AVARIAS: Série estação tola: continuação

Fernando Proença

Independentemente da qualidade dos nossos jornalistas e, por conseguinte, da informação nos noticiários dos nossos canais (mais vistos), há alturas em que muito que um gajo (eu) se esforce, não consegue formar uma opinião sobre o que se vai vendo. É o caso da chamada greve dos camionistas. Sempre pensei que a maluquice dos repórteres nas bombas de gasolina a perguntar o que estão a pensar fazer automobilistas, que estão numa bicha há trinta minutos (talvez fossem comprar pastilhas elásticas e não quisessem passar à frente): “desculpe, vem abastecer?”, soassem mais alarmistas que qualquer declaração de um sindicalista, político, sindicalista político ou patrão e por isso fosse acautelada a sua divulgação. Agora, também vejo o reverso da medalha, no princípio da liberdade de expressão e informação; não será necessário sabermos o que nos espera se formos meter gasolina? Se há da aditivada ou da reles? Talvez que na prática tudo se passe entre opiniões contrárias: até onde podem ir os camionistas? O governo está a armar-se em formidável arauto da esquerda ou estará rendido ao patronato? Onde abastece Francisco Louçã? E a malta que tem carros eléctricos fica-se a rir? Já agora uma questão que me toca. Toda a gente fica muito aborrecida com Mário Nogueira, por não dar aulas há muito tempo, mas ninguém parece ter ficado preocupado por Pardal Henriques, do sindicato das matérias perigosas, ser lá profissional a tempo inteiro e a última vez em que andou de camião, foi…nunca andou. Para o governo também não está fácil a vida (ou estará, se ninguém der nenhum tiro no pé, António Costa fizer o que sabe, que é capitalizar o senso comum, e o ministro Eduardo Cabrita se mantiver calmo e calado, ou pelo menos calmo). Mas não é simples, essa de ser-se preso por ter cão e por não o ter: se têm tudo preparado é porque não deixam que as greves se façam e desfaçam por elas próprias, têm intuitos repressivos ou fazem uma interferência inadmis- sível nos assuntos privados. Se deixam as coisas por fazer, é porque não acautelaram. Claro que as opiniões são livres (por enquanto), por isso parece-me que o maior problema reside no singelo facto das mesmas pessoas serem capazes de dizer agora uma coisa e daqui por um bocado, o seu contrário. Também me faz impressão que muitos dos paineleiros de serviço digam que o governo está a fazer aproveitamento eleitoral da situação. Estar, está, as eleições já não tardam muito, mas não me parece que tenha sido António Costa que convocou a greve dos camionistas, nem que tenha sido ele a escolher a data para a paralisação. Os comentadores políticos que por aí andam, dividem-se em gente com interesses (ser-se de qualquer um dos partidos do chamado arco eleitoral), ou malta que fazia jornalismo e apresentação dos noticiários e que foi reciclada em nome das poupanças que uma estação esteja disposta a fazer. E os reciclados podem ser campeões da independência sem o serem da qualidade.

Fernando Proença

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