AVARIAS: A dura realidade

Fernando Proença

Olho a TV na semana entre o Natal e os Reis e vejo que, em geral, os desejos de bom ano de dois mil e dezanove, ainda não foram concretizados. Os programas são os mesmos, os noticiários, igualmente, e as séries estão naquela fase de Agosto mas com muito mais frio: a fazer render o peixe que não há nada de novo para apresentar. Os portugueses andam muitíssimo preocupados com a ida de Marcelo Rebelo de Sousa ao Brasil, para a investidura de Bolsonaro e não me parece tão grave assim. Podia ter evitado a dos irmãos, mas ninguém é perfeito. Irmãos que não partilham das mesmas ideias e opiniões há por aí aos montes. Eu sei que esta ideia (a de tratar em bicos de pés quem não se devia) pode pertencer à velha escola da diplomacia, mas as consequências que pode ter um passo desajeitado dos políticos na vida de milhares de pessoas serão, porventura, ainda maiores. Já o convite para que o actual presidente do Brasil nos visite é de mestre. Se ele tem que cá vir mais cedo ou mais tarde, mais vale que seja cedo que tarde, porque ao princípio os problemas com os direitos humanos (e outros) ainda são ultrapassáveis na cabeça das pessoas. A partir da altura em que a corrupção, a crendice e o fanatismo começarem a fazer a sua erosão no Brasil é que poderá ser um problema para Marcelo justificar o que quer que seja. E ele sabe-o.
O concurso “Joker” (RTP1, horário nobre) é a prova provada do estado neurótico a que a nossa TV se entregou. Para quem o vê (ou viu), sabe que as perguntas não têm categorias, começam com uma facilidade imensa para, rapidamente, se tornarem (como se diz agora) incontornavelmente impossíveis de responder a não ser com a utilização de “joker”. Um clássico possível neste aspecto poderia ser a pergunta sobre uma judoca holandesa dos anos cinquenta que ganhou a primeira medalha de bronze em campeonatos do Benelux, dando como possíveis respostas 1951, 1952, 1953 e 1954. Às dúvidas postas por estas escolhas, a RTP tem-se defendido dizendo que a fórmula original manda que assim seja. O resto, é dar pouco dizendo que se quer dar muito, desporto em que a RTP é famosa. O meu ponto de hoje, prende-se, no entanto, com umas sessões que passaram na semana em causa (ver primeira linha do texto), em que os concorrentes eram gente conhecido do meio e em que os lucros se destinavam a – chamemos-lhes assim – instituições de utilidade pública. Não sei se existia alguma combinação anterior, sobre tectos de prémios ou dificuldade das perguntas, mas por aquilo que vi, fiquei mais uma vez com a ideia que os nossos famosos só entram em espetáculos de beneficência, para se autopromoverem e obstarem a cair no esquecimento. De um modo geral o que vi foi desatenção e santa ignorância, tudo apimentado pela atitude displicente que eles pensam ser a dos verdadeiros artistas: aquilo pedia para carregarem num botão (por acaso tamanho de um cogumelo gigante), eles não o viam; era para responder em quarenta segundos, alguém lhes tinha que dizer que não eram quarenta minutos; assim a modos de cultivarem a ideia que o génio de um Malato ou uma inteligência rara de uma Tânia Ribas de Oliveira (podia aqui falar noutros), só por um momento se podiam misturar com os vulgares mortais.

Fernando Proença

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