AVARIAS: O silêncio e o branco

Fernando Proença

No início de um jogo de futebol (talvez o Portugal – Holanda da final da Liga das Nações), respeitou-se, pelo menos foi o que me pareceu ouvir à distância de uma imagem de televisão, um minuto de silêncio pela morte de Lennart Johansson. Lennart Johansson que foi presidente da UEFA, tem a sua coroa de glória na criação da Liga dos Campeões, que teve como consequência máxima a notável contribuição para o enriquecimento de dez equipas de futebol (mais o organismo que tutelou) à custa do empobrecimento de milhares de outros clubes. O que está feito, está feito e o senhor faleceu com a bela idade de oitenta e nove anos. Mais uma vez se prova que a únicas certezas que temos (alguém, que não consigo precisar, disse-o antes de mim), à nascença são; a morte e os impostos. Pois o que me foi dado ver durante o jogo? Um estádio em impecável silêncio em sinal de respeito. Tudo ao contrário do que tenho verificado em Portugal (e um pouco por todo o mundo onde haja jogo e morram pessoas); o árbitro apita para o início do minuto de silêncio e uns cinco segundos depois, começam a ouvir-se palmas que acompanham os quarenta e cinco segundos que faltam para o minuto em que se deviam ouvir as moscas. Há então aqui um padrão de comportamento que poderia ser objecto de estudo; por que se aplaudem uns e silenciam outros? Pelo que me foi dado perceber, empiricamente falando, depois de ter visto vários casos ao longo destes últimos tempos, quase tudo se resume à idade e à popularidade. Se se morre velho, minuto de silêncio-silêncio. Se a morte vem em novo (ou semi-novo), em razoável estado de conservação. Se os anos em que se viveu estão na proporcionalidade inversa ao número de tatuagens que se tem no corpo (esta foi má. Prometo redimir-me oportunamente), então temos um longo minuto-palmas, provando que continuamos a ser diferentes perante a morte. Também há quem defenda e observe, que num mundo em que cada vez mais é menos admissível o silêncio, muito dificilmente se consegue estar sem fazer nada durante a eternidade de sessenta segundos. E um minuto pode ser um tempo interminável. Vejam, como se diz na anedota, quando estão apertados para ir à casa de banho de um bar, a porta está fechada e lá de dentro alguém diz: “um minuto”. Vejam quanto dura um minuto para que em está dentro da casa de banho (parece ter cinco segundos), ou para quem está à espera para entrar (parecem cinco horas).

Não quero inaugurar nenhuma discussão, neste espaço, sobre os graffitis, direito de propriedade, onde se devem ou não podem fazer, etc. Alguns melhoram o espaço. São boas obras. Mas a maior parte deles são rabiscos feitos na via pública que só tornam a cidade mais feia. Uma outra discussão são os que são feitos, institucionalmente (a mando de autarquias), em paredes, habitualmente brancas: paredes ou muros. A experiência que tenho neste particular e respeitando questões de gosto, em que se inscreve é que a emenda é muito pior que o soneto. Onde existia uma formidável parede branca há agora lugar para um duvidoso desenho, imensamente colorido, como se essa fosse a única forma de nos distrair. Também aqui me parece o mesmo problema do silêncio insuportável. Silêncio e muros brancos. O que virá a seguir?

Fernando Proença

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