pela abertura da fronteira

Após décadas a receber “nuestros hermanos” nos concelhos de Vila Real de Santo António e Castro Marim, o comércio e restauração da raia algarvia tem atravessado dificuldades devido à pandemia de COVID-19, que obrigou ao encerramento dos estabelecimentos e ao fecho da fronteira com Espanha, a 17 de março. Do outro lado da margem do Guadiana, os empresários sentem saudades de ouvir falar português. Deste lado da ponte, o pequeno comércio e a restauração lusitanos esperam pelos espanhóis

Ainda sem Ponte Internacional do Guadiana, há cerca de 30 anos, os ferry-boats vindos de Ayamonte chegavam a Vila Real de Santo António pela manhã, completamente lotados. Os espanhóis desembarcavam em bando, principalmente à procura dos atoalhados portugueses, um dos produtos mais típicos e vendidos pelo comércio local da cidade algarvia. Em Ayamonte, os portugueses desembarcavam à procura dos famosos caramelos. Após a construção da ponte, da crise económica de 2008 e a atual pandemia de COVID-19, tudo mudou.

Maria Adelaide, proprietária da loja de atoalhados Metalpina

No coração da cidade, sem clientes


“Clientes não há”, começa por dizer Maria Adelaide ao JA, proprietária da loja de atoalhados Metalpina, criada em 1998, no centro histórico e no coração de Vila Real de Santo António, na praça Marquês de Pombal.


Depois de dois meses de encerramento forçado, a Metalpina abriu a 4 de maio, no primeiro dia de desconfinamento autorizado pelo Governo e, apesar de não haver clientes, tem aproveitado para “arrumar e modificar a loja para termos espaço e tentar ter o máximo de cuidado”, uma vez que a venda de atoalhados tem um atendimento em que o cliente “tem sempre de mexer e agora as regras são apertadas”.


Segundo Maria Adelaide, as vendas já não estavam fáceis “desde há dois anos para cá” e a pandemia veio piorar ainda mais.
“O comércio tem vindo a sentir muitas dificuldades nos últimos tempos, com a crise económica e a implementação de parquímetros no concelho que nos roubaram muitos clientes”, referiu a proprietária daquele espaço comercial.


Para os próximos tempos, o cenário prevê-se “muito difícil”, mas Adelaide garante ter fé na diminuição de casos positivos de COVID-19 em Portugal e se “as regras para os turistas não forem muito apertadas”, pensa que ainda ganhará alguns clientes portugueses “que outrora nos trocaram para as praias da Andaluzia, em Espanha.


Em declarações ao JA, a comerciante de 51 anos acredita que apesar de haver a possibilidade do aumento de turistas portugueses no Algarve no verão, “não quer dizer que vá haver mais negócio, porque muitas pessoas perderam o poder de compra”.

No inverno ainda será pior


“Em outubro, novembro e dezembro, devido à possível segunda vaga de COVID-19 e ao facto de ser época baixa no Algarve, ainda vai ser pior para o negócio do que agora”, confessou ao JA, Hugo Sá, proprietário da Casa Jardim, a poucos metros da praça Marquês de Pombal e com vista para a marina de Vila Real de Santo António.


O seu estabelecimento abre portas apenas durante algumas horas, mas Hugo confessa que “não vale a pena abrir se não vou vender. O meu público é, na sua maioria, espanhol e de outras nacionalidades”.


“Se as fronteiras não abrirem, teremos de contar com os portugueses, isto se no Algarve continuar a haver poucos casos de COVID-19”, referiu Hugo, que considera que apenas em 2021 é que “a economia começa a recuperar”, possivelmente na próxima Páscoa.


O proprietário do estabelecimento alerta que o “Algarve tem de começar a ser divulgado lá fora como um destino seguro e livre do vírus”, para que comecem a chegar mais voos com turistas, uma vez que “a nível nacional não vai haver massificação porque as pessoas não têm dinheiro”.


Se as fronteiras abrirem nas próximas semanas, Hugo tem esperança de receber na sua loja “a prata da casa”, ou seja, os seus clientes habituais e ainda alguns espanhóis que tenham casa no sul do território de “nuestros hermanos”, “que têm mais possibilidades económicas e até possam ter feito o teste de COVID-19 no privado”, além da quarentena.


O comerciante considera que durante os últimos meses houve uma “perda brutal, entre 60% a 80% nas empresas”, relembrando que a época da Páscoa, quando muitos turistas começavam a chegar ao Algarve, foi passada em isolamento, com os estabelecimentos fechados e sem faturar.


“As pessoas têm medo. Não há ninguém nas ruas e as pessoas que há, vão aos bancos e aos supermercados”, destaca Hugo Sá, que considera que “os números é que vão dar confiança às pessoas”, se começarem a diminuir, ou então, a tão esperada vacina.


Apesar de tudo, o empresário tem a opinião de que “o negócio não vai voltar ao que era”, pois “as coisas já não estavam fáceis e Vila Real de Santo António vai levar uma grande volta”, considerando que os estabelecimentos que “já estavam mal, agora é para fechar”.

Maria Vieira, uma das proprietárias da loja Coroa

Inúmeros prejuízos


“Infelizmente, nota-se um brutal decréscimo de clientes”, começa por dizer Maria Vieira ao JA, uma das proprietárias da loja Coroa.


O negócio de família de Maria tem esperança nos turistas portugueses que agora começam a chegar, apesar de considerar “que será complicado, uma vez que o público estrangeiro representa praticamente 90% dos nossos clientes” e que “o poder aquisitivo dos locais neste momento poderá ser baixo”, uma vez que “o cliente acaba por priorizar outros bens que não o têxtil”.


Ao logo dos dois meses de encerramento devido à pandemia, o negócio acumulou “inúmeros prejuízos” pois, “para além de uma total redução de vendas, existem sempre outras faturas que continuam a pagamento como a água, luz, seguros, telecomunicações ou rendas”, referiu.


Com esta nova crise, Maria acredita que “muitos comerciantes se vejam agora a braços com dificuldades financeiras” provocadas pela pandemia.


No entanto, “para a manutenção da atividade comercial” de Vila Real de Santo António, a comerciante considera “urgente e essencial que se recupere a circulação transfronteiriça e se retomem as visitas estrangeiras, em especial as que provêm de Espanha”.


“É altamente notável a falta que o público espanhol faz a Vila Real de Santo António. Penso que podemos dizer que a atividade comercial da cidade está praticamente morta sem a presença espanhola. As nossas ruas são o claro reflexo disso. Espero que, apesar desta situação, se valorize cada vez mais a necessidade que a nossa terra tem de receber visitantes e clientes”, concluiu.

Carlos Coelho

Reabertura de fronteiras não recupera receita perdida


Após umas horas de compras na rua Teófilo Braga em Vila Real de Santo António, conhecida popularmente como “Avenida”, os espanhóis costumavam deslocar-se a restaurantes da cidade, ou até de outros concelhos como Castro Marim. Em Altura e na Praia Verde, nos restaurantes “Infante”, a sua presença era assídua e a sua falta é sentida.


“A abertura da fronteira com Espanha é fundamental para aumentar o volume de negócios, mas não servirá para recuperar a receita perdida, pois foram três meses com receita zero e com várias despesas fixas”, referiu ao JA Carlos Coelho, proprietário dos restaurantes Infante, na Praia Verde e em Altura, no concelho de Castro Marim.


Segundo o empresário, entre os meses de novembro e abril “a receita é muito fraca” e não cobre a totalidade dos custos, com quebras muito acentuadas e a pandemia surgiu uma altura em que o trabalho seria “um pouco melhor, na época da Páscoa, mas uma vez que tivemos de fechar, isso não aconteceu”.


“A média anual de percentagem de clientes espanhóis nos nossos restaurantes no serviço a la carte, ou seja, cliente passante, ronda os 65%”, revelou Carlos ao JA, salientando ainda que é “uma percentagem muito acentuada que depende”, agora, da abertura da fronteira terrestre.


O cliente espanhol também procura os restaurantes Infante para eventos empresariais e primeiras comunhões nos meses de abril e maio, “eventos estes que também foram cancelados, mas ainda temos esperança de poder reavê-los. Mas isto dependerá da abertura das fronteiras”, referiu.


Para este verão, Carlos Coelho acredita “que haverá um aumento do turista interno, perante esta situação e até analisando como estão outros países”.


“Penso que nós, portugueses, nos sentimos mais seguros cá dentro. No entanto, de forma a conseguirmos combater esta crise, esperamos a abertura das fronteiras, não só as terrestres mas também as aéreas”, destacou.


Segundo Carlos, “em primeiro lugar, o cliente que visita um restaurante tem de se sentir seguro e confortável. O cliente está a entrar num restaurante para desfrutar tranquilamente de uma boa refeição em família e não num centro de testes à COVID-19. Sabemos que é necessário mas, por vezes, as medidas e precauções tomadas podem intimidar e retrair um pouco a vinda do cliente”.


Carlos considera que as novas medidas de segurança e higienização “são indispensáveis, mas também dispendiosas”, salientando ainda que o setor da restauração “foi gravemente atingido, sendo um dos primeiros a fechar e um dos últimos a abrir portas”.


“Todos os dias damos o nosso melhor e tentamos criar estratégias de modo a atrair e satisfazer o mais importante para nós: o cliente”, concluiu Carlos Coelho.

Conceição Cabrita

“Turista nacional terá um peso importante”


A presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, Conceição Cabrita, acredita que durante o verão que se aproxima “o turista nacional terá um peso importante na retoma da economia local e dos setores do turismo e restauração”, enquanto a fronteira com Espanha não reabrir.


“É inequívoco que os visitantes espanhóis são fundamentais para a atividade comercial do município de Vila Real de Santo António. Contudo, é importante frisar que esta ausência de turistas espanhóis se deve a uma situação de caráter excecional causada pela pandemia mundial de COVID-19 e pelo encerramento das fronteiras”, referiu a autarca ao JA.


No entanto, a presidente de Vila Real de Santo António acredita que “a reabertura das fronteiras irá, progressivamente, restabelecer o volume de visitantes espanhóis” ao seu concelho.


“O encerramento das fronteiras foi uma decisão supramunicipal e cabe aos Governos de Portugal e Espanha reavaliar a sua reabertura em função da evolução das condições sanitárias em cada um dos países. Esta situação não é exclusiva de Vila Real de Santo António e é idêntica para cada uma das cidades da raia, que atravessam as mesmas dificuldades”, revelou Conceição Cabrita ao JA.


Através da Eurocidade do Guadiana, que inclui os municípios de Vila Real de Santo António, Castro Marim e Ayamonte, e “dos contactos de proximidade com diversas instituições da Andaluzia, o executivo tem estado “a trabalhar e a estabelecer sinergias para que, mais facilmente, se possa garantir a retoma económica das duas regiões após a abertura de fronteiras”.


O município tem realizado campanhas junto do comércio, através da promoção de “um conjunto de reuniões com hoteleiros, concessionários de praia, forças de segurança, Agência Portuguesa do Ambiente, entre outras entidades”, com o objetivo de “travar quaisquer focos de contágio” no concelho de Vila Real de Santo António.


Conceição Cabrita pretende assim “transmitir a todos os que nos visitam, uma sensação de segurança”, numa fase em que “é sobretudo importante” para “divulgar e promover Vila Real de Santo António como um destino seguro e de excelência”, revelou.

Francisco Amaral

Encerramento “tão longo” da fronteira “não faz sentido”


O presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, Francisco Amaral, confessou ao JA que “não faz sentido nenhum haver este encerramento tão longo das fronteiras, uma vez que já existem poucos casos positivos de COVID-19 na região espanhola da Andaluzia”.


“A fronteira já tinha de ter sido aberta mais cedo. Houve uma solicitação por parte da Eurocidade do Guadiana mas não foi autorizada”, revelou o autarca ao JA.


Segundo Francisco Amaral, o comércio e a restauração do concelho, principalmente das zonas de Castro Marim e de Altura, “está a sentir muito a falta dos espanhóis” e o executivo encontra-se neste momento “a executar outdoors para colocar nas estradas para promover a segurança que há em visitar o concelho”.


“De qualquer das maneiras, é um contrassenso, porque o Aeroporto de Faro está aberto a qualquer voo, muitos deles vindos de países pandémicos, e sem qualquer controlo. A medição de temperatura tem pouco valor e não há controlo”, referiu.
O presidente da autarquia castromarinense defende que “as pessoas deviam vir já com o teste de diagnóstico feito ou deviam fazê-lo à chegada”.


“Não faz sentido nenhum haver abertura no Aeroporto de Faro e não haver abertura na fronteira terrestre”, concluiu.

Natalia Santos

“Funcionamos como um único território”


A presidente do município de Ayamonte, Natalia Santos, revelou ao JA que “os municípios que compõem a Eurocidade do Guadiana estão a sentir muito o fecho das fronteiras, uma vez que a cotidianidade dos nossos cidadãos tem sido interrompida, pois funcionamos, a muitos níveis, como um único território”.


“Existe uma relação histórica e habitual entre nós. Para além do impacto económico, existe também um impacto social e cultural: são famílias divididas, tradições e hábitos interrompidos… como se apontou no Manifesto das Sete Eurocidades Ibéricas, um eurocidadão não tem noção de passar a fronteira, simplesmente transporta-se para outra localização do espaço onde já habita. O fecho das fronteiras na Eurocidade equivale a muros levantados entre bairros de um mesmo núcleo populacional”, referiu.


A autarca espanhola espera que no futuro, “sou houver necessidade de fechar fronteiras, a União Europeia tenha em conta a singularidade das Eurocidades, recebendo, portanto, o tratamento adequado ao nosso carácter transfronteiriço.


Por outro lado, Natalia Santos espera “que esta situação sirva para que, como cidadãos, tomemos consciência do importante que são os espanhóis e os portugueses uns para os outros e que a nossa Eurocidade é um veículo maravilhoso para juntos chegarmos muito mais longe”.

Saudades de ouvir português


Do outro lado da fronteira, em Ayamonte, os comerciantes também sentem falta dos clientes portugueses. Nesta pandemia, a cidade transfronteiriça teve apenas cinco pessoas infetadas.


“Temos muitas saudades, é verdade. Todos os comerciantes estão com esperança que a fronteira abra em breve e consigamos ter portugueses por aqui”, referiu a proprietária da loja de roupa Impacto, em Ayamonte, ao JA.


A maioria dos clientes deste estabelecimento são portugueses, tal como acontece na sapataria Hermanos López, no centro da cidade espanhola situada do outro lado do rio Guadiana.


“Nota-se a falta dos portugueses que agora não vêm e os estrangeiros que também costumam vir, que estão alojados no Algarve”, revelou ao JA o proprietário de uma das lojas de calçado mais conhecidas de Ayamonte.


O comerciante confessou que está pronto para receber os seus primeiros clientes portugueses, salientando ainda que “todos os dias mudam as notícias e temos de esperar, uma vez que esta situação da pandemia é especial”.


Na loja de decoração Seyer, os funcionários e a gerência também “sentem muita falta dos portugueses, tal como eles devem sentir a nossa”.


“Temos muitos clientes portugueses, principalmente no verão, que vêm passear por Ayamonte e visitam a nossa loja”, referiu o proprietário ao JA.


O comerciante afirmou que estão todos a “desejar que abram as fronteiras” e que se sentem “tristes por estar fechada há muito tempo”.


“Queremos que os nossos clientes portugueses se aninem. Aqui em Ayamonte não houve muitos casos de COVID-19 e já implementámos todas as medidas de segurança e de higienização. Estamos seguros e desejando ouvir português, porque Portugal é o nosso país irmão”, confessou ao JA.


Noutra loja de roupa situada nas ruas do centro de Ayamonte, a comerciante revelou ao JA que o negócio “está muito tranquilo e nota-se que a fronteira está fechada”.


Por estes dias, “nota-se um pouco de mais pessoas, mas ainda têm medo de sair”, confessou, salientando que mais de metade dos seus clientes são portugueses.


“Penso que os portugueses estão a desejar vir cá, tal como nós queremos ir lá. Estou desejosa de ir beber um café a Portugal”, revelou.

La Plaza em Ayamonte


No centro comercial La Plaza, também em Ayamonte, naquele que costumava ser um dos locais de compras preferidos dos portugueses que residem na fronteira, os comerciantes querem a reabertura das fronteiras, enquanto o parque de estacionamento está vazio, tal como as ruas do centro.


“A nossa percentagem de clientes portugueses é de 80 a 90% e estamos desejando que as fronteiras abram”, revelou ao JA uma trabalhadora da Aromas, uma loja de perfumes e cosmética.
Com a fronteira fechada, o negócio tem sido mau apesar dos “dias na loja serem tranquilos, com clientes da terra, mas não há turistas”.

Gonçalo Dourado

Ayamonte declarada como Zona de grande afluencia turística

A partir do próximo dia 1 de julho, a cidade transfronteiriça de Ayamonte passa a ser reconhecida como Zona de Grande Afluência Turística pela Consejería de Economía da Junta de Andaluzia, segundo o Huelva Costa.


Esta declaração permite que os estabelecimentos comerciais da localidade tenham toda a liberdade para designar os dias e horários de abertura dos estabelecimentos, desde 1 de julho a 15 de setembro.


Em relação a esta cidade espanhola, teve-se em consideração para esta declaração o seu carácter fronteiriço, os seus importantes acontecimentos desportivos e culturais de grande afluência como a Semana Santa, o fluxo de visitantes e o turismo de compras, o número de alojamentos e estabelecimentos turísticos e a sua qualidade, o número de dormidas resgitadas nos estabelecimentos hoteleiros e a oferta de sol e praia.


“Esta declaração, que chega num momento crucial em que combatemos as consequências da grave crise económia derivada da pandemia de COVID-19, serve para oferecer um maior apoio e impulso aos comerciantes do município, que dispõem agora de liberdade horária e a escolha dos dias de abertura dos seus estabelecimentos, tanto durante a Semana Santa como no verão, traduzindo-se num maior movimento económico, que irá favorecer a criação de empregos e serviços durante as respetivas temporadas”, revelou a presidente de Ayamonte, Natalia Santos.

Fronteiras só reabrem a 1 de julho

O Governo espanhol esclareceu ao fim do dia da passada quinta-feira que a abertura das fronteiras à “mobilidade internacional segura” terá lugar a partir de 01 de julho e não a 22 de junho, como tinha indicado a ministra do Turismo na manhã do mesmo dia, uma mudança de posição de Madrid depois de Lisboa ter pedido “esclarecimentos” e manifestado estar “surpreendido” com as declarações da responsável governamental.


Na conferência de Imprensa após o Conselho de Ministros daquele dia, António Costa foi questionado sobre este incidente, começando por sublinhar que “Portugal e Espanha destacaram-se, no quadro da União Europeia, por uma gestão exemplar, de forma bilateral, da sua fronteira comum”.


“É verdade que nas últimas semanas houve, em alguns ministérios setoriais de Espanha, alguns anúncios unilaterais, que aliás hoje já foram desmentidos por parte de Espanha e, portanto, a fronteira terrestre manter-se-á fechada até 31 de junho”, admitiu.


Na perspetiva do primeiro-ministro, “está restabelecida essa normalidade”.
“Acontece, em todos os governos, haver por vezes iniciativas menos coordenadas, mas acho que está tudo esclarecido. Aquilo que conjuntamente tínhamos acordado é o que conjuntamente iremos manter: a 01 de julho poderão reabrir as fronteiras”, concluiu.


Antes, a ministra espanhola da Indústria, Turismo e Comércio, Reyes Maroto, numa reunião com correspondentes estrangeiros em Madrid, avançou que no próximo dia 22 de junho, quando terminar o estado de emergência no país, seriam eliminadas as restrições à mobilidade dos residentes e ao trânsito terrestre com Portugal e França.


Poucas horas depois, o Governo espanhol publicou uma “nota de esclarecimento” na qual retifica as declarações da ministra e explica que “em conformidade com o princípio da progressividade, e tendo em conta os compromissos anunciados de reabertura do turismo internacional, a mobilidade internacional segura terá lugar a partir de 01 de julho”.


Entretanto, o Governo português mostrara-se “surpreendido” pelas declarações da ministra espanhola, depois de, no passado fim de semana, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, ter indicado que a abertura ao turismo internacional seria feita a partir de 01 de julho.

“Fomos surpreendidos com estas declarações da ministra responsável pelo Turismo , que ‘anuncia’ a reabertura da fronteira entre Portugal e Espanha para o próximo dia 22 de junho”, disse Augusto Santos Silva à Lusa, frisando que o anúncio “não se inscreve” no quadro de “cooperação estreita” entre os dois Governos para a gestão da fronteira comum.


O chefe da diplomacia portuguesa acrescentou que “quem decide sobre a abertura da fronteira portuguesa é naturalmente Portugal, e Portugal quer fazê-lo em coordenação estreita com o único Estado com o qual tem uma fronteira terrestre, Espanha”, precisando que já estavam a ser pedidos “esclarecimentos ao Governo de Espanha”.


“Infelizmente, sucedem-se declarações de ministros setoriais do Governo de Espanha que não se inscrevem nesse quadro de coordenação estreita”, disse, apontando que, já antes, “Espanha tinha tomado unilateralmente uma decisão de impor quarentena a pessoas que entrassem em Espanha e comunicou que essa quarentena iria até ao fim do mês de junho”.

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