OPINIÃO

Imunização de grupo, a que custo?

OPINIÃO | ANA SIMÕES
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A segunda fase do desconfinamento definido pelo governo, deu-se no dia 18 de maio.


Neste dia, retomaram-se as atividades letivas presenciais do 11.º e 12.º os (às disciplinas de exame nacional) e a reabertura de creches e instituições de Educação Especial.


O contributo dos docentes, não docentes e alunos será igual aos dos profissionais de outros serviços essenciais que têm funcionado nesta situação de exceção em que vivemos.


Todos percebemos que não podemos ficar confinados até ao surgimento de uma vacina porque isso implicará uma espera de um ano e meio a dois anos.


Todos compreendemos que o desconfinamento gradual e faseado é importante para o retorno a uma “normalidade” social e económica, tão necessárias ao desenvolvimento do nosso país.


Todos estamos conscientes que o risco de infeção existe, seja onde for e que temos de aprender a viver com este risco por mais algum tempo.


Também todos sabemos que é importante a imunização de grupo mas esta não pode ser feita a qualquer custo.


Sem garantir as condições de saúde definidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como por exemplo, realizar o maior número possível de testes de despistagem, o governo está apenas a pensar na economia do país e não na saúde dos cidadãos.


Sem testar toda a comunidade escolar (docentes, não docentes e alunos) que estará envolvida neste retorno às aulas presenciais (cerca de 200 mil cidadãos só nas escolas secundárias), estará o governo a utilizar como “cobaias” estes cidadãos, na expectativa de imunização coletiva a qualquer custo, tendo consciência que muitos serão infetados, alguns imunizados e outros morrerão?


O governo deve assumir esta opção, ou seja, deve assumir que a segunda fase do desconfinamento é uma opção política, pura e simplesmente de âmbito social e económico.


Num momento em que as escolas, creches e instituições de Educação Especial abrem parcialmente as portas para as atividades presenciais é fundamental sabermos se há cidadãos infetados.


Sabemos que a maioria dos infetados são assintomáticos (não têm sintomas o que leva à ilusão de não estarem infetados) mas, estando infetados, podem infetar os outros (para além das consequências negativas, ainda desconhecidas, para a sua própria saúde).


Podemos fazer o teste hoje e ficarmos infetados amanhã. É verdade. Qualquer cidadão pode fazer uma análise hoje e amanhã ter cancro. Hoje estou bem e amanhã sou atropelado. É o risco com que todos nós temos de viver.


Mas no momento em que, passados dois meses (em que não sabemos onde e com quem as pessoas estiveram) voltamos a estar num mesmo espaço, devemos ter a segurança e confiança de que nenhum de nós está infetado. Por que se algum de nós estiver, não poderá frequentar esse espaço. Isto é o básico de cuidados de saúde pública.


A comunidade escolar que regressa agora às escolas secundárias representa um número elevado de cidadãos. É verdade. O governo não quer fazer essa despesa. Mas é fundamental. Não é por acaso que algumas Câmaras Municipais estão a disponibilizar a realização de testes às comunidades escolares das escolas públicas dos seus concelhos. Mas esta deverá ser uma responsabilidade do estado, assumida pelo governo.


Os cidadãos devem retomar a sua vida mas não a qualquer custo, ou seja, não à custa da sua vida ou da sua morte, exigindo todas as condições de segurança e proteção sanitárias para este retorno social e laboral.

Ana Simões

Professora, Dirigente sindical e coordenadora distrital de Faro – Sindicato dos Professores da Zona Sul




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