Ideologia, ciência e ética

Vivemos numa era em que as ideologias proliferam e estão na moda, em consequência de vivermos numa sociedade que se diz e é supostamente democrática. Mas muitas dessas ideologias estão disfarçadas de conhecimento científico em domínios como a Ciência Política, a Economia, a Sociologia e outras ciências humanas e não humanas. Veja-se o exemplo de um estudo recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos que, propondo uma reforma da administração pública, recomenda o aumento da idade de aposentação para os 69 anos. Esta proposta é baseada em pressupostos científicos ou ideológicos? Ou então, quando aparece em manuais escolares ou no discurso de economistas a ideia de que acabou ou acabará “o emprego para toda a vida” está-se a falar do conhecimento científico que é suposto ser o que consta de manuais escolares e do discurso de especialistas numa dada ciência ou uma mera perspetiva ideológica? E quanto às parcerias público privadas, por exemplo, na saúde? Os partidos políticos que as têm defendido argumentam que é ideológica a opção de não implementá-las. E não é igualmente ideológica a opção de as defender? E que dizer quanto à crescente tentativa de precarização laboral? Haverá alguma base científica que a sustente? No que concerne à educação, serão cientificamente fundamentáveis o atual modelo de gestão de escolas, os mega agrupamentos, a municipalização, a progressiva degradação da profissão docente ou o modelo educativo que se está a tentar implementar? Não. Tudo isto é ideológico. Mas certos setores ideológicos, não assumindo a raiz ideológica das suas teses, parecem afirmar que só a oposição a estas é que é ideológica.

Defesa da escola pública é mera ideologia? Defesa do trabalho digno, da igualdade, da inclusão, da justiça social e da democracia são meras pers-petivas ideológicas? E será possível uma escola sem ideologias como atualmente se tenta defender como importante em países como a Alemanha ou o Brasil?
Ninguém é neutro. Todos temos perspetivas ideológicas e nem sequer a ciência é neutra. Defender a escola sem ideologias é defender uma ideologia totalitária que o bom senso nos manda rejeitar. Na verdade, há ideologias e ideologias. Mas algumas são seguramente melhores que outras. Quanto melhores forem os princípios éticos que estão na base de uma ideologia melhor será essa ideologia.
A defesa de serviços públicos de qualidade sem a interferência de interesses privados, do trabalho digno, da igualdade, da inclusão, da justiça social e da democracia podem ser perspetivas ideológicas. Mas têm pelo menos na sua base melhores princípios éticos do que outras. É impossível haver bons argumentos de princípio que justifiquem o seu contrário.

E o mesmo acontece com a carreira docente digna, assim como a recuperação integral do tempo de serviço que ainda não nos foi assegurada. O mais fundo e elementar por que atualmente lutam os professores é do domínio da ética. Podemos ser ideológicos, mas os princípios mais elementares de justiça estão do nosso lado. Outras ideologias há que se baseiam numa suposta realidade, num suposto conhecimento científico e numa suposta necessidade imperiosa de justificar a injustiça, a desigualdade, a precariedade e a exploração. Os seus princípios não são bons pois não têm a justiça do seu lado. Não há ciência nem circunstâncias que possam fundamentar a injustiça. Mas a nossa ideologia, a nossa ética e a nossa luta estão seguramente do lado da justiça.

António Macedo

Professor de Filosofia e dirigente sindical do SPZS

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