Diabetes e SNS

Durante algum tempo foi minha intenção transmitir algumas noções que creio importantes adquiridas ao longo da minha prática clinica. Em grande medida desmistificar o “monstro da diabetes” que nos é apresentado todos os dias em tudo quanto pretende ser informação; e, por outro lado, insistir na necessidade de uma avaliação e diagnóstico precoces… e cada vez mais simples… chamando a atenção para a necessidade de um acompanhamento clínico particular e devidamente personalizado. Por outro lado, explicitar que a designada “lato sensu” por diabetes não é uma entidade clínica única; muito pelo contrário… pelo que necessita de uma abordagem multi disciplinar o que pressupõe alicerçar, a nível hospitalar, cuidados a cargo de equipas devidamente estruturadas e constituídas por profissionais vocacionados e formados no que concerne muito particularmente às crianças, adolescentes, jovens adultos e grávidas para além de todas as situações com patologias associadas ou consequentes. Felizmente, entre nós, essas possibilidades existem tendo sido formadas há vários anos já as duas unidades de diabetologia nos hospitais de Faro e Portimão. Apenas por falta de um plano regional não têm sido devidamente entendidas e enquadradas como, infelizmente, ano após ano,  vem acontecendo… em virtude de uma ARS inoperante, ignorante dos verdadeiros problemas de saúde no Algarve e tolhida por toda uma inércia burocrático-administrativa sem paralelo.
Não creio valer a pena repetir-me nem tentar competir com a plêiade de pseudo – informação que inunda hoje os programas televisivos e respetiva publicidade nem a internet com exceção de raros “sites” que felizmente existem.
Por outro lado, o tempo da investigação científica e depois clínica não se compagina com toda a voracidade de comentários e publicidades sem qualquer controlo e pseudo-sabedores que encontram nas TV’s palcos apetecíveis.
É, hoje, pois, com essas condicionantes que tentarei ainda chamar a atenção dos leitores para um nível superior do respetivo  possível e atempado direito aos cuidados de saúde em concreto no que respeita à diabetes mellitus.
A problemática que se abate sobre o SNS e que me parece prioritária e nunca como agora ameaçando todos  que entendem ser possível de uma forma igual e não condicionada  pelas possibilidades económicas está na hora do dia.
Nesse sentido julgo prioritário tentar alertar quem tem a paciência de me ler para a impetuosidade de um movimento necessariamente amplo de defesa do que ainda resta do SNS sem se deixarem confundir com projetos que apenas visarão os lucros da chamada medicina privada. Recordo sempre aquela senhora gestora que afirmou perante as câmaras das TV’s: — ”Ah, não sabe? Depois dos negócios das armas… a saúde é o mais lucrativo”…e ficou tudo dito.
Limito-me a repensar quantos e quais “ricos” há em Portugal com capacidade (?!) para pagar os cuidados de saúde inclusive as patologias crónicas como a diabetes.
O SNS foi um verdadeiro bálsamo que condições muito particulares sócio-políticas permitiram, à época, e que vem resistindo ao longo dos anos a imensos ataques mais ou menos conscientes e político partidariamente incentivados pelo habitual poder económico que tudo condiciona hoje como ontem.
Será talvez o principal e último verdadeiro bastião do ainda “nosso” 25 de Abril.
Está hoje na linha de fogo sem que muitos o queiram entender ou não tenham sequer a sensibilidade para o entender.
O meu apelo e de quem investiu toda uma vida profissional no SNS só pode ir como alerta e solicitação interventora na defesa do “puro” e verdadeiro SNS para todos igual em direitos acesso e cuidados.
Creio ser hoje e agora o que deverá mobilizar os doentes em particular os diabéticos impropriamente designados por utentes ou até clientes mais do que situações pontuais que só contribuem para diluir o que de facto é essencial.

P.S Já após o escrito desta pequena reflexão tive conhecimento do falecimento  de A. Arnault justamente reconhecido como um pai do SNS. A altura não podia ser pior…em que o SNS precisa de ser salvo como referiu bem Manuel Alegre neste particular em completa sintonia. Que falta vai fazer a sua voz esclarecida lúcida e superior muito especialmente nas mensagens que sempre não se escusou a fazer ecoar no seu próprio partido infelizmente hoje tão longe de as entender.

*Presidente da Direção e Diretor Clínico da A.E.D.M.A.D.A. IPSS
Área da Saúde Associação Diabéticos do Algarve – Clínica de Diabetes

Eurico Gomes

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