OPINIÃO

AVARIAS: Fruta da época

Fernando Proença
OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA
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Não fossem os fogos de Verão a tragédia que, ano após ano, nos empobrece e cava mais um buraco na estrada da nossa vida como comunidade (gostaram deste começo?, tinha um menos piroso em carteira mas fica para a próxima), era caso para afirmar: aleluia, finalmente temos em 2020 um novo caso de “no teatro de operações” em vez de, pela enésima vez o “mais um infectado pelo novo coronavírus” (por acaso existe alguém, por esta altura, infectado pelo antigo coronavírus? A novidade é que começou a triste temporada dos fogos e com ela voltou, em força, a expressão “teatro de operações”: esta é concordante com fogos florestais e outras alterações à ordem publica e, segundo penso, consequência de uma agenda criada para nivelar o trabalho dos soldados da pátria (os da guerra e os da paz). “Teatro de operações” parece criado para caracterizar um problema – um fogo, Bruno Lage em 2020 – e o que se faz para o resolver, como se existisse à frente das tropas um Churchill e não o vereador camarário com o pelouro da protecção civil.


O “teatro de operações” dos bombeiros está para as calamidades como a expressão “trabalhámos os noventa minutos” para a gente do futebol em relação ao jogo. A palavra “trabalho” relegou, definitivamente para o passado, a antiquada “jogar”. Hoje já não se joga, só se trabalha, pensando eu que, mais uma vez, que as culpadas sejam as más línguas que dizem ser os jogadores de futebol uns reputados preguiçosos. Há que moldar e educar através da linguagem, numa espécie de politicamente correcto para zonas cinzentas onde não existe esquerda e direita. Não faltará muito tempo, para que desapareça o termo “jogador de futebol”, substituído pelo “trabalhador do futebol”, como a prostituição culminou em “trabalhadoras do sexo”, sem desprimor. Ou seja, em plena pandemia e com a atenção voltada para o vírus e os problemas sem remédio da TAP, estamos muito entretidos a saber onde é que os nossos políticos e similares vão arranjar mesas tão grandes, para colocar todos os problemas que os afectam. É a moda do momento: diz-se, por exemplo, que há problemas nas freguesias à volta de Lisboa e a ideia geral é que alguém traga esses problemas “para cima da mesa”. Não há mesa (nem cu) que aguente tanto ponto de vista e tanto debate. Ainda hoje, Domingo, cinco de Julho sobre, não sei se a Efacec ou a TAP, alguém, com muitas responsabilidades afirmava que, depois das meias nacionalizações se devia seguir um grande debate nacional. Grandes debates sobre tudo mais um par de botas já a RTP faz com o “Prós e Contras”, em que na maior parte das vezes não se percebe o antagonismo entre os pontos de vista nem, nos piores casos, de que lado estão os contestantes. Talvez seja a má influência da Fátima Campos Ferreira ou as noites tropicais do nosso Verão, mas grandes debates são apenas uma figura de estilo. Só falta em Portugal que os políticos tomem decisões e sejam limpos nas intenções. E não é pedir pouco.

Fernando Proença

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