AO CORRER DA PENA: As “Notre Dame de Paris” existem por toda a parte

Pensei em vários temas para aqui abordar hoje, mas nunca me ocorreu que a Catedral de Notre-Dame de Paris viesse a fazer parte deles. Contudo, assim é! Por um infortúnio do qual ainda não se sabe a origem (se é que algum dia se virá saber), o incêndio que se abateu sobre esta peça fundamental do património cultural mundial (e da espiritualidade, e da fé cristã) é uma perda irreparável para a civilização europeia. Por mais que Macron repita que se vai reconstruir, ela jamais voltará a ser a mesma! Reconstruir é tornar a construir hoje o que, por qualquer razão, foi destruído. Mas todos (ou quase todos) os que, ao longo dos séculos (e já lá vão oito séculos e meio), participaram na sua construção, manutenção e conservação já não existem e bastaria isso para que a Notre Dame não pudesse voltar a ser a mesma. Não esqueçamos que todos os telhados que arderam, todos os vitrais destruídos, todas as ferragens, foram feitos um a um, por mestres que já não existem. Todos esses trabalhos se encontram agora calcinados ou desaparecidos, tal como todos os outros pequenos mimos que uma empresa desta grandiosidade sempre contém. Todos os materiais que agora se esfumaram não podem mais que ser reproduzidos, e não serão nunca originais! Mas há mais: desde os materiais em si próprios (imagino que muito carvalho francês, que praticamente já não existe) até à forma como foram talhados, transportados e postos em obra, nada será como antes. Também a patina, essa indelével impressão digital do tempo sobre os materiais e as coisas, será impossível de reproduzir e fará contrastar os novos com os velhos materiais. Isto, sem aprofundarmos coisas mais técnicas (mas igualmente importantes) como o estado em que terão ficado as pedras das paredes e das fundações após de sofrerem um aquecimento tão súbito quanto brutal (de que irá resultar uma muito mais rápida degradação da própria pedra), seguido de um encharcamento que terá ensopado à exaustão todos as velhas argamassas de assentamento e os rebocos. A partir da reconstrução, iniciar-se-á toda uma série de novos ajustamentos e até movimentos diferenciais que irão ter lugar entre a velha e a nova Notre Dame, reduzindo-lhe o horizonte de vida. Traduzindo por miúdos, o fogo abreviou o tempo de vida da Catedral de Notre Dame de uma forma apreciável! Embora subconscientemente estes edifícios se nos apresentem como eternos (porque facilmente ultrapassam a nossa própria esperança de vida), a verdade é que não há edifícios eternos e a Notre Dame é hoje menos eterna que antes do fogo. As partes reconstruídas iniciarão (em breve?) a sua caminhada no tempo, enquanto o que remanesceu de pé já leva 850 anos de vida e terá ainda o trabalho suplementar de se aclimatar aos novos troços. Portanto, a forte afirmação de Macron de que se vai proceder imediatamente à reconstrução da Notre Dame é sobretudo política e pretende serenar (e bem) o choque emocional que atingiu os franceses e um vasto estrato que se identifica culturalmente com este belíssimo edifício gótico. O que veremos no futuro? Um edifício com marcas de uma grande tragédia, ou um edifício com partes que pretenderão aparentar outras que literalmente se esfumaram no ar? A pergunta que se impõe é: será isso importante? Claro que é importante, mesmo para os turistas mas, sobretudo, para os habitantes próximos da catedral que são, na realidade, os seus primeiro usufrutuários. Tal não significa, nem por um momento, que não se deva proceder à reconstrução. Claro que deve, mas respeitando todos os princípios da arte do restauro e da reconstrução, desde a celebrada Carta de Veneza (que prevê situações deste tipo ou destruições devidas a guerras) até às mais modernas “boas práticas”, que tão arredadas têm andado dos últimos restauros, remodelações e reconstruções que tenho tido o ensejo de ver. Haverá que não cair na armadilha fácil do “bonitinho” para turista ver, mas acredito que a UNESCO, o ICCROM e o ICOMOS estarão bem atentos a tal hipótese.
Por cá, é bom que punhamos as barbas de molho. Situações como esta poderão acontecer em qualquer altura, como já se viu no grande incêndio do Chiado, em 1988, e uns antes no Teatro D. Maria II e na Igreja de S. Domingos, para só dar exemplos de incêndios dentro da cidade de Lisboa. Não esqueçamos ainda que o país tem sido, ao longo do tempo, bastante vulnerável a sismos, e que as inundações também têm tido funestas consequências. Mais vale prevenir que remediar mas, que eu saiba, Portugal é bem pouco prevenido. Torna-se por isso urgente perguntar a todas as entidades responsabilizáveis e responsáveis (igrejas, museus e monumentos, camaras municipais, protecção civil, ministérios da cultura administração interna, etc): há planos de manutenção (incluindo ciclicamente limpeza, alimentação e tratamento de madeiras, verificação estrutural, verificação de redes eléctricas e de para-raios, águas e esgotos, etc., etc.) nos edifícios mais marcantes do país? E nos outros que se lhe adossam ou justapõem e lhes podem transmitir fogo? Se existem, têm vindo esses planos a ser cumpridos, além de ciclicamente revistos e exercitados? Quantos museus e locais musealizados têm plano de emergência e de retirada de peças notáveis? Onde se situam os locais seguros para onde deverão ser encaminhadas essas peças? Que meios estarão disponíveis para isso em caso de sinistro? Têm sido efectuadas simulações de situações de catástrofe (sismos, incêndios, inundações, etc.) que permitam testar pessoal e equipamentos? Temo muito saber a resposta (franca) a estas perguntas, mas a verdade é que é cada vez mais provável a ocorrência de uma situação deste tipo, dada a crescente adversidade de todas as condições climáticas a que temos vindo a ser sujeitos, e que não parece que venham a mudar para melhor! Compete-nos também a nós, cidadãos, fazer a nossa parte e indagar junto de quem de direito, pela correcta preservação do património que é de todos nós e, em caso de grave ocorrência, cumprir o que as autoridades competentes nos determinem ou solicitem. Em nome da nossa própria memória!

Fernando Pinto

cronicas.fp@gmail.com

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