OPINIÃO

Crónica de Faro: Os Judeus já cá estavam…

OPINIÃO | JOÃO LEAL
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…quando os reis primeiros da dinastia afonsina (Afonso Henriques, Sancho I, Afonso II, Sancho II e Afonso III) talharam, com a espada e as negociações, as fronteiras do «Reyno de Portugal e dos Algarves». Com efeito a diáspora judaica iniciada há milénios, foi coeva das navegações fenícias e antecipou-se às invasões romana e árabe, dando o seu contributo ao desenvolvimento, em todas as áreas da actual terra algarvia. Ora em que se debate, em termos políticos e legislativos, a concessão da nacionalidade portuguesa aos «judeus safarditas» (termo usado para os descendentes dos judeus originários de Portugal e de Espanha e que falam o «safardi» – língua hispano – judaica e o «ladino»-língua litúrgica), importa como fundamental que se inculque na matéria toda a verdade e direito e toda a importância que no histórico algarvio, ao que nos importa, representam.


A «Nova Jerusalém» ou «Jerusalém Celeste» como Faro, «Cidade das Três Religiões», no dizer do Dr. Teodomiro Neto, notável historiador algarvio e dedicado colaborador de «Jornal do Algarve», dado que aqui coexistiam em perfeita vivência o judaísmo, o arabismo e o cristianismo, representa um coluna fundamental neste «Novo Templo». Com efeito várias são as referências que podemos chamar à colação não apenas no quotidiano vivido em milhares de anos, como e de charneira:

– O facto de aqui ter sido, nas oficinas do Mestre Judeu Samuel Gacon, em plena Vila-a-Dentro, impresso o primeiro livro (o «Pentateuco») em Portugal;

– A existência do Cemitério dos Judeus, no Alto do Cão, entre o Estádio de São Luís e o Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA), fundado em 1820 e que funcionou até 1932, onde foram há alguns anos 18 ciprestes, em memória do Cônsul Dr. Aristides Sousa Martins, que salvou da morte milhares de judeus. Falta erguer a prometida estátua ao judeu farense Samuel Gacon e neste cemitério pode ser visitado o Museu Isaac Bitton.

– O terem existido, quase até meados do século XX, duas sinagogas na zona do Largo da Alagoa, devidamente assinaladas;

– Um vasto número de imóveis atestando a elevada posição económica e social da comunidade judaica, como o Palacete Shoa, na Rua Filipe Alistão, onde funcionou o Colégio Algarve e nele se instalou a comitiva real a quando da visita de D. Carlos e D. Amélia ao Algarve;

– Uma comunidade de relevante prestígio, que ainda hoje perdura, que dotou a cidade com unidades fabris, instituições culturais e outras, de que referimos o Clube Farense e em que se anotam as famílias Ruah, Sequerra, Ahmram, Levy, etc. e são elementos relevantes no Portugal de Hoje, para pleno orgulho de todos nós.


Fugidos a quando da expulsão manuelina e da Inquisição para o Norte de África o seu retorno representou um valor de grande valia para o Algarve. Nossos conterrâneos que o são entendemos de toda a justiça a concessão da nacionalidade portuguesa aos judeus safarditas…

João Leal

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