Hoje vou escrever sobre mim, na hora do meu 19.º livro. Um caminho impensável

Numa cerimónia com casa cheia, que teve lugar no dia 10 de Junho, nos jardins da Casa da Primeira Infância de Loulé, que contou com a presença de várias entidades civis, políticas e religiosas, das quais destaco, Ana Machado, vice-presidente da Câmara Municipal de Loulé, Jorge Botelho, Deputado, Margarida Flores, Diretora do Centro Distrital de Segurança Social de Faro, Luís Encarnação, Presidente da CM de Lagoa, Coronel Silva Gomes, Presidente da Assembleia Municipal de Loulé, Padre Carlos Aquino e Dália Paulo, Directora Municipal da Câmara de Loulé, entre outras personalidades, e por ocasião dos 77 anos da Casa da Primeira Infância de Loulé, fiz a apresentação do meu 19.º livro.
“Quando nasceu a Creche de Loulé, a 10 de Junho de 1945, o mundo era igual ao mundo de hoje.
Era, como se dizia então, o TEMPO DA GUERRA.
E hoje, 77 anos depois, REGRESSÁMOS À GUERRA, SE CALHAR, SEM NUNCA TERMOS SAIDO DELA.
E COMO É QUE SE EXPLICA A UMA CRIANÇA OU A UM ADOLESCENTE, O QUE É A PAZ. A PAZ, QUE É A PAR DA EDUCAÇÃO, A INCUBADORA E O GRANDE PARADIGMA, DA CASA DA PRIMIERA INFÂNCIA DE LOULÉ.
QUE DIRÃO AS MÃES A ESSAS CRIANÇAS E A ESSES ADOLESCENTES, sobre o QUE É QUE SE VAI PASSANDO PELA CABEÇA DOS ADULTOS, NESTE CONSTANTE APREGOAR BALOFO DO TEMPO QUE PASSA. DESTE TEMPO DE GUERRA…ONDE QUEM MAIS SOFRE SÃO AS CRIANÇAS…
MÃE?, perguntará o FILHO…
O QUE É ISSO DA PAZ? E A MÃE A RESPONDERÁ:

É UMA COISA QUE PERTENCE À GUERRA.
MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES.
NÃO SE SURPREENDAM, PORQUE É PELAS CRIANÇAS QUE AQUI ESTAMOS
HOJE. SÃO ELAS, TODAS ELAS, E COMO DESIGNIO DA CPI, ALERTOU então, LOGO NO COMEÇO, MARIA JOSÉ SOARES CABEÇADAS DE ATAÍDE FERREIRA
Às crianças, A QUEM TEMOS QUE TRANSMITIR ESPERANÇA E CONFIANÇA. A QUEM TEMOS QUE ASSUMIR O COMPROMISSO NA SUA PROTECÇÃO, BEM-ESTAR E EDUCAÇÃO.
ESTE É UM COMPROMISSO TREMENDAMENTE DIFÍCIL, MAS NÃO FICARIAMOS BEM COM NÓS PRÓPRIOS, SE NESSA HORA, EM QUE SE FALA DE CRIANÇAS E DE UM LIVRO, que tem como TÍTULO: UMA HISTÓRIA DE AMOR E PAZ NA EDUCAÇÃO, não fizéssemos convergir, as nossas primeiras palavras, tendo a paz no epicentro, destes momentos.
MOMENTOS, QUE SÃO TREMENDOS OBSTÁCULOS, PARA CADA UMA DAS MÃES QUE AQUI SE ENCONTRAM E PARA TODAS AS MÃES…

Neto Gomes apresentado o livro sobre os 75 da CPI, Uma História de Amor e Paz na Educação


E porque falei em mães, todas Iguais à minha, é nela, na minha mãe, que encontro a paixão que precisava, para ir buscar ao lastro de mil sacrifícios e tantas noites a acordar a meio, para dar vida a este livro, a dezenas de páginas que descansavam num caixote, e dentro dele retratos de gente que agora só são memória. – e seguindo os meus próprios passos – PARA dizer obrigado a pessoas com gente dentro.
De dentro da minha casa, no meu arquivo, num espaço a que chamo de jazigo encontrei fios de palavras, recortes de imprensa e retratos, que me ajudaram a decalcar ALGUMAS PÁGINAS”.
E mais adiante, eu diria:
“Enganam-se os que pensariam que eu ficaria a meio. Posso não conjugar bem os verbos, fazer ponto final onde se exigia que se fizesse ponto final parágrafo e nos pedissem para continuarmos na outra linha. Nada disso me embaraça, antes me alimenta o coração verdadeiro, não direi imaculado, porque assim, não daria nada a ganhar aos cardiologistas, mas um coração sério, humano, amolgado por uma vida, onde nela encaixei todos os momentos”.
E depois, acrescento: “Mas esta é também uma história de crianças, mulheres e homens. Crianças, muitas delas com o ranho colado ao nariz e de respirar ofegante, aflitivo. Outras felizes, sorridentes. E, outras ainda que ali chegavam e ficavam inertes, pacíficas, com medo de que a sua própria agitação ou um simples soluçar as devolvesse para a velha e apodrecida enxerga. Era uma espécie de fuga silenciosa ao reino do medo…
A leitura da imprensa da época pouco nos diz, antes muito escondida no que se refere às crianças. No entanto, aos dramas do miserabilismo da época acentuam-se as terríveis condições de acolhimento, em camas piores que enxergas, com as chamadas camas de arame, enchidas por carepa onde se aconchegavam muitas maçarocas de milho, cujos “talocos” endureciam os corpos, que eram acossados por percevejos.
Ignorar isso, é apagar a nossa própria existência, pois essa era a pobreza, a miséria que se arrastava em meados do século passado. Na evolução em quase um século de existência e no sonho que hoje carregamos nesta Terra que continua a girar para todos, infelizmente não se deu uma grande viragem no tempo, pois encontramos os mesmos cenários ao colo do nosso século, não apenas nos bairros mais fragilizados da Lisboa dos poetas e dos cancioneiros de beleza, mas também nas fraldas no norte do País, nas encostas onde se produz o vinho da nossa identidade, no Alentejo e neste Algarve, onde por inspiração de Guterres foi criado o rendimento mínimo garantido, porque no Algarve, por exemplo, como acontece hoje, passava-se muita fome…
Também as Nações Unidas [ONU], liberta da sangrenta última guerra mundial e diante da orfandade, das crianças abandonadas, dos chamados filhos da guerra, relança na universalidade um documento que a par do minguar das poeiras da guerra e do enterrar dos mortos, proclama os Direitos da Criança, que são baseados nos Direitos Universais de todos os Homens. Mas de lá para cá, por isso o homem terá que tapar a cara de vergonha, a cada segundo de todos os dias, são esmagadas, sob um compressor indiscritível no seu peso, milhões de crianças”.
E a caminhar para o final, acrescentei: “77 anos depois, num gigantesco trabalho de resistência, murado por muitas ajudas, sentimos que não estávamos sós. A Casa da Primeira Infância, que nasce em 1945 ao colo dos escombros da última Guerra Mundial, como ainda hoje é conhecida, nunca se deixou abalar por outros e imensos movimentos do mundo e das sociedades, saltando incómodos, abandonos, indiferenças, revoluções, os encantos e desencantos do 25 de Abril e do 25 de Novembro e as crises que se instalaram no País e dentro da CASA.
Mas empurrados pela solidariedade, pelo amor, seguindo os seus sonhos e não os sonhos dos outros, sem deixar de ignorar os seus próprios erros, a Casa da Primeira Infância foi aqui e ali à boleia das novas modas de uma sociedade mais justa, mais alicerçada nos direitos das crianças.
Nunca desaguamos como náufragos em nenhuma praia e muito menos encostamos a um porto sem mar. Antes, sem ignorarmos a exaustão, fomos aí por diante, colocando em cada bolo de aniversário, mais uma vela, acrescentando-a às velas do ano anterior, uma nova cereja, nem que fosse desenhada por uma criança, para nos mantermos sempre unidos.
Em cada novo ano, sorríamos, mas logo a seguir surgiam as derrapagens, os desencantos e as ingratidões. Mas bastava a alegria das crianças, uma espécie de alergia saudável, logo nos esquecíamos de tudo e pensávamos no dia seguinte e na mistura de muitos outros dias”.
E dirigindo-se ao Presidente da Câmara Municipal de Loulé, na cerimónia representado, pela Dr.ª Ana Machado, vice-presidente, diria: “Dr. Vítor Aleixo, Senhor Presidente da Câmara. Que aqui nasceu. Que aqui viveu. Que daqui partiu em busca de um sonho, um sonho chamado liberdade, não deixe como autarca e como homem, que as gentes de Loulé passem fome. Que as crianças não tenham leite, peixe ou carne. Que os pais não tenham emprego. E O SENHOR TEM SIDO ESSA MARCA DE HUMANISMO…
É que esta viagem que fiz, mostra-me também um concelho forte economicamente, com muita gente endinheirada, onde, apesar das contradições do regime e a ele filiados, não deixaram de ajudar os mais necessitados. Mas outros houveram que nada fizeram. E se roçarmos o olhar por algumas páginas do Comissão de Assistência, vamos descobrir que em cinco anos, Loulé, a sua Comissão de Assistência, afinal homens que amavam os outros HOMENS, não foram capazes de construir a grande necessidade de época, que era fazer nascer um refeitório para os pobres. Homens, mulheres e crianças. Gente que andava na rua numerada como pobres, por força dos regulamentos municipais. Tão pobres que vendiam as suas próprias sopas…”
E depois, acrescento:
“Agradeço à minha família, à minha mulher que é uma Santa. Aliás, até tem dois nomes de Santas: Maria e Aflitos…aos meus filhos. O grande Pedro e a Grande Teresa. Isto é que é vaidade, mas também não é mentira o que estou A DIZER
Aos meus netos, o Guilherme, a Maria, o Manuel e a Sofia. QUE ANDAM POR AÍ…
À minha nora Cláudia. Aliás, eu nunca perco a oportunidade de colecionar filhas bonitas e ao meu genro Ricardo.
Pois é esta família que me tem aguentado. Suportado. Até me dizem que sou engando, nas contas que faço.

Dr.ª Ana Machado, vice-presidente da C. M. de Loulé, no uso da palavra. Na foto reconhece-se de costas e à esquerda, Luís Encarnação, presidente da CM de Lagoa

E o Dr. Vítor Aleixo, na mensagem, que nos faz chegar prefaciando o livro, em certa altura escreve: As últimas palavras são para o autor, Neto Gomes é uma figura incontornável do Algarve das últimas décadas, um homem sensível e de um coração imenso, amigo do seu amigo e sempre pronto a ajudar. Um contador de histórias e um apaixonado pela sua região e pelas suas pessoas, ao longo dos últimos anos tem-se dedicado a brindar-nos com obras de referência sobre a história de instituições relevantes da nossa comunidade, depois da Misericórdia de Loulé, esta obra sobre a Casa da Primeira Infância revela toda a capacidade de Neto Gomes de inscrever para memória futura o impacto social desta instituição que nasce de um ato de amor e que continua como um ato de Amor às nossas crianças.
Neto Gomes deixa-nos um maravilhoso Hino sobre a importância da Educação para construirmos um mundo Feliz e, ao mesmo tempo, faz uma homenagem belíssima a todos quantos passaram pela instituição, dirigentes, doadores, trabalhadores e, principalmente, as nossas Crianças!
Uma obra que contribui significativamente para compreender melhor a sociedade louletana dos últimos 75 anos!»”

Homenagear os Drs. João Macedo Dória, Fernando Reis, António Rosa Mendes e o Eng.º Luís Guerreiro


E já perto do cair do pano e na simbologia dos agradecimentos, acrescento: “E porque nunca caminhamos sozinhos, após subirmos ao galho de onde avistamos a concretização de mais uma obra, venho aqui expressar os meus mais humildes agradecimentos à Ana Rosa, por tudo quanto nos ajudou, pela sua simplicidade, que olhava a cada página, enquanto adormecia os três filhos. Agradecimentos, que se eternizarão até que as páginas deste livro sejam queimadas como a Roma Antiga.
Obrigado à Dr.ª Dália Paulo por nos ter aberto a janela à Ana Rosa e por outros passos, que tornaram real esta obra.

Luísa Travassos e Susana Travassos Reis com Neto Gomes


Ao Marco Santos, pelo abracito que nos deu;
À Ana Costa, antiga Directora da CPI;
À Ana André e à Helga Serôdio, ambas da Divisão de Cultura, Museu e Património da Câmara Municipal de Loulé; Ao Jorge Palma; À Salomé Horta, da Biblioteca António Rosa Mendes – Universidade do Algarve; Ao Carlos Albuquerque, jornalista da RTP; Ao Hugo Aragão, Director do Arquivo RTP; À Paula Marinho, dos Miúdos; À Cristina Farrajota; À Ivone Silva, actual Directora Pedagógica da CPI;
Ao Coronel Silva Gomes, Presidente da Assembleia Geral da CPI;
E finalmente ao José Teiga, Presidente da Direcção da CPI.
Afinal. Nunca caminhamos sozinhos, mesmo num tempo onde por vezes corremos o risco de encalharmos nas nossas próprias sombras. Aliás, nunca poderemos caminhar sozinhos, quando temos amigos devotos.
Afinal, contra os ventos e marés, aqui está mais um incrível momento da nossa vida.
Uma vida sem segredos, que se reacende em cada sopro da própria chuva, deixando à terra de três dos meus quatro netos, (Guilherme, Maria e Manuel, pois a Sofia nasceu em Faro), mais uma obra, que quero dedicar aos meus amigos, Drs. João Macedo Dória, Fernando Reis, António Rosa Mendes e ao Eng.º Luís Guerreiro.
Uma obra, que será um contributo enorme para a história, a memória e o conhecimento da Casa da Primeira Infância de Loulé, enraizada na matriz de Educar para a Paz e inegavelmente do próprio Concelho de Loulé.
Não! Nunca caminhamos sozinhos, quando temos a extraordinária família que nos agita rumo a cada novo dia, e que têm sido todo o meu caminhar”.

Neto Gomes

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